*Por Nikole Cantoara
Recuperar uma área degradada pode parecer uma tarefa exclusivamente ambiental. Mas, no Vale do Juruá, no Acre, a tarefa passa também pela mesa das famílias, pela renda e pela decisão de não abrir novas áreas de floresta. Em vez de desmatar para continuar produzindo, agricultores familiares estão descobrindo que investir no solo pode ser mais produtivo.
Em entrevista à newsletter Um Grau e Meio, Aliedson Sampaio, coordenador de desenvolvimento territorial do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) explica como funciona a recuperação do solo com a valorização do conhecimento local e o fortalecimento da agricultura familiar.
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Sampaio é coordenador do projeto Recuperação Produtiva de Paisagens Resilientes no Estado do Acre, desenvolvida pelo IPAM com financiamento da União Europeia, o projeto apoia agricultores familiares a recuperarem suas áreas degradadas através da diversificação de plantios e apoio técnico.
O que motivou a criação do projeto?
O Vale do Juruá reúne características muito particulares. É uma região distante dos grandes centros, com dificuldades logísticas, mas que tem enorme potencial para a agricultura familiar. Encontramos produtores muito organizados, solos férteis e uma diversidade de produtos regionais com forte consumo local, especialmente a mandioca e seus derivados.
Ao mesmo tempo, observamos uma carência histórica de assistência técnica e índices preocupantes de desmatamento e queimadas. A combinação desses fatores mostrou que havia espaço para um projeto que unisse recuperação ambiental, aumento da produtividade e geração de renda.
Como funciona a recuperação produtiva das áreas degradadas?
A ideia central é mostrar que o produtor não precisa abrir novas áreas para produzir mais. Em vez disso, trabalhamos para recuperar áreas já degradadas, melhorando o solo e diversificando a produção. Isso inclui desde a correção da fertilidade do solo até a implantação de SAFs (Sistemas Agroflorestais), além da introdução de culturas que geram renda em diferentes períodos do ano. Assim, a propriedade deixa de depender exclusivamente de uma única atividade.
Grande parte das famílias vivia praticamente apenas da mandioca. É uma cultura importante, mas a renda costuma chegar apenas uma vez por ano, durante a colheita. Quando introduzimos outras culturas, como frutas, café, cacau ou melancia, por exemplo, o produtor passa a ter diferentes fontes de receita e isso aumenta a segurança econômica da família, reduzindo os riscos da atividade agrícola.
Além da renda, quais foram as principais mudanças observadas?
A maior transformação foi de mentalidade. Hoje muitos produtores entendem que recuperar uma área pode ser mais vantajoso do que abrir uma nova. Eles percebem que conseguem produzir perto de casa, gastando menos tempo e esforço, sem recorrer ao desmatamento e às queimadas. Essa mudança talvez seja o resultado mais importante do projeto, porque permanece mesmo depois que a assistência técnica termina.
Quando o produtor percebe que consegue recuperar uma área degradada e produzir mais nela, deixa de enxergar a abertura de novas áreas como única alternativa.
Isso gera uma série de efeitos positivos, diminui a pressão sobre a floresta, reduz queimadas, melhora a qualidade do solo e contribui para reduzir problemas associados à fumaça durante o período seco.
Existe algum exemplo que represente bem esses resultados?
Temos vários. Um deles é o produtor Edberto. Depois das análises de solo e das orientações técnicas, ele aumentou sua produtividade de mandioca de cerca de 80 para aproximadamente 110 sacas de farinha por hectare.
Outro caso é o de um agricultor que decidiu plantar melancia em uma pequena área da propriedade. Em cerca de três meses, a cultura gerou aproximadamente R$ 4 mil em receita, mostrando como a diversificação pode complementar a renda da família.
Em que momento vocês perceberam que o projeto estava dando certo?
Quando conquistamos a confiança dos produtores. A assistência técnica só funciona quando existe uma relação de confiança. À medida que eles começaram a ver os resultados na propriedade, maior produtividade, novas fontes de renda e melhoria na qualidade do solo, passaram a acreditar no projeto. Hoje somos recebidos como parceiros e essa confiança mostra que a transformação não acontece apenas na terra, mas também na forma como as pessoas enxergam o próprio futuro.
Quais desafios ainda precisam ser superados?
Creio que mostrar que o modelo funciona dentro da propriedade é apenas o primeiro passo. O grande desafio agora é ganhar escala. Para isso, é fundamental fortalecer políticas públicas, melhorar a infraestrutura, ampliar a assistência técnica, facilitar o acesso ao crédito e criar condições para agregar valor aos produtos da agricultura familiar.
Hoje muitos produtos ainda são comercializados de forma pouco estruturada. Existe um potencial enorme para fortalecer cadeias produtivas locais, mas isso depende de investimentos públicos e privados.
Que legado o projeto espera deixar na região?
Queremos demonstrar que produzir sem desmatar não é apenas uma possibilidade técnica, mas uma realidade. Também esperamos reforçar que políticas para a agricultura familiar precisam considerar as particularidades de cada território. Não existe uma solução única para toda a Amazônia.
É preciso conhecer as pessoas, compreender o contexto local e valorizar os conhecimentos construídos ao longo de gerações. Quando ciência e experiência dos produtores caminham juntas, os resultados aparecem.
Estagiária de Comunicação*




