Bonn debate futuro da agricultura em contexto de crise climática

11 de junho de 2026 | Notícias

jun 11, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

A construção de sistemas alimentares mais resilientes e a ampliação do financiamento para a agricultura diante de um contexto global de crise climática têm ocupado espaço na Agenda de Ação e do Grupo de Trabalho de Agricultura da Conferência de Bonn, na Alemanha. Os negociadores vêm reforçando a necessidade de transformar compromissos climáticos em medidas concretas capazes de fundir adaptação, mitigação e segurança alimentar, bem como ampliar investimentos em práticas agrícolas alinhadas à conservação ambiental.

É nesse contexto que o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) leva à Bonn a proposta de Agricultura Tropical Regenerativa, iniciativa que busca consolidar um conceito adaptado às realidades ecológicas, sociais e produtivas dos trópicos. A ideia é superar a visão de que conservação e produção são agendas separadas e reconhecer a floresta em pé como parte da infraestrutura da produção agrícola pelos serviços ecossistêmicos que presta, como a regulação da temperatura e o transporte de umidade.

“A gente quer ter o conceito da agricultura regenerativa totalmente tropical e definido para escalar práticas que levem em consideração a conservação, porque já não é mais uma questão só de conciliar conservação e produção. Precisamos reconhecer a floresta em pé como infraestrutura da produção agrícola como estratégia de adaptação à nova realidade climática”, reforçou Ludmila Rattis, pesquisadora do IPAM e do Woodwell Climate, além de professora da FDC (Fundação Dom Cabral), que acompanha as negociações climáticas em Bonn.

A proposta parte da premissa de que os modelos de agricultura regenerativa desenvolvidos em regiões de clima temperado não contemplam 100% as especificidades dos trópicos. Solos, clima, dinâmica dos ecossistemas, diversidade de sistemas produtivos e forte presença da agricultura familiar exigem uma abordagem própria, capaz de integrar segurança alimentar, conservação da biodiversidade e adaptação aos efeitos extremos das mudanças climáticas.

A agricultura tropical regenerativa consiste em um conjunto de práticas voltadas à recuperação da saúde do solo, à conservação da biodiversidade e ao fortalecimento da resiliência dos sistemas produtivos diante das mudanças climáticas. A proposta busca integrar produção e conservação, valorizando processos naturais e serviços ecossistêmicos essenciais para a sustentabilidade da atividade agropecuária.

Entre esses serviços está justamente o papel das florestas na estabilização do clima local. Pesquisa recente do IPAM aponta que áreas de floresta conservada, sobretudo as FPNDs (Florestas Públicas Não Destinadas), desempenham função estratégica na manutenção dos rios voadores, fenômeno responsável pelo transporte de umidade que abastece sistemas agrícolas em diferentes partes da América do Sul.

Para os pesquisadores, a vegetação nativa funciona como uma infraestrutura natural capaz de reduzir temperaturas, transportar umidade e criar condições mais favoráveis para a produção agrícola, principalmente em um cenário de agravamento dos eventos extremos por conta das mudanças climáticas.

O conceito em desenvolvimento também busca enfrentar a ausência de uma definição consolidada para a agricultura regenerativa nos trópicos. Hoje, o termo é utilizado para caracterizar práticas bastante distintas, dificultando a formulação de políticas públicas, o desenvolvimento de instrumentos financeiros e a criação de mecanismos de incentivo para produtores interessados em migrar para sistemas mais sustentáveis.

Premissas

Estruturada em quatro premissas, a proposta defendida pelo IPAM é desenvolvida por um grupo de parceiros que incluem FDC, Woodwell Climate Research Institute, Instituto Folio, Cátedra Josué de Castro e GAAS (Grupo de Apoio à Agricultura Sustentável). A primeira é a necessidade de pensar a regeneração em escala de paisagem, reconhecendo que processos como a regulação hídrica, a conectividade ecológica e a estabilidade climática dependem da cooperação entre diferentes propriedades rurais. A segunda defende que a transição deve ser acessível a todos os perfis de produtores, desde agricultores familiares até grandes empreendimentos, respeitando as diferentes realidades produtivas.

A terceira premissa está relacionada às chamadas “alavancas” da agricultura tropical regenerativa, práticas capazes de gerar benefícios simultâneos para múltiplos componentes do sistema, como água, biodiversidade, carbono, clima, solo e aspectos socioeconômicos. A lógica é simplificar a implementação e reduzir custos de monitoramento, concentrando esforços em ações que produzam impactos positivos em diferentes dimensões da sustentabilidade.

Já a quarta premissa propõe que a implementação dessas práticas seja acompanhada por indicadores simples, cientificamente robustos e de baixo custo, permitindo que a transição seja monitorada e ampliada em larga escala. A proposta considera que a mudança para sistemas regenerativos representa não apenas uma transformação técnica, mas também econômica e cultural para os produtores rurais.

Outro diferencial do conceito é o reconhecimento do papel dos conhecimentos tradicionais e locais na construção de sistemas produtivos mais resilientes. Para o grupo de pesquisadores, a experiência acumulada por agricultores, povos indígenas e comunidades tradicionais é fundamental para compreender quais práticas funcionam em diferentes contextos ecológicos e como elas podem contribuir para restaurar funções ambientais e fortalecer a produção de alimentos.

O trabalho também servirá de base para o desenvolvimento de um Índice de Agricultura Tropical Regenerativa, ferramenta que poderá subsidiar políticas públicas, mecanismos de pagamento por serviços ambientais, linhas de crédito rural verde, mercados de carbono e sistemas de monitoramento, reporte e verificação associados às metas globais de enfrentamento às mudanças climáticas.

As negociações até aqui

As negociações climáticas de Bonn também seguem avançando em outros temas considerados estratégicos à implementação dos compromissos assumidos no Acordo de Paris e à preparação da COP31. Os debates técnicos vêm girando em torno de assuntos como adaptação, financiamento climático, transição justa e mecanismos para acelerar a implementação das decisões já aprovadas nas reuniões de clima anteriores.

Um dos principais destaques do dia foi o avanço das discussões sobre o Programa de Trabalho de Mitigação [Mitigation Work Programme – MWP]. As negociações evidenciaram a busca por mecanismos capazes de transformar compromissos em ações concretas, com propostas para fortalecer as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), ampliar a troca de experiências entre especialistas e criar instrumentos técnicos que facilitem o acesso de países em desenvolvimento ao financiamento climático.

Na agenda de adaptação, os negociadores deram continuidade ao debate sobre as Comunicações de Adaptação e sobre o apoio aos LDCs (Países Menos Desenvolvidos). Entre as propostas discutidas está a criação de uma aliança voltada à implementação dos NAPs (Planos Nacionais de Adaptação), com foco na estruturação de carteiras de investimentos, no apoio à execução de projetos e na ampliação do acesso aos mecanismos de financiamento existentes.

Outro tema de destaque foi a operacionalização do Programa de Trabalho sobre Transição Justa. As discussões abordaram a criação de um mecanismo internacional para apoiar a cooperação, a transferência de tecnologia, a capacitação e o financiamento voltado à transformação econômica de baixo carbono, preservando princípios como equidade e responsabilidades comuns, porém diferenciadas. Também houve forte defesa para que trabalhadores, direitos sociais e populações diretamente afetadas ocupem papel central nesse processo.

Os debates também reforçaram a implementação dos compromissos climáticos por meio da articulação entre governos, setor privado, instituições financeiras e sociedade civil. Um dos espaços de diálogo destacou que a maior parte das novas NDCs apresentadas nos últimos dois anos já incorpora resultados do primeiro Balanço Global [Global Stocktake] do Acordo de Paris, indicando um esforço crescente para conectar as metas nacionais às decisões multilaterais. Entre os principais desafios apontados estão as barreiras estruturais ao financiamento, os altos custos do capital e a necessidade de acelerar a transição energética de forma socialmente justa.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

ODS 13ODS 2

Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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