SOMAI fortalece a proteção de 80 territórios da Amazônia brasileira

17 de abril de 2026 | Notícias

abr 17, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

A plataforma SOMAI (Sistema de Observação e Monitoramento da Amazônia Indígena), co-desenvolvida pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e organizações parceiras, já abrange 80 TIs (Terras Indígenas) da Amazônia brasileira, ilustrando como o protagonismo indígena pode ser fortalecimento por meio de tecnologias que facilitem a vigilância e o monitoramento das áreas tradicionais frente a invasões e ao avanço dos crimes ambientais. A ferramenta soma atualmente 996 usuários, e é usada por cerca de 178 organizações indígenas e entidades da sociedade civil.

Conservar o bioma amazônico e atuar para mantê-lo em pé está ligado diretamente à presença dos povos indígenas e à conservação dos territórios. A ciência indígena e seus modos de vida funcionam como um escudo que ajuda a inibir o avanço do desmatamento, das invasões e dos incêndios florestais, contribuindo sobretudo para o equilíbrio do regime climático da região.

Diante desse cenário, o Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo (19), reforça a necessidade de valorizar o papel dos povos originários na preservação do bioma amazônico. O SOMAI foi co-criado em 2014 pelo IPAM junto de organizações indígenas como a COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), o CIR (Conselho Indígena de Roraima) e indigenistas como a FUNAI (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).

Dois anos depois nasceu o ACI (Alerta Clima Indígena), também como fruto desse trabalho colaborativo e sob envolvimento de outros parceiros como Instituto Raoni e a COCALITIA (Comissão de Caciques e Lideranças da Terra Indígena Araribóia). Com o passar dos anos, novas organizações têm se aliado à co-construção do sistema SOMAI-ACI.

“O SOMAI-ACI integra tecnologia indígena e geotecnologia, fortalecendo o monitoramento territorial e o registro do que acontece nos Territórios Indígenas. O Sistema SOMAI-ACI visa fortalecer as iniciativas autônomas de vigilância que já são realizadas pelos povos indígenas em seus territórios e catalisar a documentação e qualificação de documentos que visem a necessidade de resposta a crimes ambientais, delimitação, retomada de TIs [terras indígenas] ou a criação de projetos que fortaleçam as diversas potencialidades desses territórios”, explicou Ray Pinheiro Alves, pesquisador do Núcleo de Estudos Indígenas do IPAM.

Enquanto o SOMAI reúne dados públicos como focos de calor, cicatriz de queimada, desmatamento, padrões de chuva e seca, bem como dados sobre vegetação, ocupação humana, registros de CAR (Cadastro Ambiental Rural) e a presença de empreendimentos nos territórios, o ACI auxilia na coleta de dados em campo, inclusive em áreas sem acesso à internet.

Com o ACI, é possível registrar alertas georreferenciados de violações nos territórios, com a inclusão de fotos, textos e até áudios. A ferramenta ainda possibilita a medição de áreas e distâncias. Tudo fica armazenado no dispositivo e é sincronizado com o SOMAI assim que há conexão de internet disponível. Os dados integrados são protegidos pela LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e o acesso é feito apenas por pessoas ou organizações que fizeram a coleta de seus próprios dados.

Estudos conduzidos pelo IPAM revelam que os territórios indígenas demarcados influenciam na regulação climática regional. Ou seja, agem como um “ar-condicionado natural”, se protegidos e conservados. Segundo nota técnica divulgada em parceria com o Centro de Pesquisa em Clima Woodwell, as terras indígenas demarcadas na Amazônia têm 2ºC a menos de temperatura na comparação com áreas não protegidas.

Nessas áreas, a conservação da cobertura florestal contribui para a redução da temperatura média local, criando ilhas de estabilidade térmica. Em um contexto de alta dos termômetros globais, se consolidam como zonas-chave para conter temperaturas extremas e conservar os serviços ecossistêmicos que a floresta fornece.

Já um estudo com participação de pesquisadores do IPAM e publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Science sugere que as terras indígenas, assim como áreas naturais protegidas na Amazônia, são menos propensas à perda de estoque de carbono por degradação. O motivo é que a liberação de carbono nessas regiões é compensada pelo crescimento da vegetação florestal.

Povo Munduruku

Marcado pela constante ameaça de garimpeiros ilegais, madeireiros e grileiros, que colocam em risco a integridade e seus modos de vida, o povo Munduruku, da TI Munduruku, na bacia do Rio Tapajós, utiliza o SOMAI e o ACI para monitoramento de seu território. Desde a sua adoção, o uso combinado da plataforma e do aplicativo vem fortalecendo o processo de vigilância autônoma dos indígenas e de defesa territorial.

“Estamos aqui para continuar protegendo o nosso território. Queremos o fortalecimento do trabalho de monitoramento, especialmente nas regiões de limite territorial, onde ainda não existem aldeias estabelecidas, mas onde já há sinais de invasão. O que queremos não é coisa ilegal. Queremos o que é bom para o nosso povo. Essa luta é para garantir o futuro das próximas gerações”, disse Ana Poxo, coordenadora do Movimento Munduruku Ipereğ Ayũ.

Em muitos casos, os dados produzidos foram fundamentais para reforçar a presença contínua das comunidades em regiões sem infraestrutura estatal, além de subsidiar reivindicações por políticas públicas, como acesso à educação e proteção territorial. A ferramenta tem sido usada para mapear áreas de coleta de castanha, abrir registros de novas aldeias, bem como documentar impactos dos efeitos das mudanças climáticas.

As informações sobre os Munduruku, incluindo o relato de Ana Poxo, estarão disponíveis na publicação “Boas Práticas para o Fortalecimento da Vigilância Participativa aplicada à Proteção Territorial Indígena no Brasil”, a ser lançado em 12 de maio de 2026 pelo IPAM em conjunto com o UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime).

*Analista de Comunicação do IPAM



Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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