Manaus tem ar duas vezes pior do que o recomendado pela OMS

23 de setembro de 2026 | Notícias

set 23, 2026 | Notícias

Por Alice Pataxó e Lucas Guaraldo

 

Desde o começo de setembro, Manaus registrou ar duas vezes mais poluído do que o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde, segundo pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) que integram a RedeAr. A plataforma reúne dados de sensores de baixo custo instalados em diversos pontos da cidade. Segundo os pesquisadores, o material particulado fino emitido por queimadas está relacionado à fumaça que cobre a cidade desde o início de setembro.

Segundo nota técnica publicada pelo IPAM em Março de 2026, que utilizou imagens de satélite para medir as microparticulas no ar, o Estado do Amazonas foi o quarto mais afetado pela poluição atmosférica com base nas diretrizes da OMS  (Organização Mundial da Saúde), que estipula um limite anual de 5 µg/m³ (microgramas por metro cúbico), e de 15 µg/m³ de média diária. Em setembro, sensores da RedeAr apontaram uma média acima de 30 µg/m³ e picos acima de 160 µg/m³, registrados no dia 23, mais de dez vezes acima do limite estabelecido.

“A Região Metropolitana de Manaus registra, nos últimos dias, uma alta significativa no número de focos de calor. O avanço do fogo se estende por pontos estratégicos da região, com forte concentração ao longo do Rio Amazonas, incluindo as proximidades do Encontro das Águas, e ao longo do eixo da rodovia BR-319. A consequência direta desse cenário é a formação de volumosas colunas de fumaça”, explica Newton Monteiro, analista de pesquisa do IPAM.

Segundo o pesquisador, além das queimadas, a demora para que o material se espalhe para longe dos limites de Manaus também tem sido causado por efeitos do El Niño, que enfraquece os ventos da região.

“Em condições normais, os ventos predominantes na região tendem a dispersar a fumaça das queimadas para oeste, em direção ao Peru. No entanto, o atual episódio de El Niño, em curso e em fortalecimento desde meados de 2026, tem alterado esse padrão de circulação atmosférica, favorecendo o transporte da fuligem diretamente para Manaus e para os municípios vizinhos, o que resulta na degradação da qualidade do ar em toda a zona metropolitana”, completa Newton.

Atualmente, a RedeAr possui quatro sensores instalados em Manaus, administrados pela EducAir, do Programa de Educação em Qualidade do Ar da Universidade do Estado do Amazonas, coordenado pelo professor Rodrigo Augusto Ferreira de Souza. Baseados em tecnologia nacional, os sensores utilizados pela rede são mais baratos, adaptados à realidade amazônica e de fácil manutenção.

Focos de calor

Apesar da redução de 26% na área queimada no Amazonas no período entre janeiro e agosto de 2026 em relação ao ano passado, municípios da Zona Metropolitana de Manaus registraram picos na área atingida pelo fogo em agosto. Em Manacapuru, município de 101 mil habitantes localizado a menos de 100 km de Manaus, as queimadas afetam 2 mil hectares de vegetação, 293% a mais do que o registrado entre janeiro e agosto de 2025. Em Iranduba, também a menos de 40 km da capital amazonense, o aumento foi de 212%, segundo dados do Monitor do Fogo da rede MapBiomas, da qual o IPAM faz parte.

“Além dos dados tradicionais de focos de calor, o monitoramento do satélite geoestacionário GOES-19 aponta uma quantidade expressiva de pixels com anomalias térmicas na mesma faixa territorial. Essa métrica complementa o diagnóstico, confirmando áreas de calor intenso e atividade contínua de queimadas. Embora a resolução espacial seja muito menor comparado com as detecções de focos de calor, dada a magnitude e a extensão da frente de fogo e, principalmente, a irradiação de calor, foi possível constatar uma grande quantidade de anomalias térmicas por toda a margem direita do Rio Amazonas”, explica Newton.

Ameaça à saúde

As queimadas produzem uma série de poluentes tóxicos que podem permanecer no ar por semanas, como o monóxido de carbono, dióxido de nitrogênio, carbono negro, carbono marrom e precursores de ozônio, entre outros compostos. Entretanto, a principal ameaça à saúde pública é o material particulado menor que 2,5 micrômetros de diâmetro, conhecido como PM2,5 – um dos principais componentes da fumaça.

Quando inalado, o PM2,5 penetra no pulmão e na corrente sanguínea, permanecendo no corpo por meses após a exposição.

Essa exposição pode causar: irritação nos olhos, nariz, garganta e pulmões; tosse e sibilo; inflamação pulmonar, bronquite, e exacerbação de doenças cardiovasculares, como insuficiência cardíaca; e agravamento de outras doenças pulmonares.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a exposição ao PM2,5 está relacionada a 4,2 milhões de mortes por ano no mundo, além de doenças cardiovasculares e câncer de pulmão. A exposição à micropartícula também afeta desproporcionalmente grupos vulneráveis, como crianças, gestantes, idosos e povos indígenas, especialmente vulneráveis a doenças respiratórias, compondo o grupo de risco no SUS (Sistema Único de Saúde).

Em 2025, o Amazonas registrou 67 dias acima do limite de 15 µg/m³ e uma média anual de 10,67 µg/m³, o dobro do recomendado pela OMS, segundo pesquisadores do IPAM.

A exposição ao PM2,5 está diretamente relacionada a incêndios e queimadas que, na Amazônia, não ocorrem naturalmente. As chamas são resultado das atividades humanas, como o uso do fogo no manejo agropecuário e o desmatamento. Com as mudanças climáticas e o ressecamento da floresta, grandes queimadas ficam mais frequentes e difíceis de controlar, chegando mais perto de grandes centros urbanos e afetando a saúde de milhares de brasileiros.

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