Jornada agroflorestal conecta produtores e fortalece SAFs no Pará

27 de abril de 2026 | Notícias

abr 27, 2026 | Notícias

Suellen Nunes*

A troca de conhecimentos entre agricultores familiares, técnicos e pesquisadores marcou a “Jornada Técnica Agroflorestal: conexões amazônicas Transamazônica/Tomé-Açu”, realizada entre os dias 20 e 24 de abril, em Tomé-Açu, no Pará.

Promovida pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), em parceria com a GIZ (Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável), a iniciativa integra ações do projeto “Restauração Florestal na Amazônia: recuperação de áreas alteradas no Estado do Pará, no âmbito do Projeto Regulariza Rural.”

Voltada ao fortalecimento da produção em SAFs (Sistemas Agroflorestais), a jornada apostou no intercâmbio de experiências para ampliar a adoção de práticas sustentáveis na Amazônia, promovendo a articulação entre diferentes territórios e perfis de produtores.

Referência em agrofloresta no país, o município de Tomé-Açu reuniu participantes das regiões da Transamazônica e do Xingu em uma programação que combinou visitas técnicas, troca de experiências e debates sobre desafios comuns à produção agroflorestal.

Produtores compartilham técnicas e resultados

O encontro estimulou o fortalecimento de redes locais e a discussão de temas como manejo, produtividade, pragas, doenças e acesso a mercados diferenciados, valorizando o papel de agricultores, jovens e mulheres na construção de sistemas produtivos mais resilientes.

Para Edivan Carvalho, coordenador estadual do IPAM no Pará, este não é um momento de ensinar, mas de troca de saberes. “A proposta é reconhecer o conhecimento que cada agricultor e agricultora traz de sua realidade. Queremos criar um espaço de diálogo e construção coletiva, onde seja possível compartilhar experiências, tirar dúvidas e conhecer diferentes estratégias de sistemas agroflorestais, levando ideias que possam ser aplicadas nos territórios”, explica.

A iniciativa dá continuidade a ações voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva do cacau na Amazônia por meio dos SAFs, aprofundando aprendizados construídos em articulações anteriores.

Durante a programação, os participantes conheceram, na prática, diferentes modelos de sistemas agroflorestais implantados em campo, observando estratégias de manejo, diversificação de culturas e organização produtiva. As visitas evidenciaram a viabilidade de conciliar SAFs à produção agrícola, contribuindo para a recuperação de áreas degradadas e geração de renda.

“Esse intercâmbio mostra como temos muitos manejos diferentes no mesmo Estado. Mesmo com todos nós já atuando na agricultura, essas experiências mostram que devemos estar sempre inovando no campo”, destaca Antônio Lima, agricultor familiar na Transamazônica.
As visitas foram realizadas em quatro áreas produtivas com características distintas, destacando a diversidade de agroflorestas, desde sistemas em fase inicial até modelos mais consolidados, com diferentes níveis de manejo e organização produtiva.

O percurso incluiu, ainda, um sistema de grande escala, estruturado como empreendimento, integrando produção, beneficiamento e acesso a mercados. O contraste demonstra como os SAFs podem se adaptar a diferentes realidades e níveis de investimento.

SAFs avançam com base em cooperação local

A Jornada busca ampliar as perspectivas produtivas na região, como destaca Rogério Brito, assessor técnico da GIZ. “A proposta é aproximar técnicos e produtores da Transamazônica das experiências desenvolvidas em Tomé-Açu, reconhecido como berço dos sistemas agroflorestais no Pará. Ainda temos um cenário marcado pela monocultura do cacau, e esse intercâmbio abre espaço para diversificar a produção com base na biodiversidade, fortalecendo a renda e a sustentabilidade das propriedades”, explica.

Para Elder Silva, professor e representante da Casa Familiar Rural de Placas (PA), o intercâmbio é uma oportunidade de transformação. “Essa experiência representa uma alternativa de produção para o nosso município e contribui para a recuperação de áreas e troca de conhecimentos. Estar em Tomé-Açu nos permite conhecer esses modelos e levar esse aprendizado para aplicar na nossa realidade”.

Ao reunir diferentes perfis de produtores e instituições, o evento se consolidou como estratégia de desenvolvimento sustentável, aliando produção, conservação ambiental e valorização dos saberes locais.

“Encerramos essa jornada com a certeza de que o intercâmbio de saberes, aliado às experiências práticas e ao conhecimento técnico, fortalece os sistemas agroflorestais como estratégia de desenvolvimento sustentável na Amazônia. Ao longo desses dias, foi possível conectar diferentes realidades e reforçar a integração entre produção, conservação e geração de renda”, afirma Elisângela Trzeciak, coordenadora do IPAM na Transamazônica.

O papel das cooperativas

A jornada teve participação de seis cooperativas amazônicas que puderam conhecer a experiência da CAMTA (Cooperação Agrícola Mista de Tomé-Açu). referência na organização da cadeia produtiva agroflorestal, aliando produção sustentável, agregação de valor e acesso a mercados nacionais e internacionais.

“Atualmente, a cooperativa reúne 173 cooperados ativos e conta com cerca de 1.800 produtores cadastrados, beneficiando diretamente pelo menos 10 mil pessoas. Com quase 90 anos de trajetória, a CAMTA se destaca pela exportação de aproximadamente 5 mil toneladas de polpa de frutas por ano”, afirma Edinaldo Santos, diretor de assistência agrícola da Cooperativa.

A Jornada Agroflorestal faz parte do “Projeto Regulariza Rural”, coordenado pelo SFB (Serviço Florestal Brasileiro) e o IICA Brasil (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura), com apoio financeiro do KfW (Banco de Desenvolvimento Alemão). A iniciativa apoia os estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia na implementação da regularização ambiental e no monitoramento da vegetação nativa. No Pará, as ações são promovidas pelo IPAM, em parceria com a Semas.

Analista de Comunicação do IPAM*.



Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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