Por Mayara Subtil*
A busca por soluções capazes de proteger florestas, reduzir o risco de eventos climáticos cada vez mais extremos e ampliar o financiamento para ações de adaptação e mitigação estará no centro da London Climate Action Week (Semana de Ação Climática de Londres 2026), que começou no último sábado e segue até 28 de junho, em Londres, Reino Unido.
Realizado poucos dias após a reunião de clima de Bonn, na Alemanha, o encontro em Londres reúne governos, cientistas, instituições financeiras, empresas e organizações da sociedade civil para discutir como transformar compromissos internacionais em ações concretas capazes de reduzir impactos climáticos no cotidiano, como fortes secas, incêndios florestais, ondas de calor, perdas agrícolas e insegurança hídrica.
É nesse contexto que o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) participa de três eventos estratégicos da programação londrina. Os debates abordarão desde os riscos de uma nova ocorrência do fenômeno El Niño e o aumento da vulnerabilidade das florestas tropicais aos incêndios até os desafios para ampliar o financiamento destinado à conservação e restauração de ecossistemas.
Considerada uma das maiores agendas climáticas do mundo fora do processo formal das Nações Unidas, a Semana do Clima de Londres também funciona como um espaço para avançar debates que permaneceram sem consenso nas negociações formais e ajudar a construir caminhos rumo à COP31, de presidência turca e australiana.
Financiamento em escala para proteger florestas
O primeiro compromisso do IPAM na programação é o evento From Forests to Finance, que contará com a participação de André Guimarães, diretor-executivo do instituto e enviado especial da Sociedade Civil para a COP30. Voltado aos desafios de ampliar o financiamento para a conservação e a restauração de florestas em países tropicais, o encontro reunirá representantes de governos nacionais e subnacionais da África e da América Latina, investidores, instituições financeiras, organismos multilaterais e especialistas em mercados de carbono para debater estratégias capazes de acelerar o fluxo de recursos destinados à proteção das florestas e ao enfrentamento da crise climática. O evento acontece nesta segunda-feira (22), das 14h às 18h30 (horário de Londres), na LABS House, em Bloomsbury Way, Londres.
A proposta é avaliar os avanços registrados ao longo do último ano e identificar os principais gargalos que ainda impedem que o financiamento climático alcance a escala necessária para enfrentar simultaneamente a crise climática, a perda de biodiversidade e a degradação dos ecossistemas.
As discussões devem abordar instrumentos como mercados de carbono, mecanismos de pagamento por resultados, compromissos de compra de créditos de longo prazo, o Artigo 6 do Acordo de Paris e novas fontes de demanda capazes de impulsionar investimentos em conservação. Também estarão em pauta estratégias para conectar diferentes fontes de capital (públicas, privadas e filantrópicas) às paisagens e comunidades responsáveis por gerar benefícios relacionados ao clima, à água, à produção de alimentos e à conservação da biodiversidade.
Os impactos de um possível El Niño
Um dos eventos contará com a participação de Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM, e discutirá um dos principais fatores de risco para a Amazônia nos próximos meses: a possibilidade de desenvolvimento de um novo episódio de El Niño.
Intitulado The Amazon and the El Niño: A Firestorm in 2026?, o debate reunirá especialistas de universidades, organismos internacionais, organizações da sociedade civil e governos para analisar projeções climáticas e os potenciais impactos do fenômeno sobre a maior floresta tropical do planeta. O evento será realizado na próxima quarta-feira (24), das 9h às 10h30 (horário de Londres), na Toynbee Hall, em Londres, Reino Unido.
Historicamente, eventos de El Niño estão associados ao aumento das temperaturas e à redução das chuvas em amplas áreas da Amazônia. Essa combinação favorece secas mais severas, reduz a umidade da vegetação e aumenta o risco de incêndios florestais. Os efeitos ultrapassam os limites da floresta: afetam a produção agrícola, a disponibilidade de água, a geração de energia, a saúde das populações expostas à fumaça e a estabilidade climática de diferentes regiões da América do Sul.
O debate também ocorre em meio a alertas de que um eventual El Niño em 2026 poderá encontrar a Amazônia mais vulnerável após sucessivos anos de extremos climáticos. Em coluna JOTA, especialistas destacam que, embora o fenômeno seja natural, o aquecimento global tende a potencializar seus efeitos, reforçando a necessidade de investir em prevenção, monitoramento e preparação. A expectativa é que o compartilhamento de evidências científicas e experiências de gestão contribua para reduzir riscos e evitar que secas e incêndios se transformem em desastres de grandes proporções.
O encontro discutirá os cenários previstos para 2026, as tendências recentes do fogo na Amazônia, os impactos ambientais e sociais dos incêndios e as oportunidades para fortalecer ações de prevenção, monitoramento e resposta diante de eventos climáticos extremos.
Além de Ane Alencar, participam do painel Erika Berenguer, pesquisadora da Universidade de Oxford e da Rede Amazônia Sustentável; Amy Duchelle, da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura); e Vanessa Duarte, diretora-executiva do Consórcio Amazônia Legal.
Lições da Índia e da Amazônia
A crescente vulnerabilidade das florestas tropicais ao fogo também será tema do terceiro compromisso do IPAM chamado Enhancing Wildfire Resilience in India: Integrating Science, Communities and Innovation, realizado em parceria por organizações internacionais, universidades e instituições de pesquisa. O evento vai acontecer na quinta-feira (25), das 12h às 13h30 (horário de Londres), no Joseph Rotblat Lecture Theatre, Charterhouse Square Campus, da Queen Mary University of London.
Embora os incêndios em ecossistemas boreais e temperados recebam grande atenção global, especialistas alertam que as florestas tropicais enfrentam riscos cada vez maiores em razão das mudanças climáticas, da degradação florestal, da expansão do desmatamento e da pressão crescente sobre a natureza. Em muitos casos, incêndios que antes eram raros nesses ecossistemas passam a ocorrer com mais frequência e intensidade, comprometendo a biodiversidade, os estoques de carbono, os recursos hídricos e meios de vida de milhões de pessoas.
Apesar de estarem em continentes distintos, Amazônia e Índia compartilham desafios semelhantes diante desse cenário. Secas mais frequentes, aumento das temperaturas e pressões sobre as florestas têm ampliado a vulnerabilidade de paisagens tropicais ao fogo, tornando a troca de experiências uma ferramenta importante para fortalecer estratégias de prevenção, monitoramento e resposta. O intercâmbio entre governos, pesquisadores, comunidades locais e organizações da sociedade civil é apontado como um dos caminhos para ampliar a resiliência desses territórios frente ao agravamento da crise climática.
O evento discutirá como fortalecer essa resiliência por meio da integração entre conhecimento científico, saberes tradicionais, inovação tecnológica, políticas públicas e participação comunitária. A diretora de Ciência do IPAM apresentará uma análise das tendências globais de incêndios em florestas tropicais e dos desafios específicos enfrentados por esses ecossistemas.
A programação também destacará experiências desenvolvidas na Índia, incluindo iniciativas lideradas por comunidades locais, governos estaduais e organizações da sociedade civil para prevenção, monitoramento e resposta a incêndios. Entre os temas em debate estarão o papel dos povos indígenas e comunidades tradicionais na gestão integrada do fogo, o uso de tecnologias para alerta precoce e os investimentos necessários para fortalecer a governança de incêndios em paisagens tropicais.
*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br
