Simpósio fortalece Política Nacional do Manejo Integrado do Fogo

30 de junho de 2026 | Notícias

jun 30, 2026 | Notícias

*Por Nikole Cantoara

O avanço das mudanças climáticas tem intensificado a ocorrência de incêndios florestais no Brasil, tornando-os mais frequentes e severos, aumentando os desafios para a conservação dos biomas e a proteção das populações que dependem desses territórios. Diante desse cenário, ampliar políticas públicas voltadas à prevenção e ao manejo do fogo tornou-se uma prioridade para reduzir riscos ambientais, sociais e econômicos.

Com esse propósito, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) realizou o segundo encontro do SinaFogo (Simpósio Nacional sobre a Gestão do Fogo), com apoio do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e de instituições parceiras, entre 24 e 27 de junho, em Brasília. O evento celebrou os dois anos da Política Nacional do MIF (Manejo Integrado do Fogo), reunindo especialistas, gestores públicos, brigadistas, pesquisadores e representantes da sociedade civil para discutir estratégias de prevenção, governança e adaptação diante dos desafios impostos pela crise climática.

Para Jarlene Gomes, pesquisadora do IPAM, o simpósio reafirma que o sucesso da política depende da atuação coordenada entre diferentes setores. “É como uma engrenagem: todos os atores precisam estar integrados em uma ação onde cada um contribua de alguma forma, seja com dados de qualidade, seja fortalecendo a prevenção. Se a gente previne os incêndios florestais, evitamos grandes incêndios e conseguimos reduzir as perdas econômicas, sociais e, principalmente, os impactos à saúde humana”, destaca.

Além de avaliar os avanços da política, o SinaFogo também debateu os desafios da próxima temporada de incêndios florestais, marcada pela previsão de seca severa e pela influência do El Niño. O objetivo foi discutir como transformar o conhecimento científico e as experiências acumuladas nos últimos anos em estratégias mais eficazes de prevenção e resposta.

O MIF propõe uma mudança na forma como o fogo é tratado nas políticas ambientais. Em vez de considerar todo uso do fogo como um problema, a estratégia reconhece que, quando planejado, monitorado e realizado com base em critérios técnicos e conhecimentos tradicionais, ele pode reduzir o acúmulo de material combustível na vegetação, diminuir o risco de grandes incêndios e contribuir para a conservação dos ecossistemas.

El Niño reforça a importância do Manejo Integrado do Fogo

A previsão de atuação do fenômeno El Niño acende o alerta para uma temporada crítica de incêndios florestais. Associado ao aumento das temperaturas e à redução das chuvas em diferentes regiões do país, o fenômeno cria condições favoráveis à propagação do fogo, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Nesse contexto, o MIF torna-se ainda mais estratégico ao fortalecer ações preventivas, ampliar o monitoramento e integrar órgãos públicos, instituições de pesquisa, proprietários rurais e comunidades locais na gestão do fogo.

Segundo Jair Schmitt, presidente do Ibama, a Política Nacional do Manejo Integrado do Fogo representa um marco para a gestão dos incêndios florestais ao estabelecer uma responsabilidade compartilhada entre poder público, setor privado e sociedade civil. “A política fortaleceu as instâncias de governança e ampliou a integração entre os diferentes atores envolvidos na prevenção e no combate aos incêndios florestais. O Ibama nunca teve tantos equipamentos, recursos e profissionais atuando nessa agenda. Somando esse fortalecimento institucional às lições aprendidas nas últimas temporadas, estamos mais e melhor preparados para enfrentar os incêndios em 2026, tanto nas medidas de prevenção quanto nas ações de resposta”, afirma.

As lições mencionadas por Schmitt refletem os desafios enfrentados durante a temporada de incêndios de 2024, uma das mais severas já registradas no país. Impulsionado pela combinação entre os efeitos das mudanças climáticas, a seca extrema e a influência do El Niño, o fogo atingiu milhões de hectares, causando impactos expressivos sobre a Amazônia. Dados do Monitor do Fogo, da rede MapBiomas coordenada pelo IPAM, apontam um aumento de 54% de áreas queimadas em relação ao ano anterior, incluindo o avanço das chamas sobre florestas nativas, terras indígenas, unidades de conservação e florestas públicas. O cenário evidenciou que enfrentar os incêndios exige ações que vão além do combate direto às chamas, reforçando a necessidade de investir em prevenção, planejamento e gestão integrada do fogo.

Agenda global do fogo

Ane Alencar, diretora de ciência do IPAM, Ane ressaltou, no encerramento do SinaFogo, que esse debate precisa ocupar um espaço cada vez maior nas agendas nacionais e internacionais de enfrentamento às mudanças climáticas. Segundo ela, os incêndios florestais deixaram de ser um desafio exclusivamente ambiental e passaram a exigir respostas integradas, baseadas em evidências científicas e na cooperação entre diferentes setores. “O Brasil é um ator muito importante na agenda global do fogo. Para gerir melhor esse cenário, precisamos compreender onde o fogo é necessário, onde ele representa um risco e usar dados de qualidade para orientar as decisões. Esses dados são fundamentais para transformar conhecimento em ação”, afirma.

Para a diretora, o segundo encontro do SinaFogo demonstra que a consolidação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo depende da articulação permanente entre ciência, gestão pública, povos e comunidades tradicionais e demais setores envolvidos na gestão do fogo. “Ao celebrar os dois anos da política, o evento reforça o compromisso coletivo de transformar conhecimento em ação, aperfeiçoar estratégias de prevenção e ampliar a capacidade do país de responder aos desafios impostos pelas mudanças climáticas e pelo aumento do risco de incêndios florestais”, ressalta Alencar.

Estagiário de Comunicação*

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