Bonn consolida avanço de roteiro global para proteger florestas

19 de junho de 2026 | Notícias

jun 19, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

As negociações climáticas de Bonn chegaram ao fim nesta quinta-feira (18) consolidando o avanço de um dos principais legados políticos deixados pela presidência brasileira da COP30: a construção do mapa do caminho global para frear o desmatamento e a degradação florestal até 2030. Durante duas semanas, governos, cientistas, organizações da sociedade civil e organismos internacionais aprofundaram as discussões sobre o documento com previsão de ser apresentado antes da COP31. O avanço ocorreu apesar dos impasses que marcaram o fechamento da conferência e impediram consensos em temas centrais da agenda climática, como mitigação, adaptação e medidas de resposta às mudanças climáticas.

Seis meses após a COP30, a Conferência de Bonn [ou 64ª Sessão dos Órgãos Subsidiários] funcionou como o principal espaço de aprofundamento técnico nas discussões climáticas realizadas em 2025 no Brasil. O encontro reuniu representantes de quase 200 países rumo ao avanço em temas ligados à implementação do Acordo de Paris.

Embora o documento do roadmap siga em fase de elaboração, Bonn serviu para refinar propostas e reunir contribuições de diferentes setores da comunidade internacional. Na avaliação de Ludmila Rattis, pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do Centro de Pesquisa Climática Woodwell, dos Estados Unidos, a reunião de clima na Alemanha marcou uma etapa decisiva de aperfeiçoamento do roteiro global voltado às florestas.

“Foi um amadurecimento muito grande tanto do que estamos propondo para o roadmap quanto do próprio documento. Tivemos discussões com governos, agências da ONU [Organização das Nações Unidas], organizações da sociedade civil e diferentes redes internacionais. O debate está quente”, afirmou.

Por meio de uma série de reuniões formais e informais conduzidas pela presidência da COP30, os debates em torno do mapa do caminho para o fim do desmatamento e da degradação florestal estiveram entre os temas que mais mobilizaram governos, cientistas, organizações da sociedade civil e organismos internacionais em Bonn. A proposta busca construir um conjunto de orientações capaz de acelerar a implementação de ações voltadas à proteção das florestas até 2030. O documento reúne contribuições de governos, instituições científicas, povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, setor privado e sociedade civil para fortalecer estratégias de conservação, restauração, financiamento, monitoramento e governança florestal.

Ainda segundo Ludmila Rattis, Bonn ajudou a consolidar convergências em torno dos principais elementos que deverão compor a proposta. Entre eles estão a conservação de áreas prioritárias, a restauração de ecossistemas degradados, o fortalecimento dos sistemas de monitoramento e transparência, a ampliação do financiamento climático e o reconhecimento do papel estratégico dos povos indígenas e das comunidades locais na proteção das florestas.

As discussões também reforçaram a necessidade de conectar a agenda florestal a outros temas estratégicos, como desenvolvimento econômico, comércio internacional, agricultura e financiamento climático, reconhecendo que a proteção das florestas depende de transformações mais amplas nos modelos de produção, consumo e investimento.

A expectativa é que o processo continue avançando nos próximos meses em diferentes espaços da agenda internacional, incluindo as Semanas do Clima de Londres e Nova York, além das COPs da Desertificação, na Mongólia, e da Biodiversidade, na Armênia, até a apresentação final do documento antes da COP31.

Combustíveis fósseis

A presidência da COP30 também deu continuidade às discussões sobre o roadmap para a transição dos combustíveis fósseis, iniciativa política também lançada em Belém com o objetivo de apoiar os países na implementação dos compromissos assumidos nas conferências climáticas e acelerar a redução da dependência de petróleo, gás e carvão.

Os dois processos são vistos como agendas complementares. Enquanto o roadmap florestal busca acelerar ações para combater o desmatamento e a degradação dos ecossistemas, o documento sobre fósseis procura identificar caminhos para reduzir a dependência global de fontes de energia poluentes.

A expectativa é que o tema também ganhe novos desdobramentos durante a Semana do Clima de Londres, quando Colômbia e Países Baixos deverão apresentar um relatório elaborado a partir das discussões realizadas na Conferência de Santa Marta sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis.

“Espírito de cooperação”

Durante a plenária final em Bonn, a Embaixadora Liliam Chagas, negociadora-chefe do Brasil e diretora do Departamento de Clima do MRE (Ministério das Relações Exteriores), reforçou que o principal desafio dos próximos meses será preservar o impulso político construído em Belém.

“É fundamental preservar a integridade do pacote político construído em Belém e garantir a implementação de todos os seus mandatos, iniciativas e compromissos. O desafio agora é transformar os consensos alcançados na COP30 em resultados concretos, mantendo vivo o espírito de cooperação e ambição que marcou as negociações”, afirmou.

Liliam Chagas também ressaltou a importância do multilateralismo climático e de “evitar que as discussões se concentrem apenas em questões processuais”, direcionando os esforços para temas capazes de gerar resultados concretos. A negociadora destacou ainda os avanços registrados em áreas consideradas estratégicas para a implementação climática, como transparência, comércio internacional e clima, pesquisa científica, igualdade de gênero, transição justa e financiamento climático.

Painel com recados sobre multilateralismo e implementação (Foto: Lara Murillo/UN Climate Change)

Entre os temas enfatizados por Chagas estiveram o Acelerador Global de Implementação, iniciativa voltada à execução dos compromissos climáticos já assumidos pelos países; a Missão 1,5°C, criada para mobilizar governos e atores não estatais em torno da meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C; e o roadmap Baku-Belém, esforço que busca mobilizar US$ 1,3 trilhão em financiamento climático para apoiar países em desenvolvimento na implementação de ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Redução de emissões

Outro tema que avançou em Bonn foi a implementação do Artigo 6 do Acordo de Paris, que estabelece mecanismos de cooperação internacional voltados à redução das emissões de gases de efeito estufa. Parte importante das negociações esteve concentrada na construção da infraestrutura institucional necessária para que os países consigam colocar esses instrumentos em prática de forma eficaz. Os debates abordaram desde regras operacionais até a necessidade de apoio financeiro e técnico para garantir a participação das diferentes nações nesses mecanismos.

De acordo com Marília Oliveira, pesquisadora do IPAM, as discussões evidenciaram que muitos países ainda enfrentam dificuldades para implementar os instrumentos previstos no acordo devido à falta de capacidade técnica, institucional e financeira.

“Houve um entendimento de que muitos países ainda precisam construir a infraestrutura necessária para implementar esses mecanismos. Por isso, as discussões avançaram na necessidade de garantir financiamento, cooperação internacional e apoio técnico para tornar essa implementação possível”, explicou Marília.

Os negociadores também discutiram formas de fortalecer as chamadas abordagens não mercadológicas previstas no Artigo 6.8, ampliando instrumentos de cooperação internacional que não dependem da comercialização de créditos de carbono.
Alianças internacionais e manejo integrado do fogo.

Alianças internacionais e manejo integrado do fogo

Bonn também serviu como espaço para o fortalecimento de novas alianças internacionais voltadas à ação climática. Em uma articulação considerada estratégica para ampliar a cooperação entre países do Sul Global, o IPAM assinou um memorando de entendimento com a PACJA (Pan-African Climate Justice Alliance), uma das maiores redes da sociedade civil dedicada à justiça climática no continente africano.

O acordo prevê intercâmbio de informações, desenvolvimento de pesquisas conjuntas, formação de pessoas e articulações com governos e setor privado, aproximando experiências desenvolvidas na Amazônia e em diferentes territórios africanos que enfrentam desafios semelhantes relacionados às mudanças climáticas, à conservação ambiental e ao desenvolvimento sustentável.

Outro destaque da programação paralela da conferência foi o debate sobre o manejo integrado do fogo como ferramenta de mitigação climática e redução de emissões. Em evento oficial da SB64, representantes de governos, agências da ONU, cientistas, povos indígenas e organizações da sociedade civil discutiram formas de ampliar a implementação de soluções voltadas à prevenção e ao manejo dos incêndios florestais.

A discussão deu continuidade ao Chamado à Ação pelo Manejo Integrado do Fogo e Resiliência a Incêndios Florestais, lançado pelo Brasil às vésperas da COP30 e atualmente apoiado por 67 países e quatro organizações internacionais. O foco esteve na ampliação da cooperação internacional, do financiamento e dos mecanismos de governança capazes de transformar experiências locais em políticas públicas de escala global.

Impasses e COP31

O avanço dos roteiros de florestas e fósseis ocorreu em meio a um cenário de obstáculos nas negociações formais da ONU. O último dia de conferência foi marcado por impasses em temas centrais da agenda climática, como o MWP (Programa de Trabalho de Mitigação), o GGA (Meta Global de Adaptação), bem como medidas de resposta aos efeitos das mudanças climáticas. As divergências levaram a sucessivos adiamentos das consultas informais e obrigaram os chefes das delegações a assumirem as negociações das questões pendentes. Ainda assim, nenhum acordo substantivo foi alcançado sobre esses temas até o encerramento oficial de Bonn.

A falta de consenso gerou manifestações de frustração entre governos, sociedade civil e observadores. Participantes criticaram a resistência de algumas delegações em incorporar de forma mais explícita as evidências científicas relacionadas à necessidade de manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 ºC, além da ausência de avanços considerados relevantes nas agendas de mitigação e adaptação.

Em comunicado divulgado após o encerramento da conferência, o secretário-executivo da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), Simon Stiell, reconheceu que, apesar dos avanços em algumas áreas, Bonn não conseguiu entregar resultados em mitigação e adaptação e criticou a postura de países que condicionam seus compromissos à ação prévia de outros, classificando essa dinâmica como uma “receita para a paralisia” das negociações.

“Vimos alguns desvios, atrasos e tensões geopolíticas atravessarem estas negociações. Não podemos permitir retrocessos nem reabrir compromissos já assumidos, porque isso é uma receita para a paralisia justamente quando precisamos que todas as frentes de negociação avancem em ritmo acelerado”, declarou Stiell.

COP31 ocorre em novembro, na Turquia (Foto: Lara Murillo/UN Climate Change)

Ao longo das negociações em Bonn, Austrália e Turquia, responsáveis pela presidência da próxima conferência, reiteraram que o encontro terá como foco a implementação dos compromissos climáticos já assumidos pelos países. Apesar disso, os dois governos encerraram a reunião sem apresentar prioridades políticas amplas ou iniciativas capazes de orientar de forma mais clara o processo negociador nos próximos meses.

A principal novidade anunciada foi uma meta voluntária de ampliar para 35% a participação da eletricidade na demanda global de energia – essa parcela hoje está em cerca de 20%. A proposta foi lançada no âmbito da Agenda de Ação da COP31.

Em Bonn, a COP31 também anunciou metas relacionadas à redução do crescimento da geração de resíduos, ao aumento da circularidade de materiais na indústria, à eficiência energética em edificações urbanas, à educação climática e à criação da chamada Climate Implementation Bridge, mecanismo desenvolvido em parceria com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) para facilitar o acesso a financiamento, capacitação e apoio técnico para implementação de ações climáticas.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

ODS 13ODS 7ODS 12

Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Saiba mais em brasil.un.org/pt-br/sdgs.

Veja também

See also