Por Lucas Guaraldo
A urgência das demandas locais e a necessidade de incluir povos e comunidades tradicionais na construção do Mapa do Caminho para o Fim do Desmatamento foram o foco do painel Roadmap do Fim do Desmatamento: A Amazônia no Centro, realizado durante a II Semana do Clima da Amazônia, organizado pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). O evento reuniu Enviados Especiais da presidência brasileira da COP30, agricultores familiares, lideranças comunitárias e indígenas e representantes da sociedade civil para discutir a participação dos territórios na elaboração das diretrizes que serão apresentadas durante a COP31, marcada para novembro, na Turquia.
“Foi um momento importante de escutar as comunidades locais. O fim do desmatamento é desenhado em gabinetes, mas acontece no chão, no território. É nos territórios indígenas e na agricultura familiar que precisamos fortalecer quem resiste às crescentes agressões”, afirmou André Guimarães, diretor executivo do IPAM e Enviado Especial da Sociedade Civil para a COP30.
Confira aqui a programação do IPAM na Semana do Clima da Amazônia.
Criada por André Corrêa do Lago, presidente da COP30, para ampliar o diálogo com diferentes setores da sociedade, a rede de Enviados Especiais atua como um canal direto entre a presidência da conferência e diversos segmentos da sociedade. Além de Guimarães, participaram do painel Joaquim Belo, Enviado Especial para a Sociedade Civil Amazônica, e Sinéia do Vale, Enviada Especial para Povos Indígenas.
Os enviados debateram as prioridades da agenda com Aurélio Borges, diretor da Malungu (Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará), e Ângela Conceição Lopes, presidente da FETAGRI-PA (Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Pará), além de representantes do público, que apresentaram demandas de povos e comunidades tradicionais e da agricultura familiar amazônica.
“Nós pudemos conhecer em primeira mão quais são as necessidades das pessoas e nos comprometemos a levar as demandas que escutamos aqui para a presidência brasileira da COP. Essas informações são riquíssimas para o mapa do caminho que estamos construindo. Os relatos de quem convive diariamente com os impactos das mudanças climáticas e sente na pele as demandas mais urgentes serão fundamentais para o documento que entregaremos na COP31, na Turquia”, completou Guimarães.
Escuta e inclusão
Entre as medidas discutidas estiveram o fortalecimento do combate ao desmatamento ilegal por meio da atuação do Estado e do marcado privado, a ampliação da participação das comunidades locais no debate climático e a implementação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável. Para os participantes, falar sobre conservação das florestas exige, antes de tudo, fortalecer as populações que historicamente protegem esses territórios.
“Floresta em pé já não é um termo suficientemente adequado. Precisamos falar em florestas vivas, que incluam as comunidades locais, as famílias e os povos tradicionais. Não queremos nada para nós que não nos inclua. Se vamos construir um modelo de conservação, queremos participar e ser ouvidos nesse processo”, reforçou Aurélio Borges.
Na avaliação dos painelistas, esse fortalecimento também depende da ampliação do acesso a recursos financeiros, da oferta de suporte jurídico e da proteção às pessoas que estão na linha de frente da conservação, mas ainda enfrentam dificuldades de acesso a políticas públicas, insegurança e o avanço da grilagem e da criminalidade em seus territórios.
“Essa conversa, para mim, é muito importante. Precisamos construir uma frente unida, capaz de reunir diferentes modos de vida em torno de um objetivo comum. Para acabar com o desmatamento, é preciso olhar para todos que fazem parte dessa luta e construir os caminhos a partir dessa diversidade. Sem todos nós, esses mapas deixam de fazer sentido. Isso só será possível se aqueles que trabalham diariamente pela proteção dos territórios forem efetivamente ouvidos”, afirmou Sinéia do Vale.
Segundo a líder indígena, que coordena o Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas do CIR (Conselho Indígena de Roraima), os espaços internacionais de negociação podem parecer distantes da realidade dos territórios, mas a participação coletiva tem produzido resultados concretos. “Juntos conseguimos levar nossas demandas de forma enfática e organizada, como fizemos na COP30, quando defendemos a inclusão da demarcação de terras indígenas como uma política de mitigação”.
Mais informações:
Lucas Guaraldo Itaborahy
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