Londres impulsiona diálogo global sobre florestas e ação climática

29 de junho de 2026 | Notícias

jun 29, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

Londres vive um dos junhos mais quentes da história. Em meio à Semana de Ação Climática, a cidade permaneceu sob um raro alerta vermelho para calor extremo emitido pelo serviço meteorológico britânico, o Met Office, enquanto temperaturas acima da casa dos 30ºC afetavam o transporte público, interrompiam serviços ferroviários e expunham os desafios de uma infraestrutura pouco preparada para ondas de calor.

Foi com esse pano de fundo que mais de mil eventos espalhados pela cidade reuniram governos, empresas, investidores, cientistas e organizações da sociedade civil para debater como transformar compromissos em implementação. A mobilização ganhou ainda mais relevância diante dos impasses da última Conferência de Bonn, na Alemanha, que evidenciaram as dificuldades para avançar nas negociações formais sobre clima.

É nesse contexto que o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) participou da programação com uma agenda voltada a temas centrais para a implementação climática: fogo, florestas, financiamento, uso da terra e segurança alimentar. A atuação do Instituto conectou evidências científicas produzidas na Amazônia a debates internacionais sobre como ampliar recursos para conservação e restauração, reduzir riscos de incêndios florestais e manter a proteção das florestas tropicais no centro da agenda climática global.

Entre os temas discutidos em Londres esteve o mapa do caminho global para frear o desmatamento e a degradação florestal até 2030, um dos principais legados políticos da presidência brasileira da COP30. O documento, que começou a ser estruturado em Belém e avançou nas negociações de Bonn, voltou a aparecer em diferentes fóruns da agenda climática na capital inglesa.

“Foi muito positivo ver esse documento [mapa do caminho] sendo discutido em diferentes espaços. Isso mostra que o tema continua vivo”, avaliou André Guimarães, diretor-executivo do IPAM e enviado especial para a Sociedade Civil da COP30.

André Guimarães na Semana Ação Climática de Londres (Foto: Consórcio da Amazônia)

Apesar desse avanço, Guimarães alertou para o desafio de manter as florestas entre as prioridades das próximas conferências climáticas. Para ele, organizações da sociedade civil terão papel decisivo para garantir que o tema atravesse a COP31, na Turquia, e chegue fortalecido à COP32, na Etiópia.

“As prioridades da COP31 não estão diretamente relacionadas às florestas nem à segurança alimentar. Existe um desafio importante para que essa agenda atravesse a conferência da Turquia e chegue fortalecida também à COP32. Instituições como o IPAM precisarão continuar levando esse debate para os espaços internacionais, garantindo que o combate ao desmatamento permaneça como uma prioridade da agenda climática global”, disse.

Participação do IPAM

O Instituto integrou a programação em Londres com diferentes especialistas e agendas complementares. Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM, concentrou sua atuação nos debates sobre incêndios florestais e degradação, temas que ganharam ainda mais relevância diante do aumento das temperaturas e da maior vulnerabilidade das florestas tropicais ao fogo.

A pesquisadora levou aos encontros evidências científicas sobre tendências recentes do fogo na Amazônia, impactos ambientais e sociais dos incêndios e caminhos para fortalecer estratégias de prevenção, monitoramento e resposta.

“Grande parte das áreas de floresta queimadas na Amazônia ocorreu durante eventos fortes e muito fortes de El Niño. Se a previsão de um novo episódio intenso em 2026 se confirmar, teremos um fenômeno acontecendo em um clima que já está mais quente. Isso aumenta as chances de incêndios florestais em larga escala e reforça a necessidade de ampliar as medidas de prevenção e resposta”, afirmou Ane.

Ane Alencar (dir.) durante painel sobre El Ninõ (Foto: Acervo IPAM)

Gabriela Savian, diretora de Políticas Públicas do IPAM, acompanhou as discussões sobre REDD+ Jurisdicional, mecanismo voltado à remuneração de estados e governos subnacionais que conseguem reduzir o desmatamento. A agenda busca criar incentivos econômicos para valorizar as florestas em pé e fortalecer instrumentos de financiamento climático em escala.

“A lógica é criar incentivos econômicos para valorizar as florestas em pé e remunerar quem consegue reduzir o desmatamento. Essa é uma agenda extremamente importante para o Brasil”, destacou André Guimarães.

O diretor também dedicou parte de sua agenda às discussões sobre uso da terra e segurança alimentar, defendendo que o combate ao desmatamento e a ampliação da produção de alimentos precisam avançar simultaneamente. Para ele, embora a Semana de Ação Climática de Londres tenha fortalecido o diálogo entre governos, setor privado e sociedade civil e mantido viva a agenda da implementação, o principal desafio continua sendo transformar os compromissos assumidos em ações concretas.

“Precisamos reduzir o desmatamento e, ao mesmo tempo, ampliar a segurança alimentar. Esse talvez seja um dos grandes desafios da agenda climática em um planeta que continua aquecendo. Tivemos discussões muito importantes e vemos algumas luzes no fim do túnel, mas ainda precisamos acelerar a implementação. O trabalho continua”, disse.

Londres reforça agenda da implementação

A presença da presidência brasileira da COP30 em Londres também serviu para manter em movimento as principais iniciativas lançadas em Belém e ampliar sua articulação internacional.

Durante a semana, os representantes brasileiros defenderam a continuidade dos mapas do caminho para frear o desmatamento e a degradação florestal até 2030 e para acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis, reforçaram a Missão Belém, iniciativa voltada à construção de soluções concretas para implementar o Acordo de Paris, e aprofundaram o diálogo com governos, investidores, setor privado e sociedade civil para garantir que os compromissos assumidos na COP30 avancem até a COP31, na Turquia.

Semana de Ação Climática de Londres 2026 (Foto: Wilder García/ Ministério do Meio Ambiente da Colômbia)

Entre os principais anúncios esteve o lançamento do Acelerador Global de Implementação, iniciativa conjunta das presidências da COP30 e da COP31 para conectar governos, instituições financeiras, empresas e organizações da sociedade civil em torno da execução de projetos capazes de acelerar a ação climática nesta década decisiva.

Também foi lançado, pelas presidências da COP29, COP30 e COP31, um chamado internacional para receber contribuições à Missão Belém, ampliando a participação de diferentes setores na construção de propostas voltadas à implementação das decisões climáticas.

A agenda da presidência brasileira também deu destaque a temas considerados estratégicos para o cumprimento da meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C. Em encontro com António Guterres, secretário-geral da ONU (Nações Unidas), representantes das presidências das conferências reforçaram a necessidade de acelerar a redução das emissões de metano, um dos gases de efeito estufa mais potentes e cuja mitigação é considerada uma das formas mais rápidas de reduzir o ritmo do aquecimento global nas próximas décadas.

Relatório de Santa Marta foi apresentado em Londres (Foto: Wilder García/ Ministério do Meio Ambiente da Colômbia)

Outro marco da semana foi a apresentação, pelos governos da Colômbia e dos Países Baixos, do relatório final da TAFF-1 (Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis), realizada em abril, em Santa Marta. O documento foi oficialmente entregue a António Guterres para subsidiar os debates até a COP31 e representa o primeiro marco internacional consolidado de cooperação voltado à implementação de uma transição energética justa, ordenada e equitativa.

Elaborado a partir de contribuições de governos, setor privado, povos indígenas, academia, juventude e organizações da sociedade civil de 57 países, o relatório propõe uma agenda prática para acelerar a transição energética. Entre as recomendações estão a elaboração dos roteiros nacionais e regionais de transição, reformas na arquitetura financeira internacional, alinhamento entre políticas climáticas, comércio e investimentos, fortalecimento da cooperação internacional e ampliação do financiamento para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

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Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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