IPAM destaca florestas como eixo central no combate global à crise do clima

11 de maio de 2026 | Notícias

maio 11, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

A construção do Mapa do Caminho para Interromper e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030 reforça uma agenda considerada decisiva para o futuro climático, econômico e alimentar do planeta. Para o diretor-executivo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), André Guimarães, a mobilização internacional em torno desse roteiro evidencia que as florestas passaram a ocupar posição estratégica não apenas na agenda ambiental, mas também na estabilidade do clima, na manutenção do regime de chuvas, na segurança hídrica e na produção global de alimentos.

“Não há como enfrentar a crise climática nem garantir alimento para a população mundial sem proteger as florestas”, disse Guimarães, que também é Enviado Especial da Sociedade Civil para a COP30.

A presidência da COP30 apresentou a primeira etapa do Mapa do Caminho para o fim do desmatamento nesta segunda-feira (11), em Nova York, nos Estados Unidos, durante a 21ª sessão do UNFF21(Fórum das Nações Unidas sobre Florestas). O encontro reuniu representantes de regiões como Amazônia, Bacia do Congo, Sudeste Asiático e florestas boreais da América do Norte, ampliando o intercâmbio de experiências e exemplos de iniciativas sobre conservação, restauração e uso sustentável das florestas diante de distintos contextos sociais, econômicos e ambientais.

A proposta da presidência da COP de Belém reúne contribuições de governos signatários da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima), instituições observadoras, organismos multilaterais, especialistas e representantes de diferentes setores da agenda ambiental para identificar soluções, desafios e oportunidades capazes de impulsionar ações de proteção florestal em escala global.

A reunião de apresentação do roadmap também é vista pelo IPAM como um passo importante para ampliar a cooperação entre os países florestais e consolidar compromissos capazes de transformar metas políticas de combate ao desmatamento em ações concretas de implementação até a COP31, a ser realizada na Turquia em novembro.

“Por isso, é extremamente oportuno reunir países florestais, governos, organizações da sociedade civil e instituições que atuam nessa agenda para pensar, de forma conjunta, um caminho global para o fim do desmatamento. O Brasil tem uma responsabilidade central nesse processo. O encontro em Nova York demonstra esse compromisso e reforça a liderança brasileira, mas ainda há um trabalho intenso pela frente para consolidar o documento e construir um compromisso efetivo entre as nações”, acrescentou André Guimarães.

Durante a reunião no UNFF21, os participantes destacaram a importância de ampliar a cooperação internacional e fortalecer instrumentos de apoio à proteção florestal. Entre os principais temas debatidos estão: o fortalecimento de estruturas políticas, legais e institucionais, a ampliação de ações de conservação, restauração e manejo sustentável das florestas, além da expansão de mecanismos financeiros, incluindo mercados de carbono e iniciativas voltadas ao desenvolvimento de capacidades técnicas e institucionais.

“O mundo está reestruturando sua economia e, em todas as transições econômicas da história, as florestas acabam sacrificadas. Hoje, as florestas não sofrem apenas uma pressão, mas muitas, vindas de diferentes direções. Esse roadmap pode reunir todos esses elementos, inclusive a parceria financeira, que é fundamental para transformar compromissos em resultados concretos para as florestas, para as pessoas e para o planeta”, declarou Martin Krause, diretor da divisão de mudanças climáticas do secretariado da UNFCCC.

As discussões também envolveram medidas para ampliar investimentos privados em soluções baseadas na natureza, fortalecer mecanismos de remuneração por desempenho ambiental, valorização de indígenas, povos e comunidades tradicionais e impulsionar atividades econômicas sustentáveis ligadas à floresta, como iniciativas de bioeconomia.

A iniciativa integra a Agenda de Ação da COP30 e pretende consolidar referências práticas capazes de apoiar países na construções ou no fortalecimento de estratégias nacionais de combate ao desmatamento e à degradação florestal até 2030. O documento não terá caráter negociador, mas servirá como uma contribuição política da presidência brasileira da cúpula do clima aos esforços internacionais de enfrentamento da crise climática.

“Estamos investindo tempo, esforço e diálogo com diferentes partes interessadas. Mais de 130 países enviaram contribuições formais, tanto individuais quanto em grupo, além de cerca de 150 organizações internacionais, pesquisadores, indivíduos e agências de pesquisa. Este não é um momento de negociação, mas queremos refletir o máximo possível sobre as visões da comunidade internacional”, reforçou no encontro Marco Túlio Cabral, chefe do Núcleo de Florestas para a COP30 do Ministério das Relações Exteriores.

A expectativa é que uma versão consolidada do documento seja apresentada em setembro de 2026, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas e a Semana do Clima de Nova York.

Desenho do roadmap global

O roadmap busca identificar os principais vetores que impulsionam o desmatamento e a degradação florestal, além de apontar soluções políticas e financeiras, assim como lacunas que ainda exigem maior cooperação internacional.

Elaborada desde fevereiro de 2026, a iniciativa da COP30 parte da compreensão de que conter a perda de florestas é essencial para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, sendo que esses territórios desempenham papel fundamental no armazenamento de carbono, na conservação da biodiversidade, na regulação do regime de chuvas e na segurança hídrica e energética. Também sustentam os modos de vida tradicionais.

Em carta publicada na revista científica Nature, pesquisadores do IPAM defendem, inclusive, a ampliação das áreas protegidas da Floresta Amazônica como estratégia fundamental para preservar os serviços ambientais prestados pelo bioma ao Brasil e ao mundo, além de contribuir diretamente para o combate dos efeitos das mudanças climáticas.

Também para o instituto, a preservação das florestas está diretamente ligada à sustentabilidade da agricultura. Os ecossistemas florestais ajudam na fertilidade do solo e na estabilidade climática necessária para garantir a produtividade agrícola no longo prazo, reforçando a necessidade de modelos de produção mais sustentáveis.

Outro ponto ressaltado em análises do IPAM é que investir em adaptação climática e proteção da Amazônia tende a ser mais econômico do que lidar depois com os impactos das mudanças climáticas. A avaliação é de que medidas preventivas e ações de fortalecimento da resiliência ambiental ajudam a reduzir riscos sociais, econômicos e ambientais associados a eventos extremos.

O roteiro para longe do desmatamento e da degradação florestal contribui ainda para a implementação das principais demandas do Balanço Global do Acordo de Paris [Global Stocktake] e reforça uma mudança de abordagem nas discussões internacionais sobre clima e desenvolvimento. Nesse contexto, a proteção das florestas passa a ser tratada não somente como agenda ambiental, mas também como elemento estratégico à resiliência econômica, à redução de desigualdades e à promoção do bem-estar.

Para a construção do roadmap, foram analisadas iniciativas já existentes e apresentadas contribuições iniciais sobre governança e financiamento, em uma dinâmica voltada a consolidar prioridades e garantir que o roadmap avance de forma prática, inclusiva e orientada para implementação antes da COP31, a ser realizada na Turquia.

Ao longo das próximas consultas, a presidência da COP30 pretende reunir exemplos de políticas públicas, instrumentos de financiamento, modelos de governança, soluções tecnológicas e iniciativas lideradas por povos indígenas e comunidades tradicionais que vêm contribuindo para reduzir a pressão sobre as florestas em diferentes partes do mundo.

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Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Saiba mais em brasil.un.org/pt-br/sdgs.

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