*Por Nikole Cantoara
“Eu não tinha muito o que agregar, mas podia tirar cópia, fazer ata de reunião, qualquer coisa. Eu só queria ouvir o que eles estavam discutindo.”
A fala parece simples, mas diz muito sobre a forma como Stela Herschmann construiu sua trajetória. Caloura do curso de direito da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), ela bateu na porta do NIMA (Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente) depois de ler, no jornal da universidade, que professores e pesquisadores participavam da elaboração do Código Ambiental do Estado do Rio de Janeiro. Contudo, Stela não queria protagonismo, queria aprender.
O interesse pelo meio ambiente vinha desde muito antes da universidade. Ainda criança, participou de iniciativas no bairro onde morava e chegou a escrever cartas para o prefeito em defesa de causas ambientais. Quando ingressou na faculdade, já sabia que queria trabalhar com direitos humanos e meio ambiente. O que ainda não imaginava é que encontraria na política climática a junção entre as duas agendas.
A insistência em participar do NIMA deu início a uma trajetória que passaria pela pesquisa, pela monitoria e pelo estudo das políticas públicas ambientais. Mais tarde, no MPRJ (Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro), trabalhou na análise de licenciamento ambiental de grandes empreendimentos, aproximando dados técnicos das decisões dos promotores e buscando fortalecer medidas para evitar impactos socioambientais.
Durante o mestrado em legislação e políticas ambientais na Duke University, nos Estados Unidos, a agenda climática deixou de ser apenas um interesse e passou a orientar sua carreira. No IGSD (Institute for Governance and Sustainable Development), em Washington, trabalhou na articulação internacional para a aprovação da Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal, adotado em 2016, o acordo prevê a redução gradual do uso dos hidrofluorcarbonetos (HFCs), gases usados em equipamentos de refrigeração e ar-condicionado que contribuem para o aquecimento global.
Foi nesse período que conheceu o Observatório do Clima. “Eu fiquei encantada e pensei: um dia quero trabalhar lá”, lembra. Anos depois, a oportunidade surgiu.
Contudo, antes de chegar à organização, Stela decidiu aprofundar sua compreensão sobre políticas públicas. Fez um segundo mestrado, desta vez em administração pública na FGV (Fundação Getúlio Vargas), onde mergulhou em métodos quantitativos e análises econométricas para entender como decisões políticas influenciam a realidade. Em sua pesquisa, analisou os impactos dos discursos de líderes mundiais sobre o desmatamento e encontrou uma relação estatisticamente significativa entre a retórica política e o aumento dos crimes ambientais.
“O que os líderes falam têm impacto”, resume. A constatação reforçou a importância de aproximar ciência, análise de dados e formulação de políticas públicas.
Hoje, como especialista em política climática do Observatório do Clima, Stela acompanha as negociações internacionais, participa das Conferências das Partes e faz a ponte entre as discussões globais e a realidade brasileira. Seu trabalho também envolve articular a rede, com mais de 160 organizações da sociedade civil e construir posicionamentos conjuntos para influenciar decisões internacionais.
Ela costuma brincar que uma das principais tarefas de quem trabalha com política climática internacional é fazer “fofoca estruturada”. A expressão, usada com bom humor, descreve a intensa troca de informações entre organizações, pesquisadores e negociadores para entender como os países estão se posicionando, antecipar tendências e construir estratégias de incidência política. “A gente troca o que chama de intel. Em português, a gente abrasileirou para ‘fofoca estruturada'”, explica.
Essa articulação é fundamental em um processo multilateral que, segundo ela, avança lentamente. Como as decisões das negociações climáticas são tomadas por consenso, os acordos costumam refletir o menor denominador comum entre quase 200 países.
A experiência acumulada nesse processo ganhou mais um capítulo durante a Conferência de Bonn, realizada em junho deste ano, na Alemanha. Para Stela, embora as negociações formais tenham avançado pouco, as discussões paralelas mostraram uma mudança importante na forma como a transição energética vem sendo tratada.
“Em Bonn, as salas de negociação estavam um pouco estagnadas, mas, ao mesmo tempo, os debates fora delas mostraram que a conversa sobre combustíveis fósseis mudou de patamar. Hoje, a gente já consegue discutir os caminhos para essa transição, os roadmaps, [mapas do caminho] e isso é um avanço importante. Alguns anos atrás, nem falar sobre combustíveis fósseis era possível”.
Ainda assim, ela destaca que os maiores entraves das negociações continuam sendo os mesmos: financiamento climático e combustíveis fósseis. “Se você quer azedar uma conversa nas negociações climáticas, basta falar de dinheiro ou de combustíveis fósseis”, comentou. Para a especialista, a primeira menção aos combustíveis fósseis no texto final da COP28, em 2023, foi um marco histórico. O desafio, agora, é transformar esse reconhecimento em compromissos concretos capazes de acelerar a transição energética.
No Brasil, ela enxerga um cenário de oportunidades e contradições. O país reúne condições para liderar uma economia de baixo carbono e, segundo estudos do Observatório do Clima, pode até se tornar carbono negativo antes de 2050. O principal desafio, afirma, continua sendo o desmatamento; uma fonte de emissões cuja solução já é conhecida. “A gente sabe quais políticas funcionam. Não é simples chegar ao desmatamento zero, mas sabemos o caminho”.
Ao mesmo tempo, chama atenção para outro desafio crescente: a matriz energética. Embora o Brasil tenha uma das matrizes mais limpas do mundo, a expansão de termelétricas e a contratação de projetos baseados em combustíveis fósseis podem comprometer a transição energética nas próximas décadas.
Para a especialista, enfrentar a crise climática exige combinar ciência, políticas públicas e justiça social. A adaptação às mudanças do clima precisa receber mais atenção e financiamento, especialmente porque os impactos recaem de forma desproporcional sobre os países do Sul Global e as populações mais vulneráveis.
Mais de vinte anos depois de bater à porta de um grupo de pesquisa oferecendo ajuda para aprender, Stela continua movida pela mesma inquietação. “Sempre quis trabalhar com alguma coisa em que eu acreditasse e que pudesse gerar um impacto positivo”, diz.
Mesmo diante de um contexto internacional marcado por disputas geopolíticas e pelo avanço de discursos que atrasam a ação climática, ela mantém o otimismo. “A crise climática é o maior desafio da humanidade. Se a gente conseguir fazer parte da construção de soluções e deixar um mundo um pouco menos difícil para as próximas gerações, já valeu a pena”.
É essa convicção que continua guiando seu trabalho: construir pontes entre ciência, sociedade civil e governos para que as decisões tomadas nas mesas de negociação se transformem em ações concretas pelo planeta.
Estagiária de Comunicação*
