Mayara Subtil e Suellen Nunes*
Nativo da região amazônica, o cacau é uma das principais cadeias produtivas do Estado e é a base de uma bioeconomia que gera renda para a agricultura familiar, comunidades tradicionais e ribeirinhas, preserva a floresta em pé e contribui para a recuperação de áreas degradadas. Nesse contexto, iniciativas que fortalecem a cadeia produtiva e ampliam a visibilidade do setor ganham ainda mais relevância.
Foi com esse propósito que, entre os dias 23 e 26 de abril, o Hangar Convenções & Feiras da Amazônia, em Belém (PA), recebeu a 10ª edição do Festival Internacional do Chocolate e Cacau. O evento reuniu produtores, marcas e o público em geral em torno de produtos, debates e oportunidades ligadas ao cacau, consolidando-se como um espaço de conexão e negócios.
De acordo com a SEDAP (Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca), o evento reuniu cerca de 100 mil visitantes e movimentou ao menos R$15 milhões em negócios diretos e futuros. No total, contou com 170 estandes com a comercialização de produtos derivados do cacau, bem como flores e plantas. Ao longo de quatro dias, a programação incluiu debates e visitas técnicas, oficinas de arranjos florais, atividades voltadas ao público infantil e apresentações culturais.
O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) marcou presença ao lado de nove beneficiários do projeto Sustenta & Inova, que apresentaram seus produtos e experiências aos participantes do festival. Financiada pela União Europeia e coordenada pelo Sebrae, a iniciativa executada pelo IPAM na região da Transamazônica, busca desenvolver e implementar práticas agrícolas sustentáveis e inovadoras, além de promover o desenvolvimento das cadeias de valor na Amazônia brasileira, com foco na conservação da biodiversidade; redução do desmatamento e restauração da paisagem; além de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Com assistência técnica do instituto, o Sustenta & Inova atende 250 famílias de agricultores, além de apoiar as gestões municipais de meio ambiente e agricultura em seis municípios da região Transamazônica.
“A Transamazônica hoje é o maior pólo produtivo de cacau do estado do Pará, e lá nós também apoiamos 20 empreendimentos da agricultura familiar, dos quais pelo menos 14 estão ligados à cadeia produtiva do cacau. Este ano, viemos com oito marcas de chocolate que já obtiveram prêmios em anos anteriores e que estão aqui para expor e comercializar seus produtos. O festival acaba sendo uma grande vitrine de divulgação desses produtos e dessas marcas”, disse Elisângela Trzeciak, pesquisadora e coordenadora regional Transamazônica e Xingu do IPAM.
Beneficiária do Sustenta & Inova, a produtora de cacau de Brasil Novo (PA), Iradir Frutuoso, compartilha a trajetória de crescimento de seu trabalho, além do impacto do apoio da iniciativa no processo de desenvolvimento da produção.

Comunicação/Sustenta e Inova
“São três anos desde que construímos a fábrica, com muito esforço e dedicação, sempre trabalhando com cacau orgânico e buscando qualidade em cada produto. O nosso chocolate 50% com café é um dos que mais representa esse cuidado. Ver nossos produtos ganhando espaço e reconhecimento é motivo de muito orgulho, e as parcerias e o apoio que recebemos têm sido fundamentais para fortalecer e dar continuidade a esse trabalho”, destacou.
Já para Cleide SuK, da Chocolate Suk, também beneficiária do projeto, no município de Brasil Novo, o diferencial da produção está na valorização de ingredientes da floresta.

Comunicação/Sustenta e Inova
“Trabalhamos com chocolates feitos a partir de amêndoas orgânicas e também com essências naturais, como nibs de cacau e combinações que agregam valor nutricional. Nosso foco é oferecer um produto de qualidade, que também contribua para o bem-estar de quem consome’, destaca.
Reconhecido por integrar diferentes elos da cadeia produtiva do chocolate, o Festival manteve sua proposta de aproximar produtores, especialistas e consumidores por meio de atividades que combinam conteúdo, cultura e degustação. Realizada na capital paraense, o destaque desta edição foi a valorização da produção regional e a abertura de espaço para iniciativas locais, promovendo a circulação de conhecimento e fortalecendo negócios conectados ao cacau amazônico.
O evento contou com apoio do Governo do Pará, por meio da Sedap, e do Funcacau (Fundo de Apoio à Cacauicultura do Pará).
Fórum do Cacau
O futuro da cacauicultura amazônica foi tema da 10ª edição do Fórum do Cacau, realizada no âmbito do Festival do Chocolate. Reuniu produtores, técnicos e pesquisadores para discutir desafios da cadeia, como a queda nos preços e o aumento dos custos, além de caminhos para fortalecer a produção, com destaque para sistemas agroflorestais, diversificação e acesso a mercados. O IPAM participou com agricultores acompanhados pela instituição, incentivando a troca de experiências entre diferentes territórios.
“Esta é a décima edição do Fórum do Cacau, em um cenário desafiador para a cadeia, com queda nos preços, custos em alta, juros elevados e impactos externos, como o aumento dos fertilizantes, que afetam a rentabilidade. É justamente nesses momentos que o setor precisa se reunir para construir estratégias conjuntas e fortalecer a organização, especialmente entre os pequenos produtores, para atravessar esse ciclo. O que fazemos aqui é compartilhar conhecimento, e é a partir dessa troca que conseguimos identificar desafios e pensar soluções coletivas”, afirmou o ambientalista Marcello Brito.
Produção de cacau no Pará
O protagonismo do Pará em sediar a 10ª edição do Festival Internacional do Chocolate e Cacau ajuda a exemplificar a relevância do setor na região. Segundo levantamento do IBGE (2024/2025), o estado se consolidou como líder nacional na produção de cacau do país, respondendo por mais de 47% da produção brasileira. Foram 154 mil toneladas produzidas, resultado da expansão da área cultivada e do aumento da produtividade, sobretudo na região da Transamazônica, território diretamente conectado a iniciativas como o Sustenta & Inova.
Esse cenário também se insere em um movimento mais amplo de fortalecimento da cacauicultura na Amazônia. A região Norte já responde por cerca de 57% da produção nacional, sendo o estado do Pará responsável pela maior parte desse volume.
Esse avanço não ocorre apenas pela expansão territorial, mas também pela adoção de práticas mais sustentáveis, como os Sistemas Agroflorestais (SAFs), que contribuem para a manutenção da biodiversidade, do ciclo da água e do estoque de carbono, gerando benefícios ambientais concretos. Estudo desenvolvido pelo IPAM mostra que os SAFs com cacaueiro representam uma alternativa estratégica para a recuperação de áreas degradadas na Amazônia, ao integrar produção agrícola com conservação florestal.
A pesquisa também aponta caminhos para transformar esses benefícios em retorno econômico aos produtores. Um dos modelos propõe a compensação por serviços ambientais no âmbito de mecanismos como o REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), considerando o acúmulo de carbono nos sistemas agroflorestais. A proposta busca criar uma alternativa de financiamento que faça a fusão entre viabilidade econômica, inclusão social e conservação ambiental.
Analistas de comunicação do IPAM*


