Solo pedregoso do Cerrado protege remanescentes de vegetação nativa

15 de abril de 2026 | Notícias

abr 15, 2026 | Notícias

Por Lucas Guaraldo*

 

Por não serem adequados à agricultura mecanizada, os solos pedregosos do Cerrado são, proporcionalmente, mais preservados do que os solos profundos, aqueles que possuem poucas rochas em suas camadas superficiais, aponta levantamento do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) para o Dia Nacional da Conservação do Solo, celebrado hoje (15). Em 2024, 89% do solo pedregoso do Cerrado estava coberto por vegetação nativa, enquanto solos profundos tinham metade de toda sua área desmatada.

Cerca de 4% da superfície do Cerrado é composta por solos pedregosos, em que até 90% do volume, nos primeiros 100 centímetros, é composto por fragmentos rochosos. Devido às suas características, esses solos impõem restrições ao uso de máquinas agrícolas, dificultando a expansão agrícola, que geralmente ocupa solos mais profundos, ou seja, aqueles sem pedregosidade nos primeiros centímetros Atualmente, 99% de todas as atividades agrícolas no Cerrado estão localizadas em áreas de solos profundos.

Área de Cerrado rupestre com solo pedregoso, montanhas íngremes e vegetação rasteira

Desde 1985, a agropecuária em solos profundos cresceu de 53 milhões de hectares para 93 milhões de hectares, um aumento de 75% em sua área total. No mesmo período, na área de solos pedregosos, a expansão foi de 310 mil hectares, ou 68%. Isso significa que, para cada 1 hectare de vegetação nativa convertido em solos pedregosos, 128 hectares foram desmatados em áreas de solos profundos. Em áreas privadas com registro fundiário, nos últimos 40 anos, a perda de vegetação nativa em solos profundos foi de 52%, enquanto em solos rasos a perda foi de 22%.

“Esse padrão ajuda a entender a lógica de ocupação do território. Solos com maior presença de rocha, especialmente aqueles com afloramentos rochosos próximos à superfície, acabam sendo menos utilizados pela agropecuária intensiva, principalmente por limitações operacionais. Como consequência, essas áreas frequentemente permanecem cobertas por vegetação nativa ou são destinadas a reservas legais e áreas de preservação permanente. No entanto, essa conservação ocorre, em grande medida, não por um planejamento ecológico, mas porque essas áreas representam uma restrição física natural ao uso agrícola”, explica Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM responsável pelo levantamento.

Solo e água

A pedregosidade também influencia diretamente a dinâmica da água no solo e, consequentemente, o funcionamento dos ecossistemas. Nascente de 8 das 12 principais bacias hidrográficas do Brasil, o Cerrado é fundamental para o abastecimento hídrico do país. Em solos mais rochosos, a quantidade de material disponível para armazenar água é reduzida. Com isso, a infiltração em profundidade tende a ser limitada e parte da água escoa pela superfície ou se movimenta apenas em camadas mais rasas. Esse comportamento favorece a formação de ambientes específicos, como campos rupestres e outras formações adaptadas a solos mais secos.

“Do ponto de vista ecológico, esses solos estão associados a comunidades vegetais especializadas, como as Formação Rupestre no Cerrado, com espécies adaptadas a condições mais restritivas de água e nutrientes. A dinâmica hídrica é distinta justamente porque há menos volume de solo para retenção e percolação da água. Contudo, são regiões com alta diversidade e endemismo”, destaca Costa.

Já os solos mais profundos, com menor presença de fragmentos rochosos, permitem maior infiltração e armazenamento de água. Isso favorece a recarga de aquíferos e a manutenção de nascentes e cursos d’água. Por outro lado, essa mesma característica os torna mais suscetíveis à lixiviação, processo em que a água transporta nutrientes para camadas mais profundas, e à contaminação por insumos agrícolas.

“Em contraste, solos mais profundos e menos pedregosos desempenham um papel importante na recarga de aquíferos e na alimentação do lençol freático, contribuindo para a manutenção de rios e córregos. Por serem mais permeáveis, podem facilitar tanto a perda de nutrientes quanto o transporte de contaminantes para o lençol freático”, completa a analista.

Mapeando o solo brasileiro

A conservação do solo brasileiro também é impactada pela falta de informação e de um mapeamento detalhado do solo e de suas características físicas. De acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a maior parte do mapeamento atual é feita em grandes escalas, o que dificulta a identificação detalhada das características de municípios ou de pequenas áreas com solos diversos. Apesar de algumas iniciativas estaduais, destaca Flávio Adriano, pesquisador da Embrapa Solos, os esforços para um mapeamento do solo brasileiro em níveis semelhantes aos observados em países como Estados Unidos e Canadá esbarram na falta de orçamento e de vontade política.

“O Brasil ainda não possui um mapeamento detalhado dos solos em escala adequada. Grande parte das informações disponíveis é muito geral, o que dificulta o planejamento do uso da terra. Sem conhecer bem o solo, fica mais difícil tomar decisões eficientes na agricultura, na conservação ambiental e na gestão dos recursos naturais. Além disso, há limitações de investimento, de infraestrutura e de formação de especialistas, o que torna esse avanço mais lento do que o necessário”, destaca o pesquisador.

Nesse sentido, iniciativas como a da Rede MapBiomas, da qual o IPAM faz parte, buscam reduzir essa lacuna ao integrar dados de sensoriamento remoto, relevo e histórico de uso da terra com técnicas de modelagem e inteligência artificial. Além dos mapas identificando o volume de pedregosidade do solo, a Coleção 3 do MapBiomas Solo também disponibiliza gratuitamente mapas de 30 metros de resolução para todo o Brasil, informações sobre carbono orgânico nos primeiros 30 centímetros do solo entre 1985 e 2024, assim como mapas estáticos do teor de areia, silte – partículas menores do que areia fina e maior do que argila – e argila em camadas de até 100 centímetros.

“É um processo baseado em modelagem, que integra diferentes tipos de dados, como imagens de satélite, relevo e histórico de uso da terra. A partir dessas informações, são feitas estimativas sobre características do solo em áreas onde não há medições diretas de campo, ampliando a capacidade de análise em larga escala. Esse conjunto de informações reforça a importância de incorporar o solo de forma mais central no planejamento territorial e nas estratégias de conservação, considerando não apenas sua aptidão produtiva, mas também suas funções ecológicas e sua contribuição para a sustentabilidade dos ecossistemas”, explica Bárbara.

 

* Jornalista do IPAM, lucas.itaborahy@ipam.org.br
**Foto de capa: Vitor Araujo Silva

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