Semana do Clima pauta governança territorial na Amazônia e no Cerrado

2 de julho de 2026 | Notícias

jul 2, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

Belém (PA) – Enfrentar os efeitos cada vez mais extremos das mudanças climáticas exige olhar para os territórios como espaços onde pessoas, governos, empresas, organizações da sociedade civil e comunidades compartilham desafios e, juntos, precisam construir soluções. Esse foi o fio condutor do painel Soluções climáticas no território: como iniciativas de paisagem estão promovendo desenvolvimento sustentável na Amazônia e no Cerrado, realizado nesta quarta-feira (1º), durante a II Semana do Clima da Amazônia, em Belém.

Reunindo pesquisadores, gestores públicos, representantes da sociedade civil e agricultores familiares, o debate destacou que a agenda climática só avança quando incorpora a experiência de quem vive e produz nos territórios. Cerca de 100 agricultores participaram da programação.

“É fundamental envolver os diferentes setores da sociedade nessa discussão. Quando agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais compartilham sua visão sobre produção e conservação ambiental, a gente constrói um portfólio de soluções climáticas mais diverso e mais rico, porque essas pessoas trazem a realidade dos territórios para o centro do debate”, afirmou Isabela Gomes Pires, pesquisadora e coordenadora regional do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) no Maranhão.

Embora conceitos como território, paisagem e jurisdição tenham diferenças técnicas, todos partem de uma mesma compreensão: soluções ambientais e socioeconômicas só se tornam duradouras quando são construídas coletivamente. A proposta das chamadas iniciativas de paisagem é reunir os diferentes atores que compartilham um mesmo território para conciliar conservação ambiental, produção sustentável e desenvolvimento local.

Para Isabela, comunidades tradicionais e agricultores familiares já demonstram, na prática, que é possível conciliar produção e conservação. A pesquisadora cita como exemplo as quebradeiras de coco babaçu, que geram renda para suas famílias ao mesmo tempo em que mantêm uma relação de conservação com os babaçuais.

“A gente aprende muito com a percepção dessas comunidades sobre o meio ambiente e sobre as formas de vida. Quando elas [quebradeiras] participam dessa construção, as soluções climáticas têm muito mais chance de responder à realidade dos territórios. A produção agrícola não é inimiga da conservação ambiental. O desafio é construir formas de produzir que mantenham os serviços prestados pela natureza, como a disponibilidade de água e a regulação do clima”, explicou.

Na avaliação de Isabela, a degradação da vegetação nativa compromete processos essenciais para a própria agricultura, como o ciclo hidrológico e a manutenção das chuvas, evidenciando que desenvolvimento econômico e conservação precisam caminhar juntos.

Coordenado pelo IPAM, o painel reuniu experiências desenvolvidas em três regiões da Amazônia e do Cerrado que vêm apostando na governança territorial como estratégia para enfrentar desafios comuns relacionados à produção de alimentos, conservação ambiental, inclusão socioprodutiva e adaptação às mudanças climáticas.
Representando a Iniciativa de Paisagem do Oeste de Mato Grosso, participaram Richard Smith, diretor-executivo do Instituto PCI (Produzir, Conservar e Incluir), e Dalva Cristiana do Nascimento, agricultora familiar e empreendedora rural reconhecida pelo trabalho desenvolvido na Estância Recanto dos Sonhos, em Tangará da Serra (MT).

“Nós começamos com uma área totalmente degradada, sem praticamente nenhuma árvore, e com planejamento e trabalho de formiguinha fomos reconstruindo tudo. A gente tinha um sonho claro: recuperar o solo, reflorestar e, no futuro, mostrar que era possível produzir com sustentabilidade e ainda agregar valor dentro da propriedade”, afirmou a agricultora familiar.

Painel contou com mais de 100 agricultores (Foto: Mayara Subtil/IPAM)

Entre as experiências apresentadas, esteve a Estratégia Chapadinha Sustentável 2050, desenvolvida na microrregião de Chapadinha, no Cerrado maranhense. Representada por Jaqueline Oliveira Vaz, agricultora familiar e agrofloresteira, a iniciativa reúne agricultores, organizações da sociedade civil e instituições públicas para fortalecer a agricultura familiar, ampliar a restauração produtiva e impulsionar o desenvolvimento territorial sustentável.

“A gente começou com uma realidade de agricultura convencional e, a partir do momento em que tivemos acesso ao sistema agroflorestal e aos intercâmbios de aprendizagem, passou a enxergar que era possível transformar a nossa forma de produzir. O mais importante foi entender que o território precisa ser trabalhado a partir da nossa realidade, com diálogo e construção conjunta, e não com soluções impostas”, disse a agricultora.

A estratégia objetiva é construir uma paisagem produtiva e sustentável por meio do diálogo entre os diferentes atores do território. Entre as ações desenvolvidas estão unidades demonstrativas de sistemas agroflorestais, que recuperam áreas degradadas enquanto mantêm a produção e geram renda para as famílias.

O Corredor da Sustentabilidade Paragominas-Barcarena, no Pará, foi apresentado por Raphael Medeiros, diretor executivo do CEA (Centro de Empreendedorismo da Amazônia), e por Raphael Sereni, secretário municipal de Meio Ambiente de Abaetetuba (PA). Segundo Medeiros, a iniciativa surgiu da percepção de que diversas organizações, empresas e instituições de pesquisa já desenvolviam ações na região, mas precisavam atuar de forma mais articulada para ampliar seus resultados.

“Estamos falando de um projeto de longo prazo, que envolve muitos atores e uma construção conjunta que não é fácil, mas está avançando. Já começamos a construir, com as comunidades, os planos de implementação para melhorar os indicadores do território”, afirmou Raphael.

Ao longo do debate, os participantes compartilharam desafios e aprendizados na construção dessas iniciativas, destacando que a governança territorial depende da capacidade de promover diálogo entre atores com interesses distintos. Em vez de projetos isolados, as experiências apresentadas demonstram que soluções climáticas ganham escala quando são construídas de forma colaborativa e adaptadas às características de cada território.

Restauração e regularização ambiental

A programação do IPAM na II Semana do Clima da Amazônia continuou durante a tarde com o evento A importância da Restauração e Regularização Ambiental no enfrentamento às Mudanças Climáticas, reunindo pesquisadores, gestores públicos, representantes de organizações e agricultores para discutir instrumentos que fortalecem a agenda climática nos territórios.

André Guimarães, diretor executivo do IPAM, destacou na abertura do debate a importância de integrar restauração, regularização ambiental e produção sustentável para fortalecer a resiliência dos territórios diante da crise climática.

“De um lado, estão as discussões de alto nível, com negociadores, governantes, líderes globais e grandes empresários. Mas a ação acontece aqui, acontece com vocês, lá na propriedade rural, no campo, no assentamento, na terra indígena e no quilombo. É ali que se preserva a floresta, muitas vezes sem condição nenhuma, sem apoio, mas ainda assim com resultados concretos, como a proteção de um igapó ou de um pedaço de floresta. É isso que estamos buscando: transformar esse esforço em recuperação da floresta”, afirmou André.

André Guimarães na II Semana do Clima da Amazônia (Foto: Mayara Subtil/IPAM)

A programação da tarde foi aberta com a palestra de Rodrigo Freire, da TNC (The Nature Conservancy), sobre a restauração como estratégia de regularização ambiental e enfrentamento às mudanças climáticas.

O primeiro painel abordou práticas, projetos e políticas voltadas à restauração florestal produtiva, com apresentações de Thiago Lima da Silva, do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar); Cleyton Amin, da Semas (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará); Vicente Cirino, do IVISAM (Instituto Vida e Sintropia da Amazônia); e Audie Vergara, da OMTSE Ventures.

Na segunda mesa, especialistas e gestores públicos discutiram a contribuição da regularização ambiental para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Participaram Marcela Eberius Mendonça, do Serviço Florestal Brasileiro; Maximira Costa, da Semas Pará; João de Jesus Sousa, secretário municipal de Meio Ambiente de Placas (PA); e Renato Augusto Rodrigues, da CI Brasil (Conservação Internacional).

II Semana do Clima da Amazônia

A II Semana do Clima da Amazônia se insere em um ciclo de intensificação das agendas climáticas globais, que ganhou força em 2025 com a realização da COP30. Os debates avançaram na Conferência de Bonn, na Alemanha, onde foram consolidados roteiros internacionais para o enfrentamento do desmatamento e da degradação florestal até 2030 e para a transição energética, e seguiram em Londres, em encontros que aprofundaram discussões sobre financiamento climático, proteção de florestas e cooperação entre governos, sociedade civil e setor financeiro.

Nesse contexto, a Semana do Clima em Belém funciona como um ponto de retorno dessas discussões ao território amazônico, com foco na implementação das decisões e na transformação dos compromissos em ações concretas. O evento reforça a lógica de continuidade das agendas climáticas internacionais, articulando negociações multilaterais, espaços de planejamento e experiências locais em torno da execução da agenda global do clima.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

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