“Geração de energia na Amazônia já foi concebida para levar eletricidade para outras regiões do país”

21 de setembro de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

set 21, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

A newsletter Um Grau e Meio entrevistou Vinícius Oliveira da Silva, doutor em Ciências pelo Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétricas da EPUSP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), gerente de projetos do IEMA (Instituto de Energia e Meio Ambiente) e pesquisador nas áreas de planejamento energético, Amazônia e energias renováveis.

Para o pesquisador, a geração e consumo de energia na Amazônia expõe a população aos impactos de hidrelétricas, empreendimentos pensados na necessidade do centro-sul brasileiro, enquanto a região amazônica ainda sofre com problemas de abastecimento e energias sujas.

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Como é o perfil de geração e consumo de energia na Amazônia Legal?

Quase 26%, de toda a energia elétrica disponibilizada no Brasil é produzida na Amazônia, m. Mas apenas 8% dessa energia permanece na região.

A Amazônia tem uma grande produção de energia elétrica, principalmente por hidrelétricas, mas que é voltada ao abastecimento das outras regiões do país. Assim, os Estados da Amazônia Legal ficam, em grande parte, com os impactos dessas hidrelétricas, mas não consomem essa energia.

Na Amazônia também existem regiões fora da infraestrutura de rede, os chamados Sistemas Isolados, que atendem cerca de 2,5 milhões de pessoas e que dependem da geração individual de energia elétrica. Geralmente, são sistemas baseados em fontes fósseis, principalmente diesel e gás natural.

Ou seja, a Amazônia tem uma grande geração de energia renovável, principalmente hidrelétrica. Embora essas usinas sejam uma fonte não fóssil, a geração hidrelétrica também provoca impactos nos reservatórios, no fluxo dos rios, nos peixes e causa alagamento de áreas.

Ao mesmo tempo, a região é muito dependente de fontes fósseis. Esses sistemas dependem da logística de transporte de combustível e da sua queima, o que gera emissões de gases de efeito estufa e metano.

Além disso, cerca de 1 milhão de pessoas na região amazônica não têm sequer serviço público de energia. Dependem de soluções individuais e comunitárias, muitas vezes baseadas em geradores a diesel ou gasolina. O custo é alto, tanto pela geração quanto pelo transporte do combustível até essas regiões.

Por que a energia gerada pelas hidrelétricas da Amazônia não é consumida na própria região?

A lógica já foi concebida para levar essa energia para outras partes do país. As usinas de Roraima, por exemplo, nem são consideradas parte do sistema Norte, mas parte do Sistema Sudeste/Centro-Oeste.

As grandes usinas construídas na Amazônia foram planejadas para atender principalmente outras regiões do país. Usinas como Santo Antônio, Jirau e Belo Monte estão conectadas por linhas de transmissão que levam a energia do Norte diretamente para o Centro-Sul.

A forma como o sistema energético brasileiro foi planejado e implantado fez com que grandes empreendimentos fossem instalados no Norte, enquanto os benefícios da energia são distribuídos para outras regiões. Para o Norte, ficam principalmente os impactos socioambientais da implantação desses sistemas.

As usinas de Roraima, por exemplo, nem são consideradas parte do sistema Norte. São consideradas parte do Sistema Sudeste/Centro-Oeste.

A lógica foi construir essas usinas para atender o mercado consumidor e a demanda de energia do Centro-Sul, e não prioritariamente a região Norte.

O mesmo ocorre com Tucuruí, uma das maiores usinas do Brasil, no Pará. Parte da energia atende o Norte, enquanto outra parte é direcionada ao sistema Centro-Sul.

Quais são as consequências desse modelo para a população da Amazônia Legal?

Muitas áreas da Amazônia Legal ficam com os impactos das hidrelétricas, como o desvio de rios, o alagamento de cidades e a formação de grandes reservatórios. Ao mesmo tempo, comunidades isoladas precisam utilizar termelétricas e geradores a diesel.

Essa é a realidade.

O sistema brasileiro está preparado para enfrentar secas cada vez mais frequentes?

Pouco. A crise de 2021 mostrou isso. Houve sucessivas secas, os níveis dos reservatórios ficaram muito baixos e foi necessário contratar, rapidamente, usinas térmicas para manter o sistema funcionando.

Com isso, vieram as bandeiras vermelha e vermelha 2, e o preço da energia aumentou. O consumidor passou a receber um sinal econômico para reduzir o consumo e evitar uma conta mais alta.

Isso é resultado da falta de adaptação às mudanças climáticas.

As mudanças climáticas alteram o volume de chuvas e a quantidade de água disponível nos reservatórios. O sistema brasileiro ainda é hidrotérmico e depende muito da geração termelétrica para operar e se estabilizar.

A energia eólica e a solar cresceram, mas são variáveis. Não há geração solar à noite e o vento também varia ao longo do dia.

Por isso, o sistema depende de fontes firmes, como hidrelétricas e termelétricas. Quando há pouca água nos reservatórios, aumenta a dependência das térmicas.

A energia térmica é mais cara e emite mais gases de efeito estufa. Isso cria uma retroalimentação: menos água leva a mais térmicas e, consequentemente, a mais emissões.

Quantos sistemas isolados existem hoje e onde eles estão?

O Brasil tem hoje 167 sistemas isolados. Apenas um está fora da Amazônia: Fernando de Noronha. Todos os outros estão na Amazônia Legal.

Vários estados têm mais de um sistema isolado. Geralmente, cada sistema atende um município, principalmente sua região central, distribuindo energia para escolas, casas, comércios e unidades produtivas.

Por que essas regiões ainda não foram integradas ao sistema nacional?

Várias foram. O Brasil já teve mais de 300 sistemas isolados. Muitos Estados eram eletricamente isolados do restante do país. A integração começou pela região central, Sudeste e Sul, avançou pelos Estados do Nordeste e chegou ao Norte.

Mato Grosso foi integrado, depois Rondônia e Pará. As últimas fronteiras foram Amapá, Roraima e Acre. O Amapá foi interligado, depois o Acre e, só no ano passado, Roraima.

Ainda existem vários municípios e regiões da Amazônia Legal fora do Sistema Interligado Nacional e há um planejamento para integrar parte dessas áreas, mas algumas nunca serão conectadas.

O principal motivo é o custo. Algumas regiões são tão distantes que a conexão exigiria linhas de transmissão atravessando unidades de conservação e territórios indígenas. Em alguns casos, é mais viável manter o sistema isolado e subsidiar sua operação.

E quais são as principais fontes de energia desses sistemas?

Mais de 90% dos sistemas usam diesel ou gás natural. O diesel é a principal fonte. Algumas regiões de Roraima e do Amazonas têm linhas de distribuição de gás natural que atendem unidades geradoras.

Poucos sistemas utilizam biomassa ou energia fotovoltaica com baterias. A maior parte ainda é movida a diesel.

O que pode ser feito nas regiões que nunca estarão integradas ao sistema nacional?

É preciso combinar diferentes soluções. Não existe uma única resposta. Uma alternativa é hibridizar os sistemas isolados.

Se uma região continuará isolada, é possível reduzir a dependência do diesel com outras tecnologias. Primeiro, é preciso avaliar se há área disponível para sua instalação. Podem ser utilizados painéis fotovoltaicos e baterias em conjunto com os geradores a diesel.

Durante o dia, a energia solar pode atender à demanda. As baterias podem armazenar o excedente para os períodos sem geração solar. Quando houver necessidade adicional de energia, entram os motores a diesel. A operação coordenada dessas fontes reduz o custo e o consumo de combustível fóssil.

Também é preciso melhorar a infraestrutura de distribuição para reduzir perdas e aumentar a eficiência energética. Isso inclui modernizar a iluminação pública e substituir equipamentos por modelos mais eficientes.

A combinação de fontes renováveis com sistemas térmicos e medidas de eficiência energética pode melhorar a qualidade do serviço público nas regiões que permanecerão isoladas.

Qual é o caminho para manter uma matriz elétrica limpa, estável e confiável diante das mudanças climáticas?

São vários caminhos, todos relacionados ao planejamento e à organização do setor elétrico.

As hidrelétricas têm grande capacidade operativa e são uma fonte estável, mas as mudanças climáticas afetam sua operação. É preciso incorporar outras soluções.

A expansão hidrelétrica está concentrada no Norte, onde ainda existem quedas e bacias com potencial de geração. Mas a implantação de hidrelétricas nessa região provoca impactos ambientais e territoriais, inclusive em áreas indígenas, quilombolas e unidades de conservação. Também altera o fluxo dos rios e pode provocar alagamentos.

Além disso, essas usinas estão cada vez mais distantes do Sistema Interligado Nacional e exigem grandes linhas de transmissão.

As termelétricas, por sua vez, têm o problema das emissões de gases de efeito estufa. Por isso, é necessário ampliar outras soluções.

A energia solar é uma alternativa importante e vem crescendo, mas também exige melhorias na infraestrutura de transmissão. Existem gargalos para escoar a energia produzida.

Também há períodos de grande geração solar em que não existe demanda suficiente e parte da energia é desperdiçada. Por isso, é necessário ampliar a capacidade de armazenamento para guardar a energia produzida por fontes eólica e solar e utilizá-la posteriormente.

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