Por Nikole Cantoara*
Entre 2015 e 2016, o fogo tomou conta de 90% da terra indígena Governador, no Maranhão. As chamas consumiram parte da vegetação nativa e da biodiversidade que sustentam a vida no local. Para Talia Ribeiro (mais conhecida como Raru), a tragédia foi o início de uma jornada para proteger a terra onde vive.
Após o episódio, ela decidiu se tornar brigadista, encontrando no ofício uma maneira de proteger sua casa. Hoje, como chefe de uma equipe de 17 brigadistas, Talia une conhecimentos tradicionais e técnicas de prevenção aprendidas em formações.
Raru defende que as mulheres podem ocupar espaços de liderança no combate aos incêndios florestais mesmo diante das dificuldades de conciliar o trabalho com a maternidade e outras responsabilidades.
“Quis mostrar que nós, mulheres, também temos capacidade de ser brigadistas e chefes de brigada. Queremos combater o fogo e proteger o nosso território, porque ele é nosso, é a nossa casa e a nossa natureza”, afirma.
O trabalho da chefe de brigada envolve coordenação de atividades como rondas diárias, identificação de focos de calor e atendimento a chamados de caciques, lideranças e comunidades. A equipe responde à uma cadeia de comando que conecta os brigadistas em campo à chefia do PrevFogo, programa federal de prevenção e combate aos incêndios florestais.
Conhecimento ancestral no manejo do fogo
Para Talia, proteger o território também significa valorizar os saberes ancestrais. “Antes de conhecer o termo técnico da queima prescrita, os mais velhos já orientavam sobre os períodos adequados para queimar a vegetação, reduzir o material combustível e preservar a floração das frutas. As estratégias variam conforme a vegetação”, explica ela.
Na chapada, onde predomina a vegetação do bioma Cerrado, a prevenção começa mais cedo e considera espécies florestais como cajuí, pacuri, ingá e tucum rasteiro, utilizado na produção de artesanatos e cordas tradicionais. Já nas áreas de floresta, o combate ocorre quando necessário, especialmente nos períodos críticos.
Segundo Talia, a política de Fogo Zero, que antecedeu o Novo Código Florestal, contribuiu para o acúmulo de material combustível ao extinguir o uso do fogo, tornando os incêndios mais intensos e difíceis de combater. Após os grandes incêndios de 2015 e 2016, a brigada foi retomada em 2018 sob liderança indígena, fortalecendo o protagonismo da comunidade. “Queremos que o território produza, e não que seja reduzido”, reforça.
Desde 2021, Talia e outros moradores da terra indígena trabalham na restauração de nascentes, com coleta de sementes, produção de mudas e plantio de espécies tradicionais. A iniciativa inclui a plantação de SAFs (Sistema Agroflorestais). A equipe investe no diálogo com os moradores e na conscientização sobre a restauração florestal. “Somos nós que temos que fazer esse trabalho. Não são outras pessoas que precisam fazer por nós”, afirma, destacando a importância da autonomia da comunidade.
O esforço da chefe de brigada também encontra incentivo em seus filhos e netos, com o objetivo de que possam usufruir dos recursos do território no futuro. ”Cuidar da terra hoje é uma forma de preservar os modos de vida e os conhecimentos tradicionais das próximas gerações. Não pensamos somente no presente, mas também no futuro”, finaliza.
*Estagiária de Comunicação
