Por Mayara Subtil*
- Apesar da melhora nacional, o Cerrado tem sido o bioma mais desmatado do Brasil pelo terceiro ano consecutivo desde 2019, concentrando mais da metade (55%) de toda a área desmatada no país em 2025, embora ocupe em torno de 24% do território nacional.
- De forma inédita, o Brasil registrou menos de 1 milhão de hectares desmatados em 2025; a área desmatada caiu 21% em relação a 2024 e todos os biomas apresentaram redução.
- O Cerrado perdeu 540 mil hectares de vegetação nativa em 2025, uma queda de 17% na comparação com 2024.
- Em 2025, 72% do desmatamento no Cerrado foi em formação savânica, vegetação típica do bioma.
- O Matopiba concentrou 40% do desmatamento do país e 70% do desmatamento do Cerrado em 2025, mesmo com redução de 24% em relação a 2024.
- Guadalupe, no sul do Piauí, ocupou pela primeira vez a primeira posição entre os municípios mais desmatados do Cerrado ao registrar alta de 228% na área desmatada e expansão de 1.978% da agropecuária no município.
Em 2025, o Cerrado concentrou 55% de toda a área desmatada do Brasil. A perda foi de pouco mais de 540 mil hectares de vegetação nativa, uma redução de 17% em relação a 2024. A área desmatada equivale praticamente a todo território do Distrito Federal. Embora o índice aponte queda, o bioma lidera o ranking nacional de desmatamento pelo terceiro ano consecutivo e mantém uma perda de cobertura florestal superior à registrada nos demais biomas brasileiros.
Os dados fazem parte do RAD2025 (Relatório Anual do Desmatamento no Brasil), divulgado nesta quarta-feira (27), com informações produzidas por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) para o bioma Cerrado e que integram a rede MapBiomas.
A redução observada em 2025 dá continuidade à tendência de desaceleração do desmatamento no Cerrado nos últimos anos, ainda que em patamares elevados, acumulando mais de 4,5 milhões de hectares desmatados desde o início do sistema de validação de alertas de desmatamento, MapBiomas Alerta, em 2019. Em 2023, o bioma ultrapassou a marca de 1,1 milhão de hectares desmatados. Já em 2024, a perda de vegetação nativa caiu 41% na comparação com o ano anterior.
Em âmbito nacional, o Brasil registrou, pela primeira vez desde o início das medições, menos de 1 milhão de hectares desmatados em um único ano, com desmate de 984.794 hectares em todo o território brasileiro em 2025. Na comparação com o ano passado, houve queda de 21% na área desmatada, e todos os biomas apresentaram redução em seus índices de perda de vegetação nativa.
“Esta redução do desmatamento no país reforça a importância do monitoramento remoto contínuo, da transparência e das ações de fiscalização ambiental, especialmente neste momento de questionamentos à legislação ambiental brasileira e de seus instrumentos de controle. No Cerrado, onde ainda temos metade da vegetação nativa remanescente, manter e fortalecer essas ações é fundamental para conter a perda da vegetação nativa do bioma que sustenta a biodiversidade, a produção agrícola e a segurança hídrica do país”, destacou Julia Shimbo, pesquisadora do IPAM.
Mesmo sendo o maior bioma do país e com território cerca de duas vezes superior ao do Cerrado, a Amazônia registrou desmatamento estimado em quase 290 mil hectares em 2025, resultado 23% menor do que o observado em 2024. A Caatinga, por sua vez, perdeu aproximadamente 128 mil hectares no período, com retração de cerca de 26% em relação ao ano anterior. Já Pantanal, Pampa e Mata Atlântica tiveram, respectivamente, redução de 48%, 34% e 5%.
A formação savânica, típica de regiões tropicais marcadas por períodos secos e chuvosos bem definidos, foi, também pelo terceiro ano consecutivo, o tipo de vegetação mais suprimida do Brasil. Só no Cerrado, 72% da perda de vegetação nativa em 2025 ocorreu sobre esse tipo de vegetação, que corresponde a 28% da cobertura do bioma. Cerca de 25% do desmatamento ocorreu em formações florestais e 3% em formações campestres no bioma.
Além disso, a agropecuária segue como principal vetor de pressão de desmatamento sobre o Cerrado, sendo responsável por 99,5% da perda registrada no bioma no ano passado, o equivalente a 573 mil hectares. Os demais vetores somam 0,5% da área desmatada e incluem estradas, mineração, energia renovável, aquicultura, reservatórios e expansão urbana. Sendo que 35% dos 2.915 hectares desmatados por expansão urbana, estão no Cerrado.
Matopiba: uma das regiões críticas
Apesar da redução em relação a 2024, o Maranhão permaneceu como o Estado com a maior área desmatada do Cerrado e do país pelo terceiro ano consecutivo. Em 2025, registrou perda de 154 mil hectares no total nacional. Na sequência aparecem Piauí, com uma perda de mais de 114 mil hectares, Tocantins, com mais 100 mil hectares desmatados e Bahia, com 71 mil hectares perdidos. Esses estados compõem o Matopiba, região de fronteira agropecuária e que concentra grande parte do desmatamento do Cerrado.

Concentração do desmatamento no Cerrado em 2025. Foto: Divulgação/IPAM
Mesmo com queda de 24% na perda de vegetação nativa em relação a 2024, o Matopiba respondeu por 392 mil hectares desmatados em 2025, centralizando 40% de todo o desmatamento do país e 70% da perda de vegetação nativa no Cerrado. Todos os 10 municípios mais desmatados do bioma estão localizados na região.
Segundo o diretor executivo do IPAM, André Guimarães, “o mundo não tolera mais o desmatamento porque compromete, junto com as mudanças climáticas, a produção de alimentos”. “O Matopiba deveria ser visto como um repositório estratégico de vegetação nativa para estabilizar o clima e garantir chuva para a agricultura, e não como uma fronteira de expansão do desmatamento. Ao mesmo tempo, é preciso criar mecanismos de incentivo e compensação para as pessoas que ajudam a conservar a vegetação nativa da região”, afirmou.
O avanço da supressão de vegetação no Cerrado, sobretudo no Matopiba, reforça os alertas sobre os impactos ambientais e econômicos da perda de áreas nativas, consideradas essenciais para a regulação climática e hídrica do país.
“Esse cenário coloca em risco a integridade do bioma, que já perdeu cerca de metade de sua vegetação nativa, sobretudo nas últimas décadas”, acrescentou Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM.
Municípios mais desmatados
Pela primeira vez, o município de Guadalupe, no sul do Piauí, aparece como o município mais desmatado do Cerrado. A cidade registrou perda de vegetação nativa de 17 mil hectares em 2025 e apresentou alta de 228% na área desmatada em comparação com 2024.
Os dados de uso e cobertura da terra da Coleção 10.1 do MapBiomas, revelam avanço acelerado da agropecuária em Guadalupe. Entre os principais indicadores está o crescimento de 1.978% da área ocupada pela atividade no município, acompanhado da redução de 5% da vegetação nativa, considerando o período de 1985 a 2024.
“O fato de Guadalupe figurar, de forma inédita desde o início da série histórica do MapBiomas Alerta, como o município mais desmatado do Cerrado, evidencia o avanço da supressão de vegetação nativa em novas localidades do bioma. Além disso, reforça o padrão de concentração do desmatamento nas regiões de transição entre o Cerrado e a Caatinga, algo que temos observado mais recentemente”, destacou Roberta Rocha, pesquisadora de Ciência do IPAM.
Outro destaque é o município de Baixa Grande do Ribeiro, também no Piauí, onde foi registrado o segundo maior desmatamento do país (sendo que o maior desmatamento do país está localizado no município de Canto do Buriti, na Caatinga) em um único alerta no Cerrado. Entre setembro de 2024 e maio de 2025, foram desmatados 9,3 mil hectares na região, equivalente a 13 mil campos de futebol do tamanho do gramado do Estádio Maracanã, no Rio de Janeiro.

Imagem de antes e depois entre 09/2024 e 05/2025 do maior alerta de desmatamento do Cerrado, em 2025, no município de Baixa Grande do Ribeiro no Piauí. Foto: Reprodução/MapBiomas Alerta.
Já o alerta com a maior velocidade média diária de desmatamento do Cerrado, ou seja, a área mais rápida a ser desmatada no bioma, foi identificado no município de Nova Lacerda, no estado do Mato Grosso. Em um intervalo de 38 dias, foram desmatados 2.514 hectares, o equivalente a uma média de 66,2 hectares perdidos por dia.
RAD e MapBiomas Alerta
O RAD do MapBiomas reúne dados consolidados de desmatamento de todo o Brasil. Ele analisa os alertas de desmatamento detectados entre 2019 e 2025, e que foram validados e refinados sobre imagens de satélite de alta resolução pelo MapBiomas Alerta.
Nesta sétima edição, no Cerrado, os alertas gerados pelo DETER (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real do INPE) e SAD Cerrado (Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado do IPAM), desenvolvido pelo IPAM, e os alertas gerados nas regiões de transição entre os biomas, pelo SAD Caatinga (Sistema de Alerta de Desmatamento da Caatinga, da UEFS e Geodatin), SIRAD-X (Sistema de indicação por radar de desmatamento na Bacia do Xingu, do ISA), SAD Imazon (Sistema de Alerta de Desmatamento da Amazônia, do Imazon), SAD Mata Atlântica (Sistema de Alerta de Desmatamento da Mata Atlântica, da SOS Mata Atlântica e ArcPlan) e SAD Pantanal (Sistema de Alerta de Desmatamento do Pantanal, da SOS Pantanal e ArcPlan), foram utilizados para localizar os alertas de desmatamento nas imagens de satélite diárias de alta resolução espacial.
Todos os dados são disponibilizados de forma pública e gratuita em plataforma web para que órgãos de fiscalização, agentes financeiros, empresas e sociedade civil possam agir para reduzir o desmatamento ilegal. O relatório completo com todos os dados está disponível no site do MapBiomas Alerta (alerta.mapbiomas.org).
*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br


