Florestas não destinadas são essenciais aos rios voadores, diz estudo

8 de junho de 2026 | Notícias

jun 8, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*
  • Os rios voadores são responsáveis por mais de 70% das chuvas em áreas estratégicas do Peru e da Bolívia, sustentando a agricultura, o abastecimento de água e os sistemas energéticos em escala continental.
  • O estudo integrou dados de circulação atmosférica, categorias fundiárias, infraestrutura e risco de desmatamento para identificar os territórios mais importantes para a formação e a manutenção dos rios voadores. Os resultados mostram que essas rotas atravessam o Acre e o sudoeste da Amazônia, próximas aos corredores das BRs-319 e 364 e a extensas áreas de FPNDs (Florestas Públicas Não Destinadas), tornando essas regiões estratégicas para a segurança hídrica da América do Sul.
  • A pesquisa introduz o conceito de Territórios de Umidade Crítica, áreas que desempenham papel central na reciclagem e no transporte de umidade da Amazônia. Os resultados reforçam a necessidade de incorporar esses territórios às estratégias de ordenamento territorial, destinação de florestas públicas e políticas de conservação.
  • O estudo identifica que os rios voadores dependem fortemente da integridade de corredores florestais contínuos e mapeia três rotas sazonais do fenômeno. Entre elas, a rota da estação seca, localizada no sudoeste da Amazônia, é apontada como a mais vulnerável ao desmatamento e à fragmentação da cobertura florestal.
  • As FPNDs ocupam cerca de 50 milhões de hectares na Amazônia e armazenam aproximadamente 5 bilhões de toneladas de carbono, volume equivalente a quase metade das emissões globais anuais de CO₂. Enquanto permanecem sem destinação, essas áreas são alvo frequente de ocupação irregular e desmatamento ilegal, respondendo por cerca de 26% a 30% da derrubada registrada na Amazônia.
  • Entre as recomendações do estudo está o fortalecimento de políticas e programas já existentes de conservação e recuperação florestal, como o ARPA (Programa Áreas Protegidas da Amazônia) e o Planaveg (Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa), ampliando sua articulação com estratégias voltadas à proteção dos rios voadores.
  • Considerando que cerca de 60% das florestas amazônicas estão em território brasileiro, o estudo também recomenda o fortalecimento da cooperação entre os países amazônicos. Acordos transfronteiriços são apontados como fundamentais para garantir a segurança hídrica, a estabilidade climática e a redução dos riscos associados a eventos extremos no Brasil e nos países vizinhos.

A Amazônia produz enormes volumes de umidade que ultrapassam as fronteiras da floresta. Carregada pelos ventos, essa “água invisível” forma os chamados rios voadores, correntes de vapor d’água que atravessam milhares de quilômetros e ajudam a sustentar as chuvas em praticamente toda a América do Sul, incluindo regiões agrícolas, cidades e sistemas de geração de energia no Brasil e em países vizinhos. A nível global, esse fenômeno natural influencia o equilíbrio climático do planeta.

As FPNDs (Florestas Públicas Não Destinadas), áreas de floresta pública que ainda não receberam uma destinação oficial, desempenham um papel estratégico na manutenção dos rios voadores. A conclusão é de um estudo desenvolvido pela Amazon Conservation em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), que mapeou as principais rotas de transporte de umidade entre o Oceano Atlântico, a Bacia Amazônica e a Cordilheira dos Andes.

Para compreender o papel dessas áreas na dinâmica dos rios voadores, os pesquisadores analisaram, com base em modelagem atmosférica de alta resolução e integração de dados geoespaciais, como esses fluxos de umidade se formam, se organizam ao longo das estações e respondem às mudanças no uso da terra. O objetivo foi identificar os corredores críticos de transporte de umidade entre o Atlântico tropical, a Bacia Amazônica e o sopé da Cordilheira dos Andes, bem como os pontos onde a perda de cobertura florestal pode comprometer a eficiência desses rios, sobretudo para a segurança hídrica de países como Peru e Bolívia.

A pesquisa Keeping the Flying Rivers Flowing: How Nature Loss in the Brazilian Amazon Threatens Rainfall in Peru and Bolivia combina reanálises atmosféricas, trajetórias reversas de umidade, mapas de desmatamento, infraestrutura existente e planejada, além de levantamentos oficiais de áreas protegidas, terras indígenas e florestas públicas.

A partir dos diagnósticos, o estudo identifica que os principais corredores de transporte de umidade da Amazônia atravessam grandes extensões de FPNDs. São cerca de 50 milhões de hectares de florestas públicas que armazenam aproximadamente 5 bilhões de toneladas de carbono e ajudam a regular o clima e o regime de chuvas na Amazônia e em outras regiões da América do Sul, funcionando como territórios críticos para o transporte de umidade atmosférica.

“Áreas críticas para a manutenção dos rios voadores precisam ser incorporadas como prioridade nas políticas de governança territorial, destinação de florestas públicas e combate ao desmatamento ilegal. Nesse contexto, as FPNDs cumprem um papel estratégico. Além de representarem um compromisso legal do Estado brasileiro, sua destinação é fundamental para a segurança hídrica, a manutenção do regime de chuvas e a produção de alimentos no Brasil e em países vizinhos da América do Sul”, reforçou Rebecca Maranhão, pesquisadora do IPAM.

Mas enquanto estas florestas esperam tornar-se áreas protegidas, tornaram-se as mais vulneráveis ao desmatamento e à grilagem, justamente em um contexto em que sua função climática é central para a manutenção dos fluxos de umidade. Estima-se que entre 26% e 30% do desmatamento da Amazônia ocorra nessas florestas. Além disso, cerca de 60% da área total das FPNDs apresenta sobreposição com registros do CAR (Cadastro Ambiental Rural), uma prática que é motor da especulação fundiária, desmatamento ilegais e conflitos.

Rotas sazonais

A pesquisa avança ao mapear os rios voadores ao longo de três rotas sazonais distintas, associadas às estações chuvosa, de transição e seca. Cada uma dessas rotas apresenta diferentes níveis de vulnerabilidade ao desmatamento e à fragmentação florestal. A estação seca, por exemplo, depende da reciclagem de umidade pela vegetação e atravessa áreas já bastante pressionadas por conta da perda de floresta no sul da Amazônia. A de transição, por sua vez, opera como um período crítico de reorganização do fluxo atmosférico. Já na chuvosa, os rios voadores seguem trajetórias mais estáveis, apesar de que todas as rotas convergem para áreas estratégicas da Amazônia ocidental antes de alcançar a barreira dos Andes.

O estudo integrou dados de circulação atmosférica, categorias fundiárias, infraestrutura e risco de desmatamento para identificar os territórios mais importantes para a formação e manutenção dos rios voadores. Os resultados mostram que as rotas dos rios voadores atravessam o Acre, áreas no sudoeste da Amazônia associadas a corredores de infraestrutura, como as BRs 319 e 364, além de extensas áreas de FPNDs, representando corredores críticos para o transporte de umidade atmosférica.

O Acre recebe atenção especial na análise por concentrar a convergência das três rotas sazonais dos rios voadores antes que a umidade siga em direção ao Peru e à Bolívia. Segundo os autores, a combinação entre avanço do desmatamento e projetos de infraestrutura planejados para a região pode comprometer a eficácia dos rios voadores, responsáveis pela manutenção das chuvas no sudoeste amazônico.

Eventos climáticos e setor agrícola

O estudo também relaciona esses resultados a eventos climáticos extremos ocorridos nos últimos anos. A seca ocorrida entre 2023 e 2024 na Amazônia, a mais severa já registrada, é usada como referência para ilustrar os impactos potenciais de uma redução prolongada dos serviços dos rios voadores. Embora o evento tenha múltiplas causas climáticas, evidencia a vulnerabilidade estrutural do sistema amazônico a alterações combinadas de desmatamento e mudanças na circulação atmosférica.

Esses impactos já se manifestaram de forma concreta em distintos setores. Na agricultura, houve perdas expressivas de produção, como a redução de até 75% na soja em Santa Cruz, na Bolívia, além de quedas significativas em cultivos andinos como a batata em Puno, no Peru, altamente dependentes de regimes de chuva estáveis.

Em economias florestais, cadeias como a castanha, fundamentais para comunidades peruanas e bolivianas, mostram alta sensibilidade a períodos de seca, com efeitos diretos sobre a renda das comunidades locais e segurança alimentar.

Em ecossistemas, os Andes Tropicais concentram um dos maiores níveis de biodiversidade do planeta, com alta taxa de endemismo e forte sensibilidade a pequenas variações de umidade, que podem alterar regimes de fogo, composição de espécies e estoques de carbono. Em sistemas hidrológicos, a redução das chuvas afeta bacias interconectadas como a do rio Madeira, que depende das precipitações originadas na Amazônia ocidental e que, durante a seca histórica de 2024, registrou níveis historicamente baixos, com impactos sobre navegação, energia e comunidades ribeirinhas.

Recomendações

O relatório apresenta seis recomendações para proteger os rios voadores e reduzir os riscos de seca na Amazônia e em países vizinhos. A principal delas é a criação dos chamados Territórios de Umidade Crítica, áreas de floresta sob alto risco de desmatamento que desempenham papel essencial na reciclagem de umidade e na manutenção dos fluxos atmosféricos que levam chuva da Amazônia para outras regiões do continente. Muitos desses territórios coincidem com as FPNDs da Amazônia brasileira, consideradas estratégicas à conservação por ainda não possuírem proteção legal formal.

Segundo o estudo, a proteção dessas áreas pode representar uma das medidas mais eficazes para preservar o ciclo hidrológico amazônico e reduzir o risco de secas regionais.

O estudo também recomenda:

  • Considerar os impactos sobre os rios voadores em avaliações ambientais de grandes obras de infraestrutura na Amazônia, sobretudo projetos rodoviários com potencial de ampliar o desmatamento;
  • Priorizar a proteção e a destinação das FPNDs localizadas em corredores de transporte de umidade, direcionando recursos para áreas que oferecem maior contribuição à segurança hídrica regional;
  • Ampliar a restauração florestal em regiões degradadas da Amazônia, sobretudo em áreas-chave para a circulação de umidade atmosférica;
  • Fortalecer programas e políticas públicas já existentes de conservação e recuperação florestal, como o ARPA (Programa Áreas Protegidas da Amazônia) e o Planaveg (Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa), reforçando sua articulação com estratégias de proteção dos rios voadores;
  • Fortalecer a governança regional amazônica, reconhecendo o papel estratégico do Brasil na manutenção dos rios voadores e promovendo ações coordenadas de conservação entre os países da bacia em relação aos rios voadores;
    Desenvolver estratégias de adaptação climática para regiões mais vulneráveis aos impactos da redução do transporte de umidade; e
  • Investir em pesquisa, monitoramento e modelagem climática para aprimorar o conhecimento científico sobre os rios voadores e orientar políticas públicas de longo prazo.

O documento também defende que os impactos transfronteiriços do desmatamento sejam incorporados de forma mais explícita aos processos de planejamento territorial e de licenciamento ambiental de grandes obras na Amazônia. Para os pesquisadores, decisões tomadas em áreas do bioma podem afetar diretamente a disponibilidade de água, a produção agrícola e a estabilidade dos ecossistemas em países vizinhos, incluindo Peru e Bolívia.

A pesquisa reforça ainda a compreensão de que os rios voadores constituem uma infraestrutura climática natural que conecta o Atlântico ao coração da América do Sul. Sua interrupção, causada pela perda de cobertura florestal e pela fragmentação de corredores estratégicos, não gera impactos apenas locais, mas também efeitos em cascata sobre agricultura, energia, biodiversidade e segurança hídrica em escala continental, com repercussões que também retornam ao Brasil por meio de grandes sistemas hidrológicos como a bacia do rio Madeira.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

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