Agenda climática exige implementação e cooperação internacional, avalia IPAM

22 de setembro de 2026 | Notícias

set 22, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

A defesa feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que as mudanças climáticas retomem espaço nas discussões internacionais reforça a necessidade de manter o tema no centro das decisões políticas e avançar na implementação dos compromissos assumidos pelos países. A avaliação é de André Guimarães, diretor executivo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e enviado especial para a Sociedade Civil da COP30, sobre o discurso de Lula na abertura do Debate Geral da 81ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.

O IPAM também participa, nesta semana, da Semana do Clima de Nova York, realizada em paralelo à Assembleia Geral e que reúne representantes de governos, sociedade civil, setor privado e organizações internacionais em torno da agenda climática.

“Os impactos das mudanças climáticas estão cada vez mais presentes e exigem respostas coordenadas. O Brasil chega a esse debate com resultados importantes na redução do desmatamento e com instrumentos construídos a partir da COP30, como o TFFF e os mapas do caminho. O desafio agora é transformar essa agenda em implementação, ampliar o financiamento e manter a cooperação internacional necessária para acelerar a ação climática”, reforçou Guimarães.

No plenário da ONU, Lula cobrou a retomada da agenda climática nos principais meios de decisão global, diante da perda de espaço do tema em fóruns como G7 e G20. O presidente relacionou esse cenário aos efeitos cada vez mais evidentes das mudanças climáticas, como o derretimento de geleiras, eventos extremos e a ocorrência de um El Niño com impactos mais severos sobre as populações vulneráveis.

“Até pouco tempo, a resposta à mudança do clima estava consolidada no centro da agenda internacional. Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20, foros que reúnem os maiores emissores de carbono. É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao negacionismo”, reforçou Lula.

O presidente lembrou ainda a queda do desmatamento na Amazônia e citou o TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre), lançado na COP30, como parte dos esforços para ampliar o financiamento destinado à conservação das florestas tropicais.

“[O TFFF] mostra que é possível mudar antigos paradigmas. A floresta vale mais em pé do que destruída. Continuaremos reduzindo o desmatamento, que caiu pela metade na Amazônia e atingiu o menor nível em 11 anos. Temos autoridade moral para rejeitar medidas protecionistas disfarçadas de apego à causa ambiental”, disse.

Na transição energética, Lula destacou a participação das fontes renováveis na matriz brasileira e a disponibilidade de minerais críticos e terras raras como ativos estratégicos do país para a descarbonização da economia global.

“O Brasil é referência mundial em energia verde. Temos os minerais críticos e as terras raras de que o mundo precisa para realizar a transição energética. Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é em benefício dele que serão exploradas. O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais”.

A 81ª sessão da Assembleia Geral reuniu representantes dos 193 países-membros das Nações Unidas. Até 28 de setembro, chefes de Estado e representantes de governo apresentam suas prioridades diante de temas que atravessam a agenda internacional, a exemplo de conflitos, desenvolvimento sustentável, mudanças climáticas e cooperação entre as nações.

Ao abrir o debate, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, reforçou a emergência climática entre as questões centrais do atual cenário internacional.

“Olhando para o futuro, ele será moldado pela forma como enfrentaremos quatro grandes testes de poder: o poder sobre a guerra e a paz; o poder que concentra riqueza e impulsiona a desigualdade; o poder que alimenta o caos climático e a guerra contra a natureza; e o poder desencadeado pela inteligência artificial”, afirmou Guterres.

Tradicionalmente, cabe ao Brasil fazer o primeiro discurso entre os Estados-membros no debate geral. A prática é mantida desde 1955. Na sequência discursam os Estados Unidos, país anfitrião da sede das Nações Unidas.

A Assembleia Geral é um dos seis principais órgãos da ONU e o único em que todos os Estados-membros têm representação igualitária. Realizado anualmente, o encontro de alto nível é um dos espaços de debate entre líderes mundiais sobre desafios internacionais e prioridades para a atuação das Nações Unidas.

Multilateralismo

Às vésperas do encontro de alto nível, Brasil, Canadá, Quênia e União Europeia anunciaram a criação do Parceiros pelo Multilateralismo (P4M, na sigla em inglês), iniciativa voltada ao fortalecimento e à reforma do sistema multilateral, apresentada em artigo publicado no Financial Times.

A articulação busca aproximar países de distintas regiões em torno de respostas conjuntas para desafios que ultrapassam fronteiras nacionais. Entre os temas estão paz e segurança, governança econômica, inteligência artificial, saúde e mudanças climáticas.

Para o IPAM, a cooperação entre países é parte central no enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas, tanto para ampliar a ambição climática quanto para garantir financiamento e transformar compromissos internacionais em ações concretas. Segundo André Guimarães, a articulação entre diferentes países e regiões também permite compartilhar conhecimentos e construir respostas conjuntas.

“Precisamos coordenar ações, inovar, fazer diferente de como fizemos até agora. É fundamental que inauguremos um novo paradigma onde humanos e natureza se reintegrem, distintas classes sociais se harmonizem e as desigualdades entre elas sejam atenuadas. Dessa maneira, a gente pode construir, efetivamente, soluções e caminhos que permitam compatibilizarmos a proteção das florestas e dos ecossistemas naturais com a produção de alimentos e as atividades humanas, em geral”, afirmou o diretor.

Da COP30 à COP31

A Assembleia Geral da ONU acontece a menos de dois meses da COP31 e se soma aos espaços de articulação política antecedendo a próxima cúpula de clima. Depois de sediar a COP30, em Belém, em 2025, o Brasil seguiu à frente da presidência da conferência ao longo de 2026, com o desafio de avançar na implementação dos compromissos e decisões construídos durante o ciclo do comando brasileiro.

Entre as prioridades da presidência brasileira estão dois mapas do caminho. Um deles é voltado à transição para longe dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos, de forma justa, ordenada e equitativa. O segundo trata dos caminhos para parar e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030. As duas iniciativas buscam detalhar ações, atores e instrumentos necessários para colocar em prática compromissos já assumidos no âmbito das negociações climáticas.

Financiamento climático, adaptação e implementação também permanecem entre os principais eixos no caminho até a COP31. Na agenda de adaptação, o desafio passa por transformar metas e indicadores em planos nacionais e ações capazes de chegar às populações mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas.

No financiamento, o mapa do caminho de Baku a Belém busca apontar formas de mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 para apoiar a ação climática nos países em desenvolvimento. O debate envolve distintas fontes, como bancos multilaterais, recursos concessionais e capital privado, além de medidas regulatórias e mecanismos nacionais capazes de ampliar o fluxo de recursos.

Para Guimarães, que também encerra seu mandato como enviado especial da Sociedade Civil para a COP30, o caminho entre Belém e Antalya deve ser marcado pela transformação dos compromissos assumidos em ações concretas, com atenção especial à proteção das florestas e ao combate ao desmatamento.

“A COP30 deixou uma agenda muito clara de implementação. Agora, precisamos transformar os compromissos assumidos em caminhos concretos, com políticas, financiamento e participação dos diferentes setores da sociedade. No caso das florestas, o mapa do caminho é uma oportunidade de organizar soluções que já existem, dar escala a elas e construir as condições para parar e reverter o desmatamento até 2030”, disse.

A COP31 será realizada entre 9 e 20 de novembro, em Antalya, na Turquia. O encontro marca a passagem formal da presidência brasileira da conferência e terá um arranjo entre Turquia e Austrália, com a nação turca na presidência da cúpula e o país do hemisfério Sul pela condução das negociações.

Agenda climática em Nova York

As discussões sobre clima também avançam paralelamente à Assembleia Geral durante a Semana do Clima de Nova York. Nesta quarta-feira (23), André Guimarães participa de um painel promovido pela Climate Rights International para discutir o cenário político brasileiro em 2026 e seus possíveis impactos para a Amazônia, os povos indígenas e as comunidades tradicionais, além dos reflexos para a agenda climática global.

Também participam Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, e Daniela Ikawa, especialista em litigância climática da Climate Rights International.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

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