Por Alice Pataxó*
A integração entre a criação de abelhas nativas sem ferrão (meliponicultura) e o manejo de açaizais nativos pode contribuir para a produção agroextrativista e ampliar a renda de comunidades ribeirinhas da Amazônia. Essa relação foi o foco do curso realizado em outubro, na comunidade Serraria Pequena, em Afuá (PA), apoiado pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
As abelhas nativas sem ferrão polinizam diversas espécies vegetais, incluindo os açaizeiros. A intensificação da polinização pode contribuir para aumentar a produção de frutos, com potencial de incremento de até 40%. Ainda, a meliponicultura gera produtos com alto valor agregado como a produção do chamado “mel de açaí”, própolis e cera.
Durante o curso, foram compartilhadas informações e resultados de pesquisas sobre as duas atividades, além da troca de conhecimentos entre agroextrativistas, técnicos, pesquisadores e moradores das comunidades. A programação incluiu teoria e atividades práticas, com a instalação de uma URT (Unidade de Referência Tecnológica) de manejo de açaizais com a meliponicultura.
Participaram da formação os produtores do projeto de Reposição Florestal da Resex (Reserva Extrativista) Cajari, no Amapá. A iniciativa é executada pelo IPAM no estado e participantes tiveram sua ida financiada pelo Grupo Energisa. “A junção das duas práticas [manejo de açaizal e meliponicultura] aumenta a produção de açaí e gera uma segunda renda com a produção e venda do mel. Com o intercâmbio, os produtores retornam para suas comunidades com inovações que podem ser implementadas nas suas áreas de trabalho”, comenta Anderson Firmino, pesquisador do IPAM no Amapá.
O curso buscou contribuir para a valorização da biodiversidade amazônica e para o fortalecimento das atividades agroextrativistas, além de abrir espaço para discutir os desafios impostos pelas mudanças climáticas e pelos processos de transformação da floresta de várzea, incentivando práticas que conciliam produção, conservação ambiental e valorização dos conhecimentos locais.
“Vejo com muita esperança o desenvolvimento das técnicas que aprendemos neste curso sobre as abelhas nativas em nossa área. Foi muito importante entender que a diversidade de árvores no plantio ajuda a produção a crescer”, afirmou Regivone Souza, produtora da comunidade Sororoca, da Resex Cajari, em Mazagão, no Amapá.
Açaização
O açaí é uma das principais produções não madeireiras da região amazônica, beneficiando-se da biodiversidade regional para a reprodução. No entanto, a atividade vem sendo impactada por um processo chamado ”açaização”, que consiste na predominância da monocultura nos açaizais e, por consequência, na perda de polinizadores, reduzindo a produção.
O processo está associado à intensificação da produção de açaí em áreas manejadas, o que causa erosão genética do solo e redução da diversidade de outras espécies vegetais, alterando a estrutura e a dinâmica desses ambientes. Portanto, o manejo nativo do açaí deve considerar não só a produção de frutos, mas a regeneração da floresta e a manutenção da biodiversidade que sustenta esse sistema produtivo.
Nesse contexto, a formação também promoveu reflexões sobre os riscos da “açaização” e seus possíveis impactos sobre as florestas de várzea, especialmente diante das mudanças climáticas. A proposta é discutir práticas de manejo que conciliam a produção de açaí com a conservação da diversidade vegetal e dos polinizadores.
O curso foi uma realização da EMBRAPA Amapá (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), e faz parte do Projeto Incógnitos, com apoio da ATAIC (Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas) e do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
*Estagiária de Comunicação do IPAM