Por Nikole Cantoara*
Embora os impactos crescentes causados pelo fogo, secas severas, tempestades de vento, efeito de borda e eventos climáticos extremos pressionam cada vez mais a floresta amazônica, os resultados mostram que a floresta ainda demonstra capacidade de recuperação. No entanto, essa regeneração não significa um retorno completo ao estado original.
A constatação é resultado do novo artigo conduzido por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), publicado na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences). O estudo teve início em 2004, quando pesquisadores visitaram a região sul da Amazônia, em Mato Grosso, com o objetivo de monitorar os impactos da fragmentação e degradação florestal. Na época, modelos climáticos já indicavam que essa porção do bioma seria mais impactada por secas extremas e, consequentemente, mais suscetíveis a incêndios devido aos altos índices de desmatamento e fragmentação.
Os cientistas estabeleceram três tratamentos na Estação de Pesquisa Tanguro, um laboratório a céu aberto do IPAM e simularam diferentes regimes de incêndio para compreender como a floresta reagiria a diferentes condições de degradação: uma parcela queimada anualmente, outra queimada a cada três anos e uma área controle, sem fogo.
Ao contrário do que se esperava, os resultados mostraram que queimadas menos frequentes podem causar impactos mais severos. “Esperávamos que o fogo anual tivesse maior efeito, mas o que observamos foi o oposto. O fogo, a cada três anos, gera maior intensidade, com chamas mais altas, porque há acúmulo de biomassa na terra, o que ultrapassa a resistência das árvores e aumenta a sua mortalidade”, explica Leandro Maracahipes, pesquisador associado do IPAM e autor principal do estudo.
Em paralelo, eventos de seca extrema registrados em 2007 e 2010 intensificaram os impactos, elevando a mortalidade das árvores em até 30%. O estudo analisou diferentes tipos de distúrbios que afetam a floresta, e em um dos eventos extremos registrados, uma tempestade de vento foi responsável por derrubar 5% das árvores na área, equivalente à mortalidade esperada ao longo de um ano inteiro.
Toda essa degradação florestal foi ainda mais intensa nas bordas da floresta. “O cenário é preocupante. O desmatamento não afeta apenas a área diretamente derrubada, mas também altera as condições da floresta ao redor, tornando-a mais vulnerável ao fogo, a tempestades de ventos e a degradação florestal. As bordas desses fragmentos são especialmente críticas, já que é ali que a maioria dos incêndios começa, quase sempre por ação humana”, relata Paulo Brando, pesquisador associado do IPAM e um dos líderes dessa pesquisa.
Apesar dos impactos causados, observou-se que as florestas conseguem se regenerar, desde que alguns fatores como a retirada de distúrbios antropogênicos e a conservação de áreas próximas dos locais degradados estejam presentes.
Esse processo de recuperação está diretamente ligado à dispersão de sementes, que permite o repovoamento da vegetação nas áreas em recuperação. Com a proximidade de florestas conservadas, as sementes conseguem chegar a esses ambientes, principalmente, através dos animais.
“A anta, por exemplo, ajuda a levar sementes de espécies mais resistentes, de crescimento lento, e que estocam carbono por centenas de anos para áreas em recuperação. Sem essa dispersão, o processo de regeneração fica comprometido”, destaca Maracahipes.
Esse fluxo de espécies é essencial para que a regeneração avance ao longo do tempo, especialmente com a chegada de espécies mais resistentes e de crescimento mais lento, que ajudam a restabelecer a estrutura da floresta, favorecendo o surgimento de novas plantas e a recomposição da cobertura florestal.
Cientistas alertavam que florestas severamente degradadas por múltiplos distúrbios consecutivos caminharam para o colapso, adotando “estados estáveis alternativos”, mais suscetíveis a novos eventos extremos. O temor era de que essas áreas atingissem o chamado ponto de não retorno, ou tipping point: momento em que a floresta perde sua capacidade de se regenerar e se transforma em outro tipo de ambiente, em um processo irreversível.
“Embora, as florestas degradadas apresentam um quadro mais complexo. O estudo mostra que, mesmo sob enorme pressão, nossas florestas experimentais não perderam sua capacidade fundamental de permanecer florestas. Apesar de colapsos dramáticos na biodiversidade e na complexidade estrutural, elas mantiveram a capacidade de recuperar algumas de suas características fundamentais dentro de uma década ou mais. Esse é um achado significativo e, com cautela, sim, é um motivo para otimismo”, comenta Brando.
Os resultados reforçam que, embora a floresta amazônica ainda apresenta capacidade de regeneração, esse processo depende das condições ao seu redor. A persistência de distúrbios como o fogo e o desmatamento, aliada à perda de fauna e à fragmentação das áreas florestais, pode comprometer essa recuperação ao longo do tempo.
Para os autores, conter a degradação e manter a conectividade entre florestas se torna essencial não apenas para garantir a regeneração, mas para evitar que esses ecossistemas se aproximem de um ponto de não retorno. “Se controlarmos os distúrbios e mantivermos as fontes de sementes e os animais dispersores, a floresta tem capacidade de se recuperar. Mas esse processo tem limites e depende diretamente das nossas ações”, finaliza Leonardo Maracahipes-Santos, pesquisador do IPAM e um dos autores do artigo.

