Semana do Clima reforça papel da Amazônia na agenda climática global

30 de junho de 2026 | Notícias

jun 30, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

Belém (PA) – A região amazônica deixou de ser apenas um tema que perpassa pelas negociações climáticas internacionais para se consolidar como peça essencial rumo à implementação da agenda global de clima. A avaliação é de André Guimarães, diretor-executivo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e enviado especial para a Sociedade Civil da COP30, que participou nesta segunda-feira (29) do painel Da Governança Global à Implementação Regional: Mapas do Caminho e o Papel da Amazônia durante as agendas do primeiro dia da II Semana do Clima da Amazônia.

Segundo Guimarães, o momento é de transformar os compromissos assumidos na COP30 em resultados concretos para a Amazônia. “A COP30 deslocou o debate para outro lugar. O debate saiu do grupo de negociadores e foi para os investidores, para as populações tradicionais, para os povos indígenas e para a sociedade em geral. Agora, a gente precisa manter essa energia e fazer com que ela resulte em implementação”, reforçou.

Confira aqui a programação do IPAM no evento.

Realizada meses após a COP de Belém, a II Semana do Clima da Amazônia integra um calendário de encontros voltados à implementação da agenda climática internacional. Mais do que preparar o terreno para futuras negociações, o evento busca acompanhar e monitorar a execução dos compromissos firmados na COP30 e manter mobilizados governos, sociedade civil, setor privado, pesquisadores, povos indígenas e comunidades tradicionais em torno das soluções para a Amazônia.

A programação também dá continuidade a um processo que vem sendo construído ao longo dos últimos meses em diferentes espaços de negociação e implementação.

Os debates de clima se intensificaram em 2026 durante a Conferência de Bonn, na Alemanha, consolidando os roteiros globais para frear o desmatamento e a degradação florestal até 2030 e o de transição para longe do uso de energias poluentes, e seguiram em Londres, onde governos, organizações da sociedade civil e representantes do setor financeiro aprofundaram a conversa sobre florestas, financiamento climático e cooperação internacional. Agora, esse diálogo retorna à Amazônia com foco na implementação das decisões e na aceleração de soluções para o território.

Na abertura do encontro, Lucimar Souza, diretora de Desenvolvimento Territorial do IPAM, destacou que a II Semana do Clima da Amazônia representa um dos principais legados deixados pela conferência realizada em Belém.

“A II Semana do Clima da Amazônia nasce justamente como um legado vivo da COP30. Nosso objetivo principal aqui durante estes cinco dias é monitorar a implementação das metas debatidas e garantir que os compromissos assumidos diante do mundo avancem para ações concretas no chão da floresta, das comunidades e das cidades da Amazônia”, reforçou.

De acordo com Lucimar, a expectativa é consolidar a capital paraense como um espaço permanente do diálogo climático e ampliar o protagonismo amazônico na construção das soluções para a crise do clima.

A diretora ressaltou o crescimento da iniciativa, que chega à segunda edição reunindo ao todo mais de 70 eventos autogestionados e dezenas de organizações parceiras, fortalecendo uma articulação multissetorial que busca ampliar, nos próximos anos, o alcance do debate para toda a Amazônia Legal e para outros países do Sul Global, conjunto que engloba nações em desenvolvimento ou emergentes, localizadas sobretudo na América Latina, África, Ásia e Oceania, que compartilham histórias de colonização e desafios socioeconômicos, além de buscarem maior representatividade na geopolítica internacional.

Agenda de Ação da COP30

A visão de implementação também foi central no painel Agenda de Ação e o Legado da COP30 para a Amazônia, que reuniu representantes da governança climática internacional e discutiu como transformar decisões diplomáticas em execução prática nos territórios.

Mauro O’de Almeida, gerente de projetos do Gabinete da Diretoria-Executiva da COP30, destacou que a Conferência do Clima em Belém marcou uma mudança de paradigma ao colocar a implementação no centro da estratégia climática global. Segundo ele, a chamada Agenda de Ação representa uma arquitetura permanente que conecta governos, setor privado, sistema financeiro, sociedade civil e comunidades em torno de seis eixos temáticos, incluindo florestas e biodiversidade, transição energética e agricultura sustentável.

“A presidência brasileira da COP30 colocou a implementação no centro da estratégia política. Em vez de compreender a conferência como um evento isolado de negociação, passou a enxergá-la como o início de um ciclo permanente de execução. Belém deixa de ser um lugar onde foram negociadas decisões e passa a ser lembrada como o momento em que a COP30 marcou o início da organização de uma verdadeira arquitetura de implementação da governança climática internacional”, enfatizou.

Para Mauro, esse novo modelo transforma a lógica das COPs, que passam a ser acompanhadas por processos contínuos de implementação, monitoramento e prestação de contas ao longo do ano. Nesse contexto, as Semanas do Clima deixam de ser eventos preparatórios e passam a funcionar como espaços de aceleração de soluções e mobilização de investimentos.

A avaliação converge com a apresentada por André Guimarães. Para o diretor, esse novo ciclo reforça o papel estratégico da Amazônia na execução dos compromissos globais. “Não existe como estabilizar o clima do planeta se a gente não resolver a equação amazônica”, reforçou.

O diretor lembra ainda que a COP30 deixou como um de seus principais resultados a construção de dois roadmaps: um voltado ao fim do desmatamento e da degradação florestal e outro dedicado à transição para longe dos combustíveis fósseis [tópico que ainda ganhou espaço único e amplo de debate durante a 1ª Conferência para a Transição para Além dos Combustíveis Fósseis, na Colômbia]. Enquanto este último ainda enfrenta desafios geopolíticos e tecnológicos, André avalia que o roteiro dedicado às florestas oferece uma oportunidade concreta para que a Amazônia lidere a implementação da agenda climática.

Conforme Guimarães, os avanços registrados na redução do desmatamento nos últimos anos demonstram que esse caminho já começou a ser construído. O desafio agora é consolidar políticas públicas e criar instrumentos econômicos que garantam a manutenção da floresta em pé e impeçam novos ciclos de destruição.

“Nós já entendemos quais são muitas das soluções. O IPAM vem testando alternativas com agricultores familiares, médios e grandes produtores, povos indígenas e comunidades tradicionais. Também estamos produzindo conhecimento sobre degradação florestal, fogo e destinação de florestas públicas. Agora, o desafio é transformar esse entendimento em ação prática. Precisamos de políticas públicas, financiamento e instrumentos econômicos capazes de manter a floresta viva”, disse.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

ODS 13

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