
Foto: Arquivo Pessoal com expansão gerada por IA
Por Maria Garcia*
Nesta 69ª edição, a newsletter Um Grau e Meio conversa com Fernando Sampaio para destrinchar os principais pontos da sustentabilidade (ou não) do agronegócio brasileiro.
Fernando é engenheiro agrônomo, formado pela ESALQ/USP (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, da Universidade de São Paulo) e membro do Grupo Estratégico da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.
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Na entrevista, Sampaio retoma o histórico da agropecuária brasileira, identifica as lacunas para torná-la sustentável em médio e longo prazo e aborda as ações prioritárias para consolidar um modelo economicamente próspero, aliado ao equilíbrio climático.
Como o agronegócio brasileiro se tornou a potência que é hoje? O setor tem adotado práticas sustentáveis?
Até os anos 60, o Brasil era, na verdade, um grande importador de alimentos. O país importava quase tudo: arroz, farinha de trigo, carne, leite, entre outros produtos. Com a fundação da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], em 1973, e a partir do investimento em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias, o país desenvolveu técnicas de agropecuária tropical.
O ambiente tropical nunca foi muito bom para a agricultura. Grandes países produtores de alimentos como Ucrânia, Austrália, Canadá, Estados Unidos e Argentina são de clima temperado. Cultivar na zona tropical sempre foi mais complicado porque você tem mais pragas, doenças na lavoura e um regime de chuva mais imprevisível.
Demorou muito para começarmos a desenvolver essas tecnologias. O Brasil, aliás, foi o primeiro país tropical a conseguir fazer isso, seja pela pesquisa da Embrapa ou das universidades.
Evoluímos na produtividade e, principalmente, nas práticas que chamamos de baixo carbono ou regenerativa porque elas ajudam a conservar o solo, a exemplo do plantio direto. Quando se fala que o agro do Brasil é sustentável, isso significa que o modelo de agricultura permite que o Brasil e outros países tropicais aumentem a produção de alimentos, aliada à mitigação das mudanças climáticas, por meio de sistemas de produção que ajudam a reduzir emissões e a sequestrar carbono no solo.
A prática de plantio direto, a recuperação de pastagens, a ILPF (Integração Lavoura Pecuária Floresta), o uso de bioinsumos e inoculantes… Há uma série de práticas criadas que ajudam a agricultura a ser cada vez mais sustentável.
Por que, então, essas práticas não são executadas em larga escala? Quais são os desafios para consolidar esse modelo?
Muitas áreas no Brasil são ocupadas por pastagens de baixa produtividade. Uma parte dos pequenos produtores não consegue implementar as tecnologias regenerativas, seja por dificuldade de acessar investimentos ou por falta de assistência técnica.
O primeiro grande desafio é democratizar o acesso a essas práticas e tecnologias para acelerar essa transição e ter, cada vez mais, gente fazendo agricultura sustentável.
O segundo grande desafio é a dinâmica de ocupação do território. O Brasil também é um país com uma história recente de ocupação do território. Logo, muitas políticas diferentes incentivaram pessoas a migrarem para o Centro-Oeste e Norte, com regiões de fronteira agrícola na Amazônia e no Cerrado, onde novas áreas são desmatadas para serem ocupadas com agricultura.
O nosso trabalho na Coalizão, de forma geral, é pensar em conter o desmatamento por meio de políticas públicas. Não precisamos desmatar mais para produzir mais. Pensando nisso, como geramos valor para a floresta em pé? Quais são as políticas e os instrumentos financeiros de que precisamos para dar valor à floresta em pé?
Até que ponto programas e linhas de crédito ligados ao Plano Safra – a exemplo do Renovagro e ABC+ – estão integrados para contribuir com uma produção agrícola sem desmatamento ilegal?
O Plano Safra é um subsídio que possibilita à agricultura se financiar – governo e bancos barateiam o processo produtivo dos produtores rurais. Todos os países do mundo têm subsídios à agricultura – o investimento do Brasil, aliás, está abaixo da média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O dinheiro público também pode garantir um impacto positivo nessa agricultura.
Em relação às boas práticas contra o desmatamento, houve alguns avanços. Por exemplo, o Banco Central orienta agora que os bancos façam o controle da destinação de seus recursos caso eles sejam direcionados a atividades de desmatamento. É um avanço, por exemplo, pois os produtores que desmatam sem autorização não poderão mais receber empréstimos.
Como o agronegócio brasileiro dialogou, na COP30, com a comunidade internacional sobre sistemas agrícolas sustentáveis, mesmo com países de zonas temperadas?
Uma das grandes agendas do agro na COP30, em Belém, foi chamar a atenção para a agricultura como parte da solução para a crise climática.
O petróleo gera emissões de gases do efeito estufa, mas você consegue adotar uma transição energética com outras fontes de energia menos poluentes ou menos emissoras. Essa é a grande discussão da COP.
Agricultura, porém, não é algo a ser dispensado ou trocado, porque todo mundo ainda vai precisar comer. Logo, a produção agrícola não pode parar como a do petróleo.
O setor agropecuário quis levar para a COP a importância de olhar para a agricultura como parte dessa solução, a partir da adoção de uma agricultura sustentável que reduzirá impactos. A discussão é principalmente sobre inovação na tecnologia para melhorar a eficiência da agricultura e desvinculá-la do desmatamento.
Falando em desmatamento, o que falta para o modelo agrícola brasileiro depender menos da conversão de vegetação nativa?
Se observarmos friamente, o que temos de área já aberta hoje no Brasil, vasta, degradada e subutilizada, seria o suficiente para suprir toda a demanda atual e futura de pelo menos duas décadas. Não precisamos mais desmatar para produzir.
Nós conseguimos utilizar melhor a terra quando ela já está desmatada e todo mundo já sabe disso. Agora, por que o desmatamento continua acontecendo? Precisamos destrinchar as razões.
Uma grande parte desse desmatamento é ilegal e o Estado tem um papel central de controle e monitoramento. Ocorre principalmente em terras públicas não destinadas, principais alvos de grilagem por parecerem ser “terras de ninguém”. Existe, então, um trabalho necessário de regularização fundiária.
Já o desmatamento que ocorre em área privada existe porque, atualmente, vale mais a pena para o agricultor desmatar e produzir do que conservar. Para mudar isso, precisamos de outros mecanismos como mercado de carbono e PSA (Pagamentos de Serviços Ambientais).
Na sua visão, quais são as ações prioritárias para que a agricultura sustentável e regenerativa no Brasil seja predominante?
A prioridade é controlar a ilegalidade, que vai frear o desmatamento mais rápido. Acabando com o desmatamento ilegal e implementando o Código Florestal, ficamos muito próximos de um cenário de desmatamento zero. Já a terceira ação depois disso seria a criação de mecanismos de incentivo para o produtor manter a floresta em pé para além daquela exigida por lei.
O Código Florestal já está fazendo 15 anos. Foi judicializado no começo, teve dificuldade dos estados em funcionar, com secretarias encontrando dificuldades de acompanhar todas as análises de CAR (Cadastro Ambiental Rural). O fato de ser descentralizado nos estados atrasou muito a implementação do sistema, mas a automação tem acelerado o processo.
Porém, adequar-se ao Código Florestal tem um custo ao produtor. Apesar de gerar um benefício a todos, o produtor rural paga sozinho a conta. Para mudarmos a mentalidade e todo mundo querer cumprir, mesmo com as dificuldades institucionais, precisamos pensar em como podemos gerar valor financeiro à conservação.
*Analista de Comunicação do IPAM