Clima e crime organizado exigem cooperação entre países amazônicos

14 de julho de 2026 | Notícias

jul 14, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

Os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde e a expansão do crime organizado na Amazônia exigem políticas públicas integradas e maior cooperação entre os países que compõem o bioma. A avaliação é de Paulo Moutinho, pesquisador sênior do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), em participação virtual no evento Diálogo Estratégico do Parlamaz (Parlamento Amazônico), nesta segunda-feira (13).

“O principal desafio atual na Amazônia é a integração entre os crimes ambientais e o crime organizado, o que torna insuficientes as políticas ambientais tradicionais e exige uma estratégia integrada de segurança, planejamento territorial e governança”, afirmou.

Segundo Moutinho, o avanço do narcotráfico acompanha a expansão das economias ilegais na Amazônia. Entre 2019 e 2024, as apreensões de cocaína na Região Norte do Brasil cresceram 574,4%, evidenciando a rápida consolidação das redes criminosas na região.

O pesquisador também fez referência a um estudo do Instituto Igarapé, baseado na análise de 369 operações realizadas pela Polícia Federal entre 2016 e 2021, que mostrou que 60% das ações investigavam múltiplas atividades ilícitas simultaneamente e que 55% apresentavam associação com organizações criminosas, revelando a forte integração entre crimes ambientais e outras economias ilegais.

O Parlamaz é um organismo permanente de cooperação parlamentar que reúne representantes dos oito países da Bacia Amazônica (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela). Criado em 1989, o colegiado busca fortalecer a cooperação regional e promover iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável, à conservação do bioma e à integração entre os parlamentos nacionais.

Realizado no Peru, o diálogo marcou o encerramento do atual ciclo de trabalho da delegação peruana do Parlamaz e a transição para os novos integrantes do Senado e da Câmara dos Deputados do país. Participaram parlamentares, legisladores eleitos, cientistas, representantes do Ministério da Saúde peruano, organizações internacionais e instituições de cooperação técnica para discutir desafios comuns da Amazônia, como saúde pública, mudanças climáticas e governança regional.

Ao abordar a relação entre mudanças climáticas e saúde pública, Moutinho ressaltou que os impactos da degradação ambiental já afetam diretamente a qualidade de vida das populações amazônicas como um todo. Para o pesquisador, episódios extremos como os incêndios associados ao El Niño, evidenciam que a crise climática também representa um desafio sanitário à região.

“Na Amazônia, o impacto das mudanças climáticas sobre as populações não distingue áreas urbanas e rurais. Por exemplo, uma parcela significativa da população da Amazônia brasileira, incluindo pessoas que vivem em comunidades tradicionais ou indígenas, respirou durante meses, ao longo da temporada de incêndios associada ao El Niño, um ar de qualidade pior do que o respirado no centro de São Paulo nos piores índices de qualidade do ar já registrados. No ano do El Niño, por exemplo, o sistema de saúde brasileiro gastou cerca de US$ 10 milhões apenas para tratar doenças respiratórias”, destacou o pesquisador.

Amazônia conectada

As discussões durante o diálogo também incorporaram evidências apresentadas por representantes do SPA (Painel Científico para a Amazônia), que lançou, em 2025, o relatório Conectividade da Amazônia para um Planeta Vivo. O documento reforça que a conectividade ecológica, hidrológica, climática, social e cultural é essencial para manter a resiliência da floresta e dos serviços ambientais ecossistêmicos prestados pelo bioma.

Entre as conclusões apresentadas está o papel da floresta na regulação do ciclo hidrológico da América do Sul. A umidade produzida pela evapotranspiração das árvores alimenta os chamados “rios voadores”, responsáveis por transportar vapor d’água para distintas regiões do continente. Segundo o relatório, cerca de metade das chuvas que chegam aos Andes do Peru e da Bolívia tem origem na Amazônia.

As conclusões convergem com estudo recente do IPAM, que mostra que a manutenção da conectividade da floresta amazônica é determinante para a preservação dos rios voadores. Pesquisa divulgada pelo Instituto aponta que as FPNDs (Florestas Públicas Não Destinadas) exercem papel estratégico nesse processo ao manter corredores contínuos de vegetação capazes de sustentar o transporte de umidade e reduzir os riscos de ruptura do ciclo hidrológico amazônico.

O relatório do SPA alerta ainda que secas e inundações extremas têm se tornado mais frequentes e intensas. Também reforça que a Amazônia se aproxima de um ponto de inflexão ecológica, capaz de comprometer a segurança hídrica, a produção de alimentos, a biodiversidade, a geração de energia e a estabilidade climática em diferentes países da América do Sul.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

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