Paulo Artaxo: “A Amazônia está perdendo carbono mesmo sem desmatamento”

7 de setembro de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

set 7, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

Por Mayara Subtil*

Há quatro décadas, quando as mudanças climáticas ainda estavam longe do centro do debate público, Paulo Artaxo começava a investigar uma relação que marcaria sua trajetória científica: a conexão entre a Amazônia e a atmosfera. Formado em Física pela USP (Universidade de São Paulo), mestre em Física Nuclear e doutor em Física Atmosférica, participou em 1985 de um dos primeiros experimentos com apoio da NASA na região, quando pouco se sabia sobre como as partículas emitidas pela floresta e pelos incêndios interferem no clima.

Presidente do Conselho Deliberativo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e professor titular do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo), Artaxo é referência nos estudos sobre as interações entre a floresta, a atmosfera e o clima. É membro do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) e integrou a equipe do painel reconhecida com o Prêmio Nobel da Paz de 2007.

A contribuição científica construída ao longo de décadas ajudou a ampliar a compreensão sobre o papel da Amazônia no sistema climático. Suas pesquisas revelam que a floresta não somente responde aos efeitos das mudanças no clima, como também participa de sua regulação, por meio de processos que conectam vegetação, atmosfera, formação de nuvens e chuva.

“A floresta amazônica, através da emissão de partículas que vão para a atmosfera, faz a própria chuva. Porque ela emite o vapor d’água que vai formar nuvens, condensando em partículas que ela mesma emite. Por isso, a biologia da floresta trabalha produzindo a precipitação sobre ela. Isso mostra um equilíbrio, uma harmonia entre o clima e o funcionamento biológico dos ecossistemas”, disse o cientista.

Os efeitos dessa relação já podem ser observados na floresta. Desde que começou a estudar a Amazônia, Artaxo acompanha mudanças nas condições que sustentam o ecossistemas, como temperatura, precipitação e radiação disponível para a fotossíntese.

“As mudanças que as partículas de aerossóis fazem nas nuvens mudam a precipitação. E isso faz com que o ecossistema todo, que depende de radiação, chuva e água, tenha se modificado profundamente ao longo dos últimos 40 ou 50 anos”, afirmou Artaxo.

O cenário tende a se agravar com o aumento da temperatura. Mantida a trajetória atual das emissões de gases poluentes para a atmosfera, Artaxo estima atualmente um aquecimento médio global de cerca de 2,8ºC. Nos continentes, porém, a elevação pode ser ainda maior.

“O aquecimento médio que nós vamos observar no Brasil e na Amazônia é alguma coisa da ordem de 4 graus Celsius”, destacou Artaxo.

Na Amazônia, esse aumento pode alterar desde o funcionamento da vegetação até a quantidade e a diversidade de peixes nos rios, com impactos sobre a alimentação e os modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Floresta em pé, mas degradada

O desmatamento é só uma das pressões sobre o bioma. Artaxo chama atenção à degradação das áreas que seguem de pé, entretanto perdem carbono e a capacidade de manter suas funções ecológicas. Entre as causas estão a alta da temperatura, a redução da regência das chuvas, o fogo, a abertura de estradas e a fragmentação da floresta. O calor também afeta diretamente a fotossíntese.

“As plantas estão fixando menos carbono e aumentando o processo de respiração, que emite CO₂ à atmosfera. Portanto, o que a gente observa é que a floresta está perdendo carbono mesmo sem desmatamento”, alertou.

Os incêndios acrescentam outro impacto: a piora da qualidade do ar. Durante a estação de incêndios, poluentes como material particulado, monóxido de carbono e ozônio atingem níveis elevados na região.

“Durante três ou quatro meses todos os anos, o ar da floresta amazônica, por causa da poluição, tem uma qualidade pior do que a recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde). E os níveis de poluentes têm valores mais altos do que a gente observa na poluída cidade de São Paulo”, exemplificou o físico.

Entre ciência e decisão

Ao longo da carreira, Artaxo passou a ocupar espaços voltados à aproximação entre produção científica e tomada de decisão. Além da participação no IPCC, coordena o CEAS (Centro de Estudos Amazônia Sustentável) da USP, iniciativa que reúne pesquisadores de diferentes áreas para produzir conhecimento e propor caminhos para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Para Artaxo, o conhecimento científico sobre as causas e consequências da crise climática avançou mais rápido do que as respostas para enfrentá-la.

“As decisões políticas são tomadas com base em interesses econômicos, não com base em interesses ambientais ou climáticos”, afirmou.

Entre as medidas consideradas urgentes pelo cientista estão reduzir o uso de combustíveis fósseis, avançar na transição energética, acabar com o desmatamento, recuperar áreas degradadas e investir em adaptação.

“A ciência aponta claramente que é fundamental que a gente acabe, o mais rápido possível, com a exploração ilimitada de combustíveis fósseis e implemente políticas de economia sustentável. Isso é fundamental para a Amazônia e, na verdade, para o futuro climático do planeta.”

Mas até onde a Amazônia resiste?

Uma das grandes perguntas ainda em aberto na ciência é justamente qual será a capacidade da Amazônia de resistir às mudanças previstas para as próximas décadas. Entre as preocupações está o tipping point, ou ponto de não retorno, em que o ecossistema pode sofrer transformações profundas.

“A ciência ainda não tem todas as respostas. Será que a floresta amazônica vai atingir um tipping point em 2050? E, a partir daí, nós vamos observar uma rápida transição para outro ecossistema, diferente de uma floresta tropical? A ciência está trabalhando duro para tentar responder essas questões”, reforçou.

Para Artaxo, a incerteza reforça a necessidade de agir antes que esses limites sejam alcançados.

“Quanto mais cedo acabarmos com a exploração e o uso de combustíveis fósseis, diminuindo o aquecimento global, e quanto mais cedo acabarmos com o processo predatório em todos os nossos ecossistemas, melhor vai ser a chance de sobrevivência de um ecossistema delicado e importante como o ecossistema amazônico”, concluiu.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

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