“Ambição em clima também significa ambição nos meios de implementação”

13 de julho de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

jul 13, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

As negociações climáticas passaram a concentrar esforços na implementação dos compromissos assumidos durante a COP30. Na rodada de Bonn, em junho, foram consolidados avanços na preparação para a COP31, mas também evidenciados os principais desafios que ainda dividem os países.

A Um Grau e Meio da quinzena entrevista Embaixadora Liliam Chagas, negociadora-chefe do Brasil na UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) e diretora do Departamento de Clima do Ministério das Relações Exteriores.

O assunto engloba o papel estratégico de Bonn na construção dos acordos internacionais, os avanços e impasses das negociações e os próximos passos para transformar os compromissos climáticos em implementação efetiva.

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Embaixadora Liliam Chagas na Conferência de Bonn 2026 📸 Lara Murillo/UN Climate Change

Muitas vezes, Bonn aparece como uma fase técnica das negociações climáticas, mas diplomatas e negociadores costumam atribuir à conferência um peso até mais decisivo para o sucesso das COPs. Na prática, qual é a importância de Bonn para a construção dos acordos políticos que são levados às cúpulas de clima?

Bonn é o início das negociações e tem um papel fundamental. Na minha avaliação, conseguimos aprovar as 56 decisões da COP30 porque a sessão de Bonn daquele ano foi muito produtiva. Nos principais temas, encerramos a conferência com minutas de trabalho. Muitas ainda tinham colchetes [definições em aberto], mas já existia um ponto de partida e já era possível identificar onde estavam os principais problemas em cada tema. Isso facilita muito a organização do trabalho para a COP.

É em Bonn que as delegações se encontram oficialmente pela primeira vez naquele ciclo de negociações, e tudo o que é acordado ali passa a orientar a etapa seguinte. É a fase mais técnica do processo, em que os temas deveriam avançar sem grandes impeditivos políticos.

Nos últimos anos, porém, esse cenário ficou mais complexo porque os temas passaram a estar cada vez mais interligados. Um país precisa de apoio para aumentar sua ambição em mitigação, por exemplo. Em um contexto internacional de pouco financiamento, muitos países não querem assumir novos compromissos sem garantias de meios de implementação. Isso acaba tornando as negociações mais difíceis.

Ainda assim, Bonn continua sendo um momento essencial. A negociação climática é a maior do sistema ONU e acontece, na prática, em cerca de 30 dias: 14 dias em Bonn e outros 14 durante a COP. É ali que nascem os embriões dos acordos e das decisões que serão negociadas até o final do ano.

A COP30 terminou com um conjunto de decisões aprovadas por consenso entre os mais de 190 países signatários, o chamado “Pacote de Belém”. Quais temas avançaram de forma mais concreta em Bonn e quais ainda concentram os principais impasses entre as nações, sobretudo em relação a financiamento climático, implementação, transição justa e participação dos povos indígenas?

Os temas que mais avançaram foram transição justa; financiamento, especialmente com o programa de trabalho relacionado ao Artigo 9.1 [financiamento público]; o Balanço Global [Global Stocktake]; além de capacidade institucional, tecnologia e o ACE [Action for Climate Empowerment], que também teve avanços importantes neste ciclo.

Outro ponto bastante relevante foi o debate sobre como tornar as COPs mais eficientes. Essa discussão está diretamente ligada ao momento de transição que o regime climático vive hoje. Durante a última década, o foco foi construir os instrumentos previstos pelo Acordo de Paris. Agora, o desafio é apoiar a implementação desses instrumentos: ajudar os países a apresentarem e cumprirem suas NDCs [Contribuições Nacionalmente Determinadas], elaborarem seus NAPs [Planos Nacionais de Adaptação] e avançarem nos relatórios de transparência.

Por outro lado, alguns temas permanecem travados. Os principais impasses continuam sendo adaptação, mitigação e medidas de resposta.

A tensão entre ambição climática e meios de implementação voltou a aparecer com muita força em Bonn. Ficou evidente que aumentar a ambição em mitigação precisa vir acompanhado de maior ambição em financiamento, tecnologia e capacitação. O cenário internacional de financiamento continua bastante complexo, com recursos sendo direcionados para outras prioridades, como conflitos geopolíticos, e isso mantém essa dualidade muito presente nas negociações.

Hoje, a mensagem é clara: ambição climática também significa ambição em apoio à implementação. Não é possível tratar uma agenda sem a outra. Essa relação ficou muito evidente ao longo das conversas em Bonn.

O Brasil sai de Bonn com uma percepção mais clara sobre o rumo necessário para transformar os compromissos políticos da COP30 em implementação efetiva?

Sim. Os principais mandatos de implementação lançados durante a COP30, como o Acelerador Global de Implementação e a Missão Belém 1,5°C, não fazem parte da negociação formal da Convenção. São novas frentes de trabalho conduzidas pelas presidências das COPs.

Em Bonn, Brasil, Azerbaijão e Austrália apresentaram os avanços dessas iniciativas. No caso do Acelerador Global, foi explicado que um conselho irá selecionar, entre os cerca de 120 planos de aceleração oriundos da Agenda de Ação da COP30, aqueles com maior potencial de promover mudanças sistêmicas no enfrentamento da mudança do clima. A iniciativa foi muito bem recebida e ajudou a esclarecer como esse trabalho será conduzido.

O que ficou mais claro para nós é que esses mandatos de implementação são fundamentais e precisam acontecer. As presidências estão trabalhando com muito empenho para que eles produzam resultados concretos. O mesmo vale para a Missão Belém 1,5°C, que busca apoiar os países na implementação de suas NDCs.

Também ficou evidente que a maioria dos países está preocupada com o momento que estamos vivendo em relação ao clima e quer continuar trabalhando de forma multilateral. Há disposição para aperfeiçoar o sistema internacional de forma que ele apoie melhor a implementação das NDCs, dos Planos Nacionais de Adaptação e dos relatórios de transparência. Essa vontade permanece muito forte.

Bonn trouxe sinais de aumento real de ambição climática ou ainda predomina uma distância significativa entre metas e implementação?

O que voltou à tona em Bonn foi essa forte associação entre ambição climática e apoio à implementação. Quando falamos em apoio, estamos falando de financiamento, tecnologia e capacitação.

Essa dualidade continua muito presente. A ambição em mitigação precisa ser acompanhada por maior ambição em financiamento. O cenário internacional de financiamento segue bastante complexo. Há desvio de recursos para outras prioridades, como conflitos internacionais, além de movimentos que dificultam ainda mais esse debate, como a tentativa dos Estados Unidos de retirar metas de financiamento climático do Banco Mundial.

Essa tensão permanece. Ambição climática precisa caminhar junto com ambição em financiamento. Caso contrário, um lado continuará falando para o outro sem que haja avanços concretos. As conversas em Bonn refletiram exatamente essa realidade: ambição em clima também significa ambição nos meios de implementação.

Falando especificamente sobre financiamento, que costuma ser um dos principais pontos de tensão nas negociações, o Brasil ajudou a reconstruir a confiança entre países desenvolvidos e em desenvolvimento?

Sim. Esse foi um dos principais resultados da COP30. O financiamento continua sendo um dos grandes gargalos das negociações, principalmente porque muitos países que deveriam receber recursos concessionais recebem pouco ou não recebem o suficiente. O que a COP30 fez foi fortalecer a arquitetura do financiamento climático para que ela produza mais resultados. Um exemplo é o programa de trabalho de dois anos voltado ao Artigo 9.1, que trata do financiamento público.

Além disso, o Brasil demonstrou que continua avançando na construção do roadmap Baku-Belém para mobilizar 1,3 trilhão de dólares em financiamento climático. Esse trabalho reúne diferentes iniciativas e possibilidades dentro dos cinco eixos do roteiro.

O Brasil ajudou a renovar a esperança nas instituições de financiamento ao manter esse processo em andamento. As conversas sobre financiamento foram positivas, mas o conflito estrutural permanece: quem precisa receber continua afirmando que os recursos são insuficientes, enquanto quem deve prover financiamento argumenta que o contexto internacional está muito difícil e que outros atores também precisam contribuir.

O que a COP30 conseguiu fazer foi criar espaços mais seguros para que essa conversa acontecesse, sem esconder o problema. E isso é fundamental, porque financiamento exige diálogo permanente.

Os países do Sul Global têm assumido um papel de protagonismo e liderança nas COPs. Na sua avaliação, é possível dizer que saíram de Bonn também com maior protagonismo político nas negociações?

Eu diria que os países do Sul Global, especialmente grupos como o LMDC [Like-Minded Developing Countries], estão muito vocais sobre aquilo que consideram prioritário. Eles deixaram muito claro que esperam avanços concretos na agenda de financiamento. Essa posição apareceu em diferentes momentos das negociações e esteve presente em uma das tensões que marcaram Bonn, relacionada à inclusão de determinados programas de trabalho na agenda oficial.

Ao mesmo tempo, houve outro debate importante durante a conferência. Alguns países do Sul Global passaram a questionar se a produção científica do IPCC representa adequadamente as realidades dos países em desenvolvimento, argumentando que ela é fortemente baseada em estudos produzidos no Norte Global. Esse debate gerou bastante repercussão. Pequenos Estados insulares e o grupo dos Países Menos Desenvolvidos interpretaram esse movimento como um questionamento da ciência climática e chegaram a realizar uma coletiva de imprensa sobre o tema. Foi um dos principais pontos de fricção das duas semanas de negociação.

Mais do que falar em protagonismo, eu diria que os grupos do Sul Global estão muito organizados e bastante firmes na defesa de suas prioridades. Entre elas, a principal é a transição justa. O conceito de justiça climática deve se materializar justamente nesse mecanismo de transição justa, e ficou muito claro em Bonn que esse será um dos grandes temas deste ciclo de negociações.

Um dos debates centrais tem sido a construção de mapas do caminho para transformar os compromissos assumidos nas COPs em implementação concreta. Nesse pós-Bonn, existe maior clareza sobre os marcos prioritários até a COP31?

Os mapas do caminho foram o grande destaque de Bonn. Os três roteiros apresentados, o roadmap para frear o desmatamento e a degradação florestal, o roadmap para a transição para longe dos combustíveis fósseis e o roadmap Baku-Belém para mobilizar 1,3 trilhão de dólares em financiamento climático, concentraram as sessões mais concorridas das duas semanas de conferência.

Houve muito interesse e uma receptividade muito positiva ao trabalho apresentado pela presidência brasileira. Foi um processo conduzido com bastante seriedade e aberto à participação. O roadmap sobre combustíveis fósseis, por exemplo, recebeu mais de 200 submissões de países e demais partes interessadas.

Não houve questionamentos relevantes sobre a iniciativa. Pelo contrário, houve uma demonstração de confiança de que a presidência brasileira apresentará documentos consistentes, tecnicamente sólidos e úteis para os países.

O próximo passo é dar continuidade ao trabalho, mantendo o diálogo com os países e incorporando todos os elementos necessários para uma transição, que não é apenas ambiental e climática, mas também social e econômica. Isso apareceu de forma muito clara nas discussões.

Esses mapas representam uma nova avenida de trabalho dentro do regime climático. Como não dependem do consenso formal das negociações, conseguem avançar mais rapidamente. Em Bonn foi apresentada a estrutura que esses documentos deverão seguir, e a expectativa é que versões mais maduras sejam apresentadas em setembro, com prazo até outubro para sua conclusão.

O sistema climático parece ter incorporado essa lógica de duas frentes de atuação. De um lado, seguem as negociações formais, que são as únicas capazes de gerar decisões obrigatórias para os países. De outro, avançam essas iniciativas voluntárias, conduzidas pelas presidências das COPs, que ajudam a acelerar a implementação. Hoje, o regime climático precisa que essas duas frentes caminhem juntas.

 

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