Por Nikole Cantoara
“Tibá”, na língua do povo Pataxó, significa “cheio”, “abundante”, “rico”. A palavra não remete necessariamente ao sentido financeiro, mas à uma riqueza que vem da natureza: da maré que enche, de um lugar que tem o que oferecer a uma comunidade. É também o nome da aldeia onde Alice Pataxó vive, localizada em Prado, na região da Costa das Baleias, na Bahia
Antes de sua voz alcançar milhares de pessoas nas redes sociais para falar sobre direitos dos povos indígenas, cultura, meio ambiente e mudanças climáticas, para Alice houve um processo de pertencimento às suas origens. Ao retornar à comunidade indígena de sua mãe, começou a conhecer as histórias, os saberes e as dinâmicas da aldeia.
Na aldeia, precisou se adaptar à nova realidade. Ao frequentar a escola indígena, foi se aproximando da cultura de seu povo e das discussões da comunidade: um ambiente no qual as crianças também eram convidadas a participar, ouvir, questionar e expressar suas próprias opiniões. Nesse espaço de convivência, começou a perceber que sua voz também poderia fazer parte das decisões coletivas.
A experiência a ajudou a construir sua relação com a identidade Pataxó. Alice nunca teve vergonha de pertencer ao seu povo ou de usar seus adornos: as referências que encontrou dentro da própria família ajudaram a fortalecer, desde cedo, a ideia de que ser indígena não era algo a esconder, mas parte de quem ela é.
Foi nesse ambiente de participação, escuta e convivência que nasceu uma habilidade que, anos depois, ganharia outra dimensão: a comunicação.
Há cerca de sete anos, quando ingressou na faculdade de direito, Alice começou a publicar conteúdos na internet. Os primeiros textos surgiram no então Twitter, a partir das conversas que costumava ter com os amigos sobre política, especialmente temas relacionados à saúde e à educação. Eles passaram a se interessar por suas histórias e assuntos relacionados à sua realidade.
Aos poucos, percebeu que havia uma distância entre a experiência de sua comunidade e aquilo que as pessoas conhecem sobre os povos indígenas. Muitas apareciam com dúvidas, desconhecimento e estereótipos.
Foi então que Alice começou a ampliar os temas que abordava. Começou a compartilhar conteúdos sobre cultura, meio ambiente e, assim, a comunicação passou a ocupar um espaço cada vez maior em sua vida.
O que começou como uma extensão de conversas cotidianas se transformou em trabalho e, pouco a pouco, levou Alice a ocupar espaços que iam muito além das redes sociais. Aos 18 anos, ela já participava de debates e eventos ligados às pautas indígenas e ambientais. Em 2021 participou da COP 26 em Glasgow, na Escócia, e participou da COY16, conferência voltada à juventude realizada durante a Conferência de Clima da ONU. Na ocasião, falou sobre a realidade dos povos indígenas e a necessidade de ampliar a participação da juventude nas discussões sobre clima e meio ambiente.
No ano seguinte, seu trabalho ganhou projeção internacional: foi indicada por Malala Yousafzai, ativista paquistanesa, com uma das 100 mulheres mais inspiradoras e influentes de todo o mundo na lista da BBC. Ainda em 2022, recebeu o troféu Transforma MIAW, reconhecimento concedido pelo MTV MIAW.
Mais tarde, a escolha por cursar jornalismo surgiu como um meio de aprofundar a atividade que ela já exercia e compreender melhor os aspectos técnicos da comunicação, ao mesmo tempo em que desejava contribuir para a formação de outros comunicadores indígenas.
A escolha também se deu por uma questão que percebia desde cedo: a maneira como os povos indígenas são retratados. Para ela, persiste uma imagem de que os povos originários são um grupo único, com uma única cultura, com a mesma língua e costumes, e que deveriam permanecer inalterados ao longo do tempo.
Ao se comunicar, Alice busca retratar a realidade de seu povo e reforça que “as pessoas indígenas não deixam de ser indígenas por usar celular, vestir roupas contemporâneas, frequentar universidade ou produzir conteúdo para as redes sociais”. Para ela, ocupar o ambiente virtual e demais espaços da sociedade significa garantir que os povos indígenas estejam presentes onde decisões, debates e políticas são construídos.
Com o tempo, seu trabalho e reconhecimento a fizeram ultrapassar as “bolhas” nas quais estava inserida, alcançando outras comunidades indígenas e diferentes públicos. Com o alcance maior, também aumentou a atenção ao publicar conteúdos nas redes sociais, refletindo em suas escolhas e parcerias. Alice costuma recusar propostas comerciais quando considera os posicionamentos conflitantes aos princípios que defende, em especial a demarcação de terras indígenas, o combate ao desmatamento e o enfrentamento às mudanças climáticas.
Embora seja ela quem aparece diante das câmeras, o conteúdo que produz não se limita à sua experiência individual. As referências vêm da comunidade, da família e do território. Para isso, Alice destaca a necessidade de se comunicar com a própria comunidade. “Não posso falar de relações indígenas sem me comunicar com a própria comunidade”, reforça. Seu desejo é que mais comunidades indígenas revelem suas histórias e culturas, despertando o interesse dos não-indígenas pelos territórios e por sua conservação.
“Tibá”, a palavra do início do texto, não representa para Alice apenas o lugar onde parte de sua história começou, mas também o que ela carrega quando sai da aldeia e ocupa outros espaços: histórias, conhecimentos, referências familiares e comunitárias e uma identidade construída na convivência.
Antes de se comunicar para milhares, Alice aprendeu a ouvir dentro da comunidade. Antes de falar sobre identidade, aprendeu a reconhecê-la em si. E, antes de transformar o território em pauta, aprendeu a entendê-lo como parte de sua própria história.
Estagiária de Comunicação*
