Cerrado perdeu uma área equivalente a um Goiás e meio em 41 anos

12 de agosto de 2026 | Notícias

ago 12, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil
  • O Cerrado perdeu 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa em 41 anos, redução de 34,2% em relação à área mapeada no início da série histórica.
  • Nos últimos cinco anos (2020-2025), a perda de vegetação nativa voltou a acelerar, concentrando-se principalmente nos estados do Matopiba.
  • A agricultura foi o uso da terra que mais cresceu no período, expandindo 24,7 milhões de hectares desde 1985.
  • A formação savânica foi a classe de vegetação nativa mais afetada, com perda de 33,9 milhões de hectares (-41,4%) desde 1985.
  • Quase metade da vegetação nativa remanescente do Cerrado (47,7%) está no Matopiba, região que também respondeu por 37% da perda líquida de vegetação nativa do bioma desde 1985.
  • Em 2025, o Cerrado tem 49,5% de sua área ocupada por usos antrópicos, enquanto o restante permanece coberto por vegetação nativa e água.

O Cerrado perdeu 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, o que representa redução de 34% em relação à cobertura existente no início da série histórica mapeada. A área perdida em 41 anos equivale a aproximadamente uma vez e meia o território do estado de Goiás. Os dados são da Coleção 11 do MapBiomas, rede de organizações da qual o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) faz parte. A coleção reúne mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil entre 1985 e 2025.

“O Cerrado sustenta a água que abastece rios, cidades e a produção agrícola brasileira. No entanto, a expansão da agropecuária continua avançando sobre os remanescentes de vegetação nativa que garantem esses serviços ambientais. Perder essas áreas compromete a disponibilidade de água, altera o regime de chuvas e aumenta a vulnerabilidade da própria agropecuária às mudanças climáticas”, disse Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM.

Segundo maior bioma do país, o Cerrado possui uma área de aproximadamente 200 milhões de hectares, correspondendo a 23,6% do território brasileiro. Em 2025, a vegetação nativa cobria 49,6% da área do Cerrado, enquanto 49,5% era ocupada por usos antrópicos, atividades realizadas por seres humanos como pastagem, agricultura, silvicultura, áreas urbanizadas, mineração e infraestrutura de geração de energia.

A perda histórica de vegetação nativa e a crescente proximidade entre a proporção de áreas naturais e antrópicas revelam a velocidade e a magnitude das mudanças no uso e na cobertura da terra ao longo das últimas décadas. Ao todo, o Cerrado perdeu 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, um déficit de 31% em relação à sua área no início da série histórica.

Entre as classes de vegetação nativa, a formação savânica foi a que apresentou a maior perda absoluta de área, com redução de 33,9 milhões de hectares, representando cerca de dois terços de toda a perda líquida de vegetação nativa no Cerrado. Enquanto a perda absoluta considera toda a área desmatada ou suprimida, a líquida desconta desse total as áreas onde houve regeneração da vegetação. A formação savânica é a vegetação mais típica do Cerrado e ocupa 24% do território em 2025, seguida pela formação florestal (19%), pela formação campestre (2,3%) e pelo campo alagado e pela área pantanosa (3,2%).

Por outro lado, a pastagem é o tipo de uso da terra mais comum no Cerrado, ocupando 27% do território do bioma, seguida pela agricultura, com 14,8%. Apesar do predomínio histórico das áreas de pastagem, foi a agricultura que mais cresceu nas últimas quatro décadas, com expansão de 24,7 milhões de hectares, enquanto a pastagem avançou 17,3 milhões de hectares.

Juntas, a agricultura e a pastagem representam 81% de toda a expansão de usos antrópicos entre 1985 e 2025. Os 19% restantes correspondem sobretudo ao avanço de mosaicos de usos, áreas urbanizadas e mineração. Nesse período, as áreas antrópicas incorporaram 51,4 milhões de hectares, mais que dobrando em relação a 1985, com crescimento de 108%. Os resultados indicam um bioma em constante transformação, marcado por diferentes padrões espaciais e temporais de mudança no uso e na cobertura da terra.

Diferentes frentes de transformação do Cerrado

Nas primeiras décadas da série histórica, de 1985 a 2005, as principais frentes de expansão agropecuária se concentravam nas porções central e sul do Cerrado, especialmente nos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. Nesse período, predominou a abertura de novas áreas de pastagem.

Nas décadas seguintes, o ritmo de conversão da vegetação nativa diminuiu. A média anual de perda, que era de 1,6 milhão de hectares entre 1985 e 2005, caiu para 0,8 milhão de hectares entre 2005 e 2020. Ao mesmo tempo, as áreas que mais contribuíram para essa redução da cobertura nativa se deslocaram progressivamente para o norte do Cerrado, com destaque para Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí.

Entre 2020 e 2025, porém, esse movimento voltou a se intensificar, e a perda de vegetação nativa atingiu uma média de 1,4 milhão de hectares por ano. As principais frentes permaneceram concentradas no norte e no nordeste do bioma, enquanto mudanças no uso e na cobertura da terra também continuaram ocorrendo em outras regiões, como na divisa entre Cerrado e Pantanal, nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

“O deslocamento das principais frentes de expansão para o norte e nordeste do Cerrado representa não apenas uma mudança na localização da conversão de vegetação nativa, mas também altera a configuração da paisagem e aumenta a pressão justamento sobre regiões que ainda concentram extensas áreas de vegetação nativa e esse processo pode ampliar a fragmentação e o isolamento dos remanescentes, comprometendo a conectividade da paisagem e função e serviços ecossistêmicos, fundamentais para a região e o bioma”, explica Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM.

Os mapas mostram, para cada período de anos, as áreas do Cerrado que concentraram a expansão de pastagem, agricultura temporária e perda de vegetação nativa. Fonte: MapBiomas Coleção 11.

Esse deslocamento converge com a crescente importância ambiental e econômica do Matopiba. A região concentra parte expressiva da produção de commodities agrícolas do Brasil, mas também reúne quase metade dos remanescentes de vegetação nativa do Cerrado.

Matopiba: a última fronteira agrícola do Cerrado

Formado pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o Matopiba consolidou-se como um dos principais polos de produção de commodities agropecuárias do país. A região reúne hoje dois aspectos centrais para compreender o futuro do Cerrado: ao mesmo tempo que a região abriga 48% da vegetação nativa remanescente do bioma, foi responsável por cerca de 66% de toda a perda líquida de vegetação nativa registrada no bioma nos últimos 5 anos.

Entre 1985 e 2025, a área ocupada pela agricultura na região aumentou 24 vezes, passando de 0,2 milhão de hectares em 1985 para 6,8 milhões em 2025, o equivalente a 22% de toda a área de agricultura do Cerrado em 2025.

“Por abrigar os maiores e mais contínuos remanescentes de vegetação nativa em um Cerrado cada vez mais fragmentado, a conservação da região do Matopiba é fundamental para a regulação climática e a provisão de recursos hídricos, mas tem sido cada vez mais exposta ao avanço massivo da agropecuária e do desmatamento”, enfatizou Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM.

“Seus planaltos, com alta aptidão agrícola, têm sido amplamente desmatados para ampliar a produção de commodities, causando alterações no clima regional e contribuindo para a intensificação de eventos climáticos extremos – ameaçando a própria agropecuária. Assim, o desenvolvimento de um modelo econômico para o Matopiba é uma oportunidade estratégica para que o Brasil demonstre ao mundo que é possível conciliar conservação, produção e crescimento econômico”, complementou Conciani.

O cenário coloca a região em uma posição estratégica para a construção de modelos de desenvolvimento que conciliem produção, conservação e estabilidade climática no Cerrado.

Coleção 11

A Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas reúne dados sobre as transformações do território brasileiro entre 1985 e 2025. A nova edição apresenta a atualização da série histórica de 41 anos de monitoramento contínuo, além de avanços metodológicos que ampliam a precisão e o detalhamento das informações sobre a dinâmica da cobertura e do uso da terra no país.

Nesta edição, são mapeadas 33 classes de cobertura e uso da terra. Os dados anuais incorporam as classes de marisma, savana alagada, usina fotovoltaica e parque eólico. Em 2025, as usinas fotovoltaicas ocupavam 13,4 mil hectares no Cerrado, o equivalente a mais de um terço de toda a área dessa classe mapeada no Brasil. Já os parques eólicos somavam 2,2 mil hectares no bioma, correspondendo a 8% da área mapeada dessa classe no país. A inclusão dessas novas classes amplia a representatividade dos diferentes ambientes naturais e das formas de ocupação e uso do território brasileiro.

Os mapas anuais mantêm resolução espacial de 30 metros, permitindo acompanhar mais de quatro décadas de transformações em todos os biomas do país. Todos os dados, mapas, estatísticas e ferramentas de consulta da coleção 11 são disponibilizados gratuitamente na plataforma do MapBiomas Brasil, permitindo que pesquisadores, gestores públicos, órgãos ambientais, empresas, jornalistas e a sociedade civil acompanhem as mudanças na paisagem brasileira e utilizem as informações para subsidiar pesquisas, políticas públicas e ações de conservação e planejamento territorial.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

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