Por Mayara Subtil e Sara Leal*
Após quase um ano da COP30, a presidência brasileira entra na reta final de seu mandato com o desafio de transformar os compromissos climáticos em ações concretas. A preparação para a COP31, na Turquia, ocorre em meio às discussões sobre os mapas do caminho para o fim do desmatamento e a transição para longe dos combustíveis fósseis, além da ampliação do financiamento climático e implementação de medidas de adaptação.
A Um Grau e Meio da quinzena entrevista Ana Toni, diretora executiva da COP30, sobre os principais legados da conferência e as prioridades para a continuidade da agenda climática internacional.
Ana Toni destaca o que chama de “multilateralismo de duas velocidades”, com a aceleração da implementação por meio de coalizões de países e diferentes setores da sociedade. A CEO da cúpula de Belém também aborda os próximos passos dos mapas do caminho, a mobilização de US$ 1,3 trilhão anuais para o financiamento climático, o protagonismo dos povos indígenas e a necessidade de fazer com que os resultados das negociações sejam de fato percebidos na vida das pessoas.
Inscreva-se para receber a newsletter do IPAM de graça no seu e-mail.

Ana Toni, diretora executiva da COP30. Foto: Zô Guimarães/UN Climate Change
Passado quase um ano da COP30, e agora chegando à reta final da presidência brasileira, qual o principal legado concreto que a COP30 deixou para a implementação do Acordo de Paris? E o que ainda precisa sair do papel para que esse legado se consolide?
Acho que o primeiro e maior legado da COP30 é o que a gente está chamando de multilateralismo de duas velocidades. Na COP30, ficou claro que a gente tem que avançar muito mais. Não só na negociação, que vai continuar, mas vai continuar agora em banho-maria, devagarzinho. A gente tem que acelerar na ação.
E aí temos coalizões plurilaterais de países e coalizões multistakeholders que podem avançar mais rápido na implementação. Acho que isso ficou muito claro na nossa COP, mexeu toda a agenda de ação e a UNFCCC. Estamos começando a colher frutos, mas acho que haverá mudanças muito importantes daqui para frente por causa dessa divisão, ou dessa complementaridade.
O segundo grande tópico é o foco que a COP30 colocou em adaptação. Acho que não vamos mais ter nenhuma COP em que o tema seja discutido como o filho caçula ou como alguém que não é bem-vindo na sala. Ao contrário. Não só triplicamos o recurso, mas o debate sobre adaptação, até porque as consequências da mudança do clima estão cada vez mais óbvias, precisa amadurecer para outro nível.
E o terceiro, obviamente, é o debate sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis. Acho que na COP30 mostramos que esse é um debate fundamental, que não pode ser tabu. Temos que trabalhar nisso. Assumimos a responsabilidade de fazer o mapa do caminho, mas, mais do que isso, esse é um tema que está aí para ficar e que a gente tem que enfrentar de frente, e não fingir que ele não existe.
Obviamente, teriam outros legados, como a participação da população indígena, o novo grupo de trabalho de mulheres, entre outros. São todos importantes, mas escolhi esses porque acho que são mais sistêmicos. Eles vão mudar o sistema de maneira muito forte nas próximas COPs.
Sobre o mapa do caminho para deter e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030: faltando menos de quatro anos para esse horizonte, o que ele precisa entregar para de fato acelerar a implementação desse compromisso?
A gente está no meio de fazer o mapa do caminho. É importante lembrar que pegamos exatamente as palavras que estão no Balanço Global de Dubai. A gente não está criando uma nova meta. Estamos operacionalizando e falando o que precisa ser feito para atingir o que foi colocado ali.
Vamos anunciar o mapa do caminho no começo de novembro, mas já fica claro que tem como fazer e que muita coisa já está sendo feita. Essa é a primeira coisa: reconhecer que já tem muita coisa sendo feita. A gente já sabe quais são as políticas que precisam ser adotadas. Já tem legislação internacional que nos ampara.
Estamos avaliando por que não conseguimos avançar tanto em algumas áreas e como podemos dividir os problemas dos países. Nos dois mapas do caminho, pegamos um grande problema e estamos dividindo em problemas menores, mostrando que não existe uma bala de prata para resolver tudo.
Para trabalhar no combate ao desmatamento, há uma série de etapas. Você tem que ter base de dados, satélite, ordenação nacional, recursos na ponta, regulamentação. Tem que ter um menu de políticas públicas e privadas. Sem isso, você não faz. E estamos mostrando o que pode ser acelerado para atingir o objetivo.
A gente pegou esses dois grandes problemas sobre os quais já existe acordo em relação ao que precisa ser feito e dividiu em pequenos problemas, mostrando, para cada um deles, quais são as soluções que já existem, que precisam ser escaladas, quem precisa escalá-las e como podem ser escaladas. Então, é realmente um mapa do caminho no sentido de dar o caminho das pedras, de mostrar o que precisa ser feito. Se a gente acha que o problema é tão grande, não sabe qual é a solução e quem tem que fazer o quê, a gente paralisa.
Os mapas do caminho têm essa intenção de mostrar que não só é possível como é necessário, que existem soluções e que há muitos atores que podem agir: governos, por razões óbvias, governos subnacionais, setor privado, atores da área de comércio e consumidores. Com responsabilidades diferenciadas, obviamente, mas mostrando que esse é um esforço coletivo e que não existe uma bala de prata para resolver o problema.
No caso dos combustíveis fósseis, a discussão avançou também na Conferência de Santa Marta. Como Santa Marta acrescentou a esse processo e o que ainda precisa avançar até a COP31 para transformar todo esse debate em ações concretas para a transição?
O debate no Brasil, como eu falei, acho que é um dos legados. Foi trazido pelo próprio presidente Lula, no sentido de mostrar que a gente tem que enfrentar esse desafio e ser menos dependente dos combustíveis fósseis. Isso foi colocado. Não houve consenso, mas ficamos muito felizes que a presidência da COP30 falou: “vamos fazer o nosso”, e que Holanda e Colômbia disseram que fariam o evento de Santa Marta e fizeram.
Os debates que tivemos em Santa Marta e os debates que estamos tendo no nosso mapa do caminho são muito similares, no sentido de olhar para ações: o que precisa mudar na demanda por combustíveis fósseis nos diversos setores; na área de oferta: o que países e empresas que estão ofertando combustíveis fósseis precisam fazer; e, obviamente, olhando para a questão econômica: como a economia dos combustíveis fósseis pode e deve ser transformada para que os Estados fiquem menos dependentes do dinheiro dos combustíveis fósseis. Porque isso hoje é um grande problema.
Desde que assumimos que faríamos esses mapas do caminho, saíram mais de cinco novos relatórios, de diferentes instituições. Há muitos relatórios que chamam de mapas do caminho para longe dos combustíveis fósseis. É exatamente o que precisamos: diversos mapas do caminho para entender o que pode ser feito. Estou vendo muita convergência, e esse amadurecimento é absolutamente necessário para continuarmos debatendo não só agora, até a COP31, quando vamos lançar isso, mas na continuidade. Porque não vai ser do dia para a noite.
Também é preciso traduzir essas ações em músculo político. Uma coisa é você saber o que tem que ser feito. Outra coisa é ter apoio político, seja para o consenso, seja para que um grupo plurilateral de países aja nessa direção.
Não sei se vai haver consenso, mas certamente já existem grupos plurilaterais na agenda de ação que estão fazendo coisas. Por exemplo, sobre subsídios aos combustíveis fósseis: são 18 países trabalhando para diminuir esses subsídios. Só que 18 não ajuda, tem que ter 195. Então, de pouco em pouco, a gente chega lá.
O mapa do caminho de Baku a Belém prevê mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano para o financiamento climático. O que precisa acontecer agora para que essa cifra se transforme em recursos novos e acessíveis e para que a implementação de fato avance?
Primeiro, acho que tem uma coisa para celebrar, porque essa cifra de 1,3 trilhão, no acordo multilateral da COP30, tem um parágrafo específico que fala que todos os países vão fazer os esforços possíveis para atingir essa meta. É importante lembrar que saímos de Baku com 300 bilhões. E agora estamos numa meta de mobilização, que é um pouco diferente, de 1,3 trilhão.
Estamos fazendo um novo relatório de implementação dessa meta. Vamos entregar também no final do ano. Ele mostra de onde vem esse recurso, de onde pode vir e o que tem que ser feito para que esse recurso chegue.
Estamos olhando, por exemplo, para os bancos multilaterais; para o que o setor privado pode contribuir; e, logicamente, para o dinheiro concessional. Estamos olhando para as diversas possíveis fontes de recursos para mobilizar esse 1,3 trilhão, deixando claro quanto cada fonte pode contribuir e o que tem que acontecer para aumentar essa contribuição e chegarmos à meta. Por enquanto, todas as análises que temos feito mostram que essa meta de 1,3 trilhão é absolutamente viável.
Tem coisas para fazer, decisões políticas para serem tomadas e, logicamente, ela começa pelo recurso concessional dos países envolvidos. Mas há outras coisas que precisam ser feitas, seja pelo setor privado, seja dentro dos países, como plataformas de país ou mudanças regulatórias. Tem muita coisa acontecendo.
Acho que vai ficar cada vez mais claro como atingir essa meta. E esse seria o meu quarto legado, se você me perguntasse: o debate sobre financiamento climático. O quanto amadurecemos nesse debate. Agora estamos falando de fontes específicas, de atores financeiros específicos, e não mais generalizando em torno de um debate sobre 1,3 trilhão, que não quer dizer nada se você não entra no detalhe.
Belém também avançou na agenda de adaptação, como você mencionou. O que precisa acontecer agora para que esses avanços, incluindo o GGA, sejam percebidos na prática por quem está na ponta, especialmente pelas populações mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas?
O que tem que acontecer agora é a implementação das ações para adaptação. E isso não depende da COP31 ou de uma coisa internacional. Depende, primeiro, de cada país desenvolver seus NAPs. A gente lançou na COP30 a NAPs Implementation Alliance, que é uma coalizão de países e provedores de capacitação técnica para ajudar os países, primeiro, a fazer esses planos e, segundo, a implementá-los. Não adianta só colocar a meta se você não implementou o plano, porque isso tem que chegar na ponta.
E acho que os indicadores que foram aprovados ajudam muito a verificar se vai chegar na ponta, começar a medir como a gente sabe se chegou. Você só faz isso se tem indicadores. Temos os indicadores.
A própria COP30, por ter sido realizada na Amazônia, colocou o bioma no centro da diplomacia climática. Como fazer com que o protagonismo de indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhos e mulheres permaneça depois de Belém e se traduza efetivamente nas decisões diplomáticas das COPs?
Acho que os ganhos que tivemos na COP30, com a maior delegação indígena dentro e fora da Blue Zone, tendo aprovado demarcação de terras indígenas legalmente como ação climática e tendo fortalecido o círculo dos povos, tudo isso já mostra o protagonismo. No caso da população indígena, eles entendem isso e continuam sendo ativos. Acho que isso trouxe a participação para outro patamar.
Então, como vamos manter isso? Nunca mais voltar para o patamar em que estava. Agora é manter em cima e, daí, para cima. Acho que os indígenas têm feito um trabalho exemplar nas COPs. A cada edição conquistam mais direitos, ocupam mais espaço. Acho que todos nós temos que aprender com os indígenas. E eles sabem que podem contar com a delegação brasileira, certamente.
Daqui a cinco anos, qual seria uma evidência concreta de que o legado da COP30 de fato deu certo? O que deveria ter mudado não apenas nos indicadores globais de clima, mas na vida de uma pessoa que vive hoje na Amazônia? E qual seria o reflexo disso na prática?
A gente já está vivendo o reflexo da mudança do clima no dia a dia das nossas vidas, para o bem e para o mal.
Primeiro, para o mal, são os desastres climáticos, as ondas de calor, as enchentes, as secas. Já estamos vendo isso no nosso dia a dia, principalmente entre as populações mais vulneráveis.
Mas também temos, no lado positivo, alguns indícios do que chamamos de positive tipping points, de pontos de virada positivos. É, por exemplo, trazer para o nosso dia a dia comportamentos que levem ao combate à mudança do clima sem você ter que ser uma ativista climática.
Toda vez que alguém compra um carro elétrico ou híbrido, mesmo que não saiba nada sobre mudança do clima, ele ou ela já está fazendo uma ação que vai ajudar. Cada vez que a gente consome uma agricultura orgânica e sustentável, já está podendo ajudar no combate à mudança do clima.
Os sistemas de alerta e proteção devem ser naturalizados muito rapidamente e ganhar escala. Cada vez que alguém coloca um painel solar em casa etc. São ações que você faz por interesse econômico, social, e não só climático.
Então, espero que daqui a cinco anos esse tipo de ação que estou descrevendo esteja naturalizado: como você vota, o produto que consome, as atitudes que toma, o tipo de educação que dá para os seus filhos.
Que a gente olhe para trás e pense: “como eu demorei tanto tempo para ter essa atitude?”. É como o cinto de segurança: “como eu não usava cinto de segurança?”.
Quando conseguirmos naturalizar as ações climáticas no dia a dia das pessoas, seja não comprando determinados produtos, seja com atitudes, seja com o tipo de educação que damos para os nossos filhos, acho que vamos olhar para trás e falar: “essa é a parte da implementação de que eles falavam cinco anos atrás e que agora virou real na vida das pessoas”.
Se isso não virar real na vida das pessoas daqui a cinco anos, estamos perdidos. Mas espero que a gente tenha contribuído, colocando a ênfase na implementação, para que isso vire realidade não só na vida de quem acompanha o debate climático, mas na vida de quem não acompanha.
*Coordenadora de comunicação. sara.pereira@ipam.org.br
*Analista de comunicação. mayara.barbosa@ipam.org.br


