Juventude pelo Clima: relatório reúne soluções climáticas na Amazônia

10 de junho de 2026 | Notícias

jun 10, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

Quando criança, Breno Amajunepá, de 24 anos, cresceu ouvindo do seu povo Balatiponé-Umutina que sua geração poderia ser a última a ver a floresta em pé, os rios preservados e os modos de vida que sustentam a relação de seu povo com o território. Na época, aquelas palavras pareciam apenas ensinamentos transmitidos pelos mais velhos da Terra Indígena Umutina, em Mato Grosso. Com o passar dos anos, porém, o jovem indígena do povo Balatiponé-Umutina passou a perceber que os alertas estavam ligados a mudanças que já transformaram a paisagem ao seu redor.

Morador do Território Umutina, em Mato Grosso, Breno viu secas se tornarem mais frequentes, rios perderem volume e práticas tradicionais deixarem de ser realizadas da mesma forma que antes. Ao deixar a comunidade para estudar Relações Internacionais na UnB (Universidade de Brasília), encontrou novas ferramentas para compreender aquilo que os mais velhos já observavam há muito tempo. Foi também nesse período que passou a atuar em iniciativas ligadas à pauta socioambiental e, posteriormente, integrou o Juventude pelo Clima, iniciativa que apoia jovens indígenas, quilombolas e extrativistas da Amazônia Legal na elaboração de estratégias de adaptação às mudanças climáticas em suas comunidades.

“Os nossos anciãos já sabiam dessas consequências. A diferença é que eles não utilizavam os termos técnicos que usamos hoje. A formação nos ajudou a traduzir esse conhecimento para a linguagem das conferências e dos espaços de decisão”, resumiu o jovem indígena.

Breno Amajunepá durante evento de lançamento da publicação. Foto: Mayara Subtil/IPAM

A reflexão de Breno sintetiza uma das principais conclusões da publicação Soluções Climáticas pelo Olhar de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais: Estudos de Caso da Iniciativa Juventude pelo Clima, lançada pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e pela Cultural Survival, com apoio do ICS (Instituto Clima e Sociedade) e financiamento do Environmental Defense Fund.

Acesse a publicação aqui.

O documento reúne experiências de 18 jovens indígenas, quilombolas e extrativistas de distintas regiões da Amazônia Legal e mostra como os conhecimentos construídos nos territórios podem contribuir para o enfrentamento dos efeitos das mudanças climáticas.

“Os planos elaborados pelos participantes evidenciam que as respostas à crise climática já estão sendo construídas nos territórios. Baseadas na experiência local e nos saberes tradicionais, as propostas apontam caminhos para fortalecer a segurança alimentar, proteger recursos naturais, recuperar áreas degradadas ampliando a capacidade de adaptação das comunidades. O conjunto dessas iniciativas reforça o potencial das soluções sociais lideradas por povos indígenas, quilombolas e populações tradicionais para enfrentar os desafios climáticos da Amazônia”, reforçou Patrícia Pinho, diretora adjunta de Ciência do IPAM.

Embora povos indígenas, quilombolas, extrativistas e outras comunidades tradicionais estejam entre os grupos mais afetados pelos impactos da crise do clima, seus conhecimentos ainda são pouco incorporados às políticas públicas e aos processos de tomada de decisão. A publicação destaca justamente que essas populações acumulam gerações de observação direta sobre o funcionamento dos ecossistemas e vêm relatando há décadas alterações atualmente confirmadas por estudos científicos.

Na Amazônia, os efeitos da crise climática têm se manifestado por meio de secas mais severas, mudanças nos regimes de chuva, aumento das temperaturas, incêndios florestais e eventos extremos mais frequentes e intensos. Estudos do IPAM indicam que a combinação entre estiagens prolongadas e a ocorrência de incêndios compromete a capacidade da floresta de armazenar carbono, reduzindo sua função como importante reguladora do clima global. Além disso, mesmo em cenários de redução do desmatamento, as secas extremas têm contribuído para o aumento da incidência de incêndios florestais, evidenciando a crescente vulnerabilidade dos ecossistemas amazônicos diante das mudanças climáticas.

Pesquisas recentes também apontam que incêndios recorrentes e secas extremas comprometem processos ecológicos essenciais da floresta, reduzindo sua capacidade de absorver e armazenar carbono e tornando a Amazônia mais suscetível aos impactos de eventos climáticos futuros.

Juventude pelo Clima

A iniciativa Juventude pelo Clima surgiu com o objetivo de fortalecer jovens indígenas, quilombolas e extrativistas para que pudessem desenvolver estratégias de adaptação climática em seus territórios. Ao todo, foram selecionados 18 participantes de seis estados da Amazônia Legal, todos com vínculos ativos, tanto com suas comunidades, quanto com instituições de ensino.

Ao longo de vários meses, os jovens receberam formação sobre mudanças climáticas, justiça climática, políticas públicas e elaboração de projetos. Paralelamente, foram incentivados a realizar escutas comunitárias em seus territórios para compreender como moradores de diferentes gerações percebiam os impactos ambientais.

A metodologia partiu de um princípio simples: ninguém conhece melhor as transformações de um território do que as pessoas que vivem nele. Por isso, os participantes ouviram anciãos, agricultores, pescadores, lideranças, profissionais da saúde, educadores, mulheres, homens e crianças dos próprios territórios.

Ao todo, 181 pessoas participaram das rodas de conversa realizadas nas comunidades. Apesar da diversidade cultural e geográfica dos territórios, os relatos apresentaram diagnósticos semelhantes. Entre os principais impactos identificados estavam o prolongamento das secas, a irregularidade das chuvas, o aumento das temperaturas e a ocorrência mais frequente de eventos climáticos extremos.

Os participantes também relataram perdas que vão além dos impactos econômicos. Em muitos territórios, alterações nos ciclos da natureza têm dificultado a transmissão de conhecimentos tradicionais utilizados para orientar atividades como plantio, colheita, pesca e manejo dos recursos naturais. Mudanças no comportamento de animais, na floração de determinadas espécies e nos ciclos dos rios afetam referências que historicamente organizam a vida comunitária.

Dos diagnósticos aos planos de adaptação

As escutas comunitárias serviram de base para a elaboração de 18 planos de adaptação climática desenvolvidos pelos jovens participantes da iniciativa. As propostas foram construídas coletivamente e apresentadas posteriormente a representantes de ministérios do governo federal e potenciais financiadores.

Os planos partiram dos desafios identificados em cada território e buscaram desenvolver soluções adaptadas às realidades locais. Entre as propostas estão ações de reflorestamento com espécies nativas, recuperação de áreas degradadas, fortalecimento da produção agroecológica, preservação de sementes tradicionais, proteção de nascentes e criação de hortas comunitárias voltadas à segurança alimentar. Em algumas comunidades, os projetos também priorizam a valorização de conhecimentos tradicionais e a recuperação de práticas de manejo que ajudam a aumentar a resiliência dos territórios diante dos eventos climáticos extremos.

Jovens da iniciativa Juventude pelo Clima. Foto: Mayara Subtil/IPAM

Mais do que soluções técnicas, os planos representam processos de mobilização comunitária construídos a partir da participação direta dos moradores. Em vez de importar modelos externos, os jovens buscaram desenvolver respostas baseadas nas experiências, necessidades e conhecimentos já existentes em seus territórios.

A iniciativa também fortaleceu a atuação política dos participantes. Parte do grupo teve a oportunidade de apresentar seus projetos em espaços nacionais e internacionais de debate climático, incluindo a COP30, em Belém. A experiência reforçou a percepção de que os territórios amazônicos não devem ser vistos apenas como áreas vulneráveis aos impactos ambientais, mas também como espaços de produção de conhecimento e construção de soluções.

Apesar dos avanços, os jovens apontam desafios para transformar os projetos em ações permanentes. Entre eles estão a escassez de recursos financeiros, a necessidade de apoio técnico continuado e a ampliação de mecanismos de financiamento voltados às iniciativas comunitárias.

Para Breno, o protagonismo das juventudes indígenas será fundamental para enfrentar esses desafios. “Enquanto jovens, a gente costuma ouvir muito que somos o futuro. Mas nós também somos o presente. E, para garantir o nosso futuro, precisamos estar atuantes agora”, concluiu.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br
**Foto de capa: Mayara Subtil/IPAM

ODS 13ODS 10ODS 7ODS 11

Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Saiba mais em brasil.un.org/pt-br/sdgs.

Veja também

See also