Protagonismo feminino é destaque na Semana do Clima da Amazônia

1 de julho de 2026 | Notícias

jul 1, 2026 | Notícias

Por Lucas Guaraldo

Por sofrerem de forma desproporcional os efeitos da crise climática e prestarem serviços essenciais para a conservação da floresta e o combate ao desmatamento, mulheres e jovens, sobretudo pertencentes a povos e comunidades tradicionais, precisam ocupar espaços nas mesas de negociação climática e nos debates internacionais. Essas demandas foram apresentadas por coletivos durante a II Semana do Clima da Amazônia, em Belém, no painel Gênero e Clima: o protagonismo das mulheres e da juventude, moderado pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) nesta terça-feira (30).

Para as organizadoras, a destinação de recursos e a criação de projetos voltados à conservação da Amazônia historicamente ignoram o papel das famílias, das mulheres e das crianças na manutenção da floresta e no fortalecimento da economia sustentável. Ao concentrarem esforços nos homens e em suas atividades, políticas e programas ambientais acabam marginalizando grupos fundamentais para a conservação e ampliando sua vulnerabilidade aos impactos do clima.

“Estamos atuando em todas as frentes, mas ainda não somos ouvidas por uma questão cultural que insiste em concentrar seus esforços na figura dos homens. A soma de pensamentos, a forma de ver as coisas de maneira diferenciada, traz soluções criativas, com maior escalabilidade e impacto. As mulheres estão fazendo coisas incríveis nos seus territórios e incluí-las no debate só tem a engrandecer nossas soluções”, defendeu Lucimar Souza, diretora de Desenvolvimento Territorial do IPAM e moderadora da discussão.

Confira aqui a programação do IPAM na Semana do Clima da Amazônia.

Segundo Maria Araújo de Aquino, presidente do Grupo de Trabalho Amazônico da CNS (Confederação Nacional dos Seringueiros), um levantamento realizado pela organização no ano passado identificou contribuições “essenciais e significativas” das mulheres em todas as cadeias da bioeconomia no Pará. Apesar dessa participação constante, elas foram contempladas poucas vezes em editais de fomento à pesquisa e ao desenvolvimento, tendo que conciliar suas atividades no campo e na indústria com outros trabalhos para complementar a renda.

“É sempre o pescador, o castanheiro, o seringueiro, e nós nunca somos sequer citadas nesses documentos e políticas. Agora temos que considerar que são famílias de pescadores, famílias de castanheiros e famílias de seringueiros, porque a família está em toda a cadeia. Seja na borracha ou no açaí, estamos na cadeia produtiva todos os dias. Para dar um passo além e ampliar esse protagonismo, precisamos ser incluídas. Não só no orçamento, mas também respeitadas e consideradas nos negócios”, ressaltou.

A mesma reivindicação foi apresentada por representantes dos movimentos da juventude, que argumentam que, apesar de terem herdado uma situação climática complexa e conviverem com seus efeitos por mais tempo, seguem afastados das mesas de negociação e têm suas demandas pouco consideradas.

“O nosso protagonismo sempre existiu na prática, mas nunca fez parte das discussões mais importantes do debate climático. Por que nossas vozes não são ouvidas nesses espaços, se somos nós a cara desse debate? Somos protagonistas da conservação e temos muito menos responsabilidade pela situação que enfrentamos hoje do que outros grupos, mas precisamos ser ouvidas e apoiadas nesse papel”, afirmou Irlan Paixão, coordenadora de Comunicação da Cojovem (Cooperação da Juventude Amazônida para o Desenvolvimento Sustentável).

Sobre a Semana do Clima

A II Semana do Clima da Amazônia, que segue em Belém até o dia 3 de julho, integra o calendário internacional de discussões climáticas com o objetivo de ampliar a participação de pessoas e organizações amazônidas nos principais debates da agenda global do clima. Neste ano, o evento reúne o dobro de atividades registradas na edição anterior e busca fortalecer, na esteira da COP30 realizada na capital paraense em 2025, as discussões sobre adaptação, financiamento e implementação, temas centrais para a COP 31.

“A segunda Semana do Clima já representa um grande salto em comparação com a do ano passado, mas precisamos fortalecê-la ainda mais porque esse é um debate central para o enfrentamento da crise climática. É muito importante reunir esse ‘caldo’ de organizações e fazer com que esse grupo também traga parceiros e organizações menores para diversificar ainda mais esse debate”, celebrou Lucimar.

Antes da Conferência das Partes de 2026, que será realizada em novembro, na Turquia, outras rodadas de negociação, como a Conferência de Bonn e as Semanas do Clima de Nova York e Londres, ajudam a definir as principais pautas que serão discutidas por negociadores e governos. Com a Semana do Clima da Amazônia, a proposta é ampliar essa agenda, historicamente concentrada em cidades da Europa e da América do Norte, incorporando de forma mais efetiva as perspectivas dos países do Sul Global, que reivindicam maior protagonismo nas discussões da COP do Clima.

Mais informações:
Lucas Guaraldo Itaborahy
+55 (61) 9 9278 7561
lucas.itaborahy@ipam.org.br

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