Brasil lidera fornecimento de cinco commodities agrícolas à China

14 de outubro de 2026 | Notícias

out 14, 2026 | Notícias

Por Mayara Subtil*

O Brasil foi, em 2025, o principal fornecedor da China de cinco commodities agrícolas. Em números, o país respondeu por 73% da soja, 59% do milho, 56% da carne bovina, 43% do frango e 42% do algodão importados pelos chineses. Os dados integram a nota técnica elaborada pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e pelo EEI (Evergreen Environmental Institute), da China, intitulada Relações comerciais China-Brasil: rumo a um novo caminho para a cooperação sustentável.

O documento analisa como as mudanças no comércio bilateral, os riscos climáticos e a governança da sustentabilidade estão moldando a relação entre os dois países na produção e no consumo de alimentos. O estudo aborda as dimensões ambientais do comércio de commodities e as oportunidades de cooperação em áreas como cadeias de abastecimento sustentáveis, rastreabilidade, inovação tecnológica, financiamento e produção de baixo carbono.

A análise aponta uma relação de crescente interdependência: ao mesmo tempo em que a China depende das commodities agrícolas brasileiras para seu abastecimento, a estabilidade dessas cadeias no longo prazo está ligada às condições ambientais e climáticas das regiões produtoras do Brasil, sobretudo na Amazônia e no Cerrado. Segundo o estudo, até 2030, mais da metade das fazendas localizadas na fronteira entre os dois biomas poderá enfrentar risco crescente de quebra de safra sob as condições climáticas atuais. Até 2060, esse percentual pode chegar a 74%.

Na soja, essa relação é ainda mais expressiva. A China importou o recorde de 111,8 milhões de toneladas em 2025, das quais cerca de 82 milhões foram fornecidas pelo Brasil. Esse nível de dependência, aponta a nota técnica, torna setores como os de ração e pecuária chineses mais sensíveis a choques climáticos e às condições de governança do uso da terra no Brasil.

“Brasil e China construíram uma relação comercial de enorme importância para os dois países, mas o desafio agora é garantir que ela seja resiliente em um cenário de mudanças climáticas. Proteger a Amazônia e o Cerrado e investir em uma agricultura de baixo carbono não significa produzir menos. Significa criar condições para que o Brasil continue produzindo e para que a China tenha segurança no abastecimento. Como duas das principais economias do Sul Global, temos a oportunidade de mostrar que produção de alimentos, desenvolvimento e conservação podem avançar juntos”, afirmou André Guimarães, diretor executivo do IPAM.

Em 2024, Brasil e China completaram 50 anos de relações diplomáticas e elevaram a parceria bilateral ao patamar de uma comunidade de futuro compartilhado por um mundo mais justo e um planeta mais sustentável. Além de parceiros comerciais, ambos países integram BRICS e G20, além de ocuparem posições de destaque entre as economias do Sul Global.

Conforme a nota técnica, essa posição abre espaço para que a relação avance da comercialização de commodities para uma agenda mais ampla de cooperação em segurança alimentar, adaptação climática, tecnologia e investimentos sustentáveis. Nesse cenário, a sustentabilidade deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a integrar a discussão sobre segurança alimentar, competitividade e estabilidade das cadeias de abastecimento. O estudo destaca também que critérios como rastreabilidade e desempenho ambiental vêm ganhando espaço no comércio agrícola e na gestão de riscos entre os dois países.

Rastreabilidade e produção sem desmatamento

Brasil e China já contam com ferramentas e iniciativas que podem apoiar essa transição. No lado brasileiro, sistemas como o CAR (Cadastro Ambiental Rural), SISBOV (Sistema de Identificação e Certificação Bovina e Bubalina) e PRODES (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite) permitem acompanhar o uso da terra, a produção pecuária e o desmatamento. Os dois países também iniciaram cooperação tecnológica para desenvolver sistemas de rastreabilidade transfronteiriços.

O principal obstáculo, segundo o estudo, já não é a ausência de ferramentas tecnológicas, mas a necessidade de ampliar a integração institucional, os incentivos econômicos e o reconhecimento mútuo dos sistemas de rastreabilidade. Entre as barreiras estão diferenças nos padrões e níveis de transparência dos dados, participação desigual do setor privado e fragmentação da governança.

Outro caminho apontado pela nota é aumentar a produção em áreas já abertas. O Brasil conta com pelo menos 28 milhões de hectares de pastagens degradadas com alto potencial para conversão agrícola. O aproveitamento dessas áreas poderia ampliar em aproximadamente 35% a área plantada com grãos no país, em comparação com a safra 2022/23, sem pressionar adicionalmente os ecossistemas nativos.

A experiência brasileira mostra que produção e conservação podem avançar de forma simultânea. Entre os anos 2000 e a década seguinte, o país dobrou sua produção de alimentos, enquanto reduziu em 83% o desmatamento na Amazônia. Para o estudo, recuperar áreas degradadas e aumentar a produtividade de terras já abertas pode ajudar a atender à demanda por alimentos sem reproduzir um modelo baseado na expansão sobre novas áreas de vegetação nativa.

A cooperação também pode avançar por meio de tecnologia e investimentos. A China está entre os maiores investidores mundiais em agricultura de precisão e maquinário digital, enquanto o Brasil acumulou experiência em monitoramento territorial e por satélite. Um exemplo dessa cooperação é o CBERS, programa espacial sino-brasileiro em funcionamento desde 1999.

Em 2025, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e o CEXIM (Banco de Exportação e Importação da China) criaram um fundo conjunto com meta de até US$ 1 bilhão, destinado a áreas como transição energética, infraestrutura verde, bioeconomia e agricultura no Brasil. Na agricultura, iniciativas envolvendo mecanização e digitalização da agricultura familiar e experiências de rastreabilidade também apontam possibilidades de integração entre tecnologia, financiamento e produção sustentável.

A nota conclui que a combinação de rastreabilidade, intensificação sustentável e financiamento para a agricultura de baixo carbono pode reduzir riscos de desmatamento, aumentar a resiliência climática e dar maior estabilidade às cadeias globais de abastecimento de alimentos.

A cooperação entre Brasil e China, de acordo com a nota, também pode assumir uma dimensão mais ampla: como duas das principais economias do Sul Global, os países têm condições de desenvolver conjuntamente mecanismos de sustentabilidade adaptados à realidade de países produtores e consumidores de alimentos. A experiência pode contribuir para um modelo de cooperação Sul-Sul no qual comércio, ciência, tecnologia, financiamento e conservação sejam tratados como partes de uma mesma estratégia para a segurança alimentar em um cenário de mudanças climáticas.

*Analista de comunicação. mayara.barbosa@ipam.org.br

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