Do início à escala: os caminhos da agrofloresta na Amazônia

29 de abril de 2026 | Notícias

abr 29, 2026 | Notícias

Suellen Nunes*

Na paisagem diversa da agrofloresta amazônica, não existe um único perfil de produtor nem um único caminho. Entre diferentes idades, histórias e formas de produzir, os SAFs (Sistemas Agroflorestais) vêm sendo construídos a partir de trajetórias que, embora distintas, compartilham um mesmo objetivo: produzir com sustentabilidade e garantir a permanência no campo.

Durante a “Jornada Técnica Agroflorestal”, realizada em Tomé-Açu pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), em parceria com a GIZ (Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável) , quatro propriedades apoiadas por projetos do IPAM evidenciaram essa diversidade na prática. Os sistemas visitados revelam diferentes estágios de desenvolvimento, níveis de organização e estratégias produtivas, que vão desde iniciativas familiares em consolidação até modelos estruturados em maior escala.

A força da mulher no campo

Ginelda Lima, proprietária de uma das áreas visitadas em Tomé-Açu, se destaca como uma mulher empreendedora que conduz, de forma independente, sua produção. Agricultora familiar, ela estruturou um sistema baseado na mandioca, articulado com açaí, cumaru e cacau, aliado ao funcionamento de uma casa de farinha e à agregação de valor ao produto.

A experiência da produtora integra ações do Projeto de Restauração Florestal com Sistemas Agroflorestais e Regeneração Natural, desenvolvido em parceria com a Conservação Internacional Brasil, com apoio da Daikin. A iniciativa também faz parte do projeto “Restauração Florestal na Amazônia: recuperação de áreas alteradas no Estado do Pará, no âmbito do Projeto Regulariza Rural”, apoiado pelo Serviço Florestal Brasileiro, que busca fortalecer práticas produtivas sustentáveis e a recuperação de áreas degradadas no estado.

“A farinha era só uma monocultura na minha vida e cheguei a ter toneladas paradas, sem mercado. Mas decidi investir na qualidade, na embalagem e no valor do meu produto. Hoje, ela chega a outros estados e até a outros países. Isso só aconteceu porque alguém acreditou em mim e porque eu também não desisti. A minha produção envolve outras famílias, gera renda e abre oportunidades para mais gente”, explica.

O acesso ao conhecimento e a nova geração

Em outro contexto, Adeilton Mendes, de 32 anos, representa uma nova geração que permanece no campo a partir da sucessão familiar. Jovem agricultor e estudante de agronomia, ele deu continuidade ao trabalho iniciado pelo pai, incorporando conhecimento técnico, planejamento e diversificação produtiva.

Sua trajetória também se conecta ao Projeto de Restauração Florestal com Sistemas Agroflorestais e Regeneração Natural em Tomé-Açu, desenvolvido em parceria com a Conservação Internacional Brasil e com apoio da Daikin, que incentiva a adoção de sistemas produtivos mais sustentáveis e resilientes na região.

“Eu comecei a trabalhar na propriedade ainda jovem, depois que meu pai me deu um pedaço de terra. No início foi difícil, faltava informação técnica e organização, e eu cheguei a trabalhar muito ganhando pouco. Foi quando decidi investir em conhecimento, estudar e aplicar isso na prática. Hoje, consigo diversificar a produção e ampliar as atividades dentro da propriedade”, conta.

“Quando a gente trabalha só com uma cultura, acaba ficando limitado. No sistema agroflorestal, é possível ter produção ao longo do ano, com diferentes culturas garantindo renda em vários períodos. Isso traz mais estabilidade e melhora a qualidade de vida”, acrescenta.

O valor da experiência

A experiência acumulada ao longo do tempo aparece na trajetória de José Paixão, de 72 anos, conhecido como Zé Paixão. Agricultor familiar desde a juventude, ele construiu um sistema agroflorestal diverso ao longo de décadas, com diferentes cultivos integrados na mesma área.
Sua história se conecta ao Projeto Monitoramento e Consolidação de Restauração Florestal com Sistemas Agroflorestais (SAFs) em Tomé-Açu, iniciativa que conta com apoio da Otsuka e acompanha a evolução de áreas em restauração produtiva na região.

“Comecei em uma área difícil, onde quase não tinha nada. Fui trabalhando aos poucos, plantando diferentes culturas. Hoje, vejo minha propriedade formada, com produção diversificada, resultado de muitos anos de esforço”, relata. “Nunca fui empregado de ninguém, sempre vivi do meu próprio trabalho. Criei minha família assim, trabalhando na terra e acreditando no que eu fazia”, afirma.

Sustentabilidade em larga escala

@Michinori_konagano/divulgação

Michinori Konagano, 68 anos, representa um sistema consolidado em ampla escala. De origem japonesa, ele é reconhecido como referência na produção agroflorestal em Tomé-Açu, sendo frequentemente citado como modelo para outros produtores da região.

“Cheguei à Amazônia ainda jovem com a minha família, em busca de uma oportunidade de recomeço. Encontramos muitos desafios no início, mas foi com trabalho e persistência que conseguimos construir nossa trajetória na região. Ao longo dos anos, fomos aprendendo a manejar a terra de forma diversificada, integrando culturas e respeitando o tempo da natureza. Hoje, o sistema agroflorestal mostra que é possível produzir com equilíbrio, garantindo renda e mantendo a floresta em pé”, explica.

O produtor destaca que o desenvolvimento da produção no município de Tomé-Açu é resultado de dedicação e troca de conhecimentos ao longo de gerações. “A agrofloresta exige cuidado e visão de longo prazo, mas traz segurança para quem produz. Por isso, faço questão de compartilhar essa experiência, para que mais produtores possam fortalecer seus sistemas e crescer de forma sustentável”, conclui.

Apesar das diferenças entre os perfis, seja na escala, no nível de organização ou no acesso à tecnologia, os sistemas compartilham princípios como diversificação, manejo integrado e geração de renda associada à conservação ambiental. Ao mesmo tempo, evidenciam o papel das parcerias institucionais no apoio aos produtores.

Do sistema conduzido por uma mulher empreendedora, passando por um jovem em sucessão familiar e por um produtor com décadas de experiência, até um modelo consolidado em larga escala, os SAFs demonstram que não há um único formato produtivo, mas múltiplos caminhos possíveis dentro da agrofloresta.

A programação de visitas em Tomé-Açu integra o projeto “Projeto Regulariza Rural”, coordenado pelo SFB (Serviço Florestal Brasileiro) e o IICA Brasil (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura), com apoio financeiro do KfW (Banco de Desenvolvimento Alemão). A iniciativa apoia os estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia na implementação da regularização ambiental e no monitoramento da vegetação nativa. No Pará, as ações são promovidas pelo IPAM, em parceria com a Semas.

Analista de comunicação do IPAM*.



Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Saiba mais em brasil.un.org/pt-br/sdgs.

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