Lays Ushirobira *
A proteção da Amazônia é uma condição estratégica para garantir comida no prato de bilhões de pessoas ao redor do mundo, destaca o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) no segundo episódio da série “Living Library”, do Amazoniar.
De acordo com Olivia Zerbini, pesquisadora do IPAM, um terço dos alimentos do mundo é produzido nos trópicos — e a floresta amazônica desempenha um papel vital para manter esse sistema e a vida no planeta.
“A Amazônia, como a maior floresta tropical do mundo, é como um coração para o planeta: bombeia vapor d’água por todo o continente, irrigando lavouras, regulando temperaturas e sustentando economias dentro e fora da região amazônica. E se esse coração desacelerar, todo o sistema pode colapsar”, explica Zerbini.
Desmatamento põe em xeque a segurança alimentar global
O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. O Cerrado sozinho é responsável por 60% da produção agrícola do Brasil e por 22% das exportações globais de soja.
No entanto, parte significativa dessa produção agrícola do país vem avançando sobre áreas de vegetação nativa, especialmente nos biomas Amazônia e Cerrado. Segundo o MapBiomas, 16% da Amazônia e 48% do Cerrado foram convertidos em pastagens ou lavouras.
Estudos indicam que a conversão da vegetação nativa em pastagens e monoculturas no Cerrado já elevou a temperatura local em quase 1°C e reduziu o volume de chuvas em aproximadamente 10%. Essas mudanças afetam diretamente a produtividade: análises do IPAM apontam quedas de 6% na soja e 8% no milho. Na prática, trata-se de um aumento da insegurança climática e econômica para os próprios produtores.
“Projeções mostram que, até 2030, mais da metade das fazendas na fronteira entre Amazônia e Cerrado podem se tornar inviáveis. Até 2060, quase três em cada quatro podem deixar de produzir completamente”, alerta Zerbini.
Medidas para proteger a Amazônia e a segurança alimentar global
Proteger a Amazônia é um desafio complexo, mas possível. No novo episódio da série, o IPAM apresenta cinco caminhos para reduzir o desmatamento, fortalecer a resiliência dos sistemas de alimentos e responder às mudanças climáticas:
1. Fortalecer cooperação científica e ampliar investimentos em pesquisa
A ciência antecipa riscos e aponta soluções. Para transformar conhecimento em ação, é preciso incentivos à pesquisa e cooperação internacional.
2. Destinar florestas públicas
No Brasil, florestas públicas que ocupam uma área do tamanho da Espanha aguardam a destinação, ou seja, a definição de uma categoria fundiária para sua conservação ou uso sustentável. A destinação pode fortalecer direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais que cuidam dessas terras há gerações, além da gestão dessas florestas.
3. Proporcionar assistência técnica e apoio à agricultura familiar
Com assistência técnica, agricultores familiares podem aumentar a produtividade sem abrir novas áreas, transformando-se em aliados diretos da conservação.
4. Intensificar a produção agropecuária sem desmatamento
Com tecnologia, manejo adequado e recuperação do solo, é possível produzir mais onde já existem pastagens, sem derrubar mais árvores.
5. Compensar produtores que conservam além das exigências legais
Produtores que mantêm áreas de vegetação nativa acima do que determina a lei prestam um serviço ambiental para o planeta. Iniciativas como o Conserv demonstram que a compensação de produtores rurais pela conservação voluntária pode resultar em produção com floresta em pé.
Sobre o Amazoniar
O Amazoniar é uma iniciativa do IPAM para ampliar o diálogo global sobre a Amazônia. Desde 2021, a iniciativa promove discussões de temas complexos — desde os impactos das relações comerciais entre Brasil e Europa na floresta até o engajamento da juventude pela floresta e seus povos nas eleições — para democratizar informação e incentivar a participação de todos na proteção da maior floresta tropical do mundo.
Com a proposta de levar a Amazônia para além de suas fronteiras, o Amazoniar vem realizando projetos especiais, como um concurso de fotografia, cujas obras selecionadas foram expostas nas ruas de Glasgow, na Escócia, durante a COP26; uma série de curtas que compôs a exposição “Fruturos – Amazônia do Amanhã”, do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro; além de vídeo-entrevistas com representantes de comunidades tradicionais durante as negociações do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia; e o minidocumentário “O chamado do cacique” sobre o legado do cacique Raoni Metuktire.
* Communications Consultant at IPAM