Por Mayara Subtil*
O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e a CAU (China Agricultural University) assinaram nesta terça-feira (15), em Pequim, na China, um MOU (Memorando de Entendimento) para o desenvolvimento de pesquisas conjuntas, bem como ampliar o diálogo sobre sistemas alimentares sustentáveis. A parceria envolve temas como segurança alimentar, mudanças climáticas, desmatamento e uso da terra, agricultura inteligente e resiliente, além de comércio verde.
O acordo foi assinado por André Guimarães, diretor executivo do IPAM e enviado especial para a Sociedade Civil da COP30, e Shenggen Fan, professor da CAU e reitor da AGFEP (Academy of Global Food Economics and Policy), instituto de pesquisa em nível universitário apoiado pela CAU.
A cooperação terá como uma de suas bases o GALO (Global Assessment from Local Observations), projeto desenvolvido pelo IPAM e pelo Woodwell Climate Research Center para investigar a relação entre agricultura e conservação da vegetação nativa na Amazônia e no Cerrado. A iniciativa busca compreender como o clima e a conservação dos ecossistemas influenciam a estabilidade da produção agrícola e quais caminhos podem tornar a atividade mais resiliente diante dos efeitos extremos das mudanças climáticas.
“Para seguirmos alimentando uma população em expansão em um contexto de mudanças climáticas, é imperativo compreendermos que florestas e produção de alimentos não são dissociáveis. Essa cooperação científica busca, justamente, ainda mais evidências sobre os benefícios dos serviços ecossistêmicos da vegetação nativa para um clima estável e chuvas regulares, tão fundamentais para os sistemas alimentares”, reforçou Guimarães.

IPAM e CAU firmam parceria para desenvolvimento de pesquisas sobre agricultura sustentável. Foto: Acervo/IPAM.
“Estamos muito entusiasmados em firmar esse acordo com o IPAM. Brasil e China têm muito a compartilhar e aprender um com o outro nas áreas de alimentação, agricultura e meio ambiente. Estamos realmente ansiosos em trabalhar com o IPAM em pesquisa, produção de evidências para garantir que Brasil e China possam contribuir, tanto para os dois países quanto para o mundo, para uma oferta de alimentos mais confiável, sustentável e resiliente”, disse Shenggen Fan.
Lançado em 2023 durante a COP28, em Dubai, o GALO combina dados sobre clima, disponibilidade e qualidade da água, estoques de carbono e biodiversidade obtidos por sensoriamento remoto e observações de campo. A pesquisa inclui ainda uma análise econômica dos serviços prestados pela natureza à agricultura e dos efeitos das decisões de abertura de novas áreas sobre a viabilidade da produção no médio e longo prazo.
A proposta é identificar modelos agrícolas e estratégias de uso da terra e da água capazes de contribuir para a estabilidade climática na região formada pela Amazônia e pelo Cerrado. Entre os objetivos está compreender quais configurações de paisagem podem favorecer a disponibilidade de água, o armazenamento de carbono, a regulação do clima e a proteção da biodiversidade, em paralelo em que sustentam a produção agrícola.
O projeto também busca dimensionar os benefícios e os custos da transição da agricultura convencional para práticas regenerativas, que priorizam, entre outros aspectos, a recuperação e a manutenção da saúde do solo. A iniciativa tem duração prevista de cinco anos e recebeu investimento inicial de R$ 9,9 milhões da multinacional alemã Bayer.
Risco climático no campo
Uma das frentes desenvolvidas pelo GALO é o cálculo do risco climático de propriedades rurais na Amazônia e no Cerrado. A metodologia permite avaliar quanto a produtividade de uma propriedade foi afetada, no passado, por condições climáticas adversas, como períodos de seca, e projetar como esse risco pode se comportar no futuro.
A análise cruza informações de produtividade com dados climáticos para identificar os principais fatores que prejudicam a produção e quais formas de manejo podem reduzir esses efeitos. Os produtores também recebem projeções de produtividade baseadas nos modelos climáticos do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), permitindo incorporar o risco climático ao planejamento das próximas safras.
Mais de 70 produtores rurais de Mato Grosso e do Matopiba, região formada por áreas agrícolas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, já receberam análises de suas propriedades produzidas pelo projeto. A proposta é transformar os efeitos das mudanças climáticas sobre a agricultura em informações concretas que possam orientar decisões dentro das propriedades e a adoção de práticas mais sustentáveis e resilientes.
Resultados do GALO já apontam a relação entre conservação e produtividade agrícola. As pesquisas indicam que a restauração da vegetação nativa pode aumentar a produtividade e reduzir o risco de perdas nas lavouras. No caso da soja, áreas restauradas localmente podem contribuir para um aumento de até dez sacas, ou 600 quilos, por hectare.
A pesquisa parte do entendimento de que a vegetação nativa exerce funções importantes para a própria atividade agrícola, contribuindo para a regulação do clima, a disponibilidade de água, o armazenamento de carbono e a manutenção da biodiversidade. Com o avanço das mudanças climáticas e a maior ocorrência de eventos extremos, compreender essa relação ganha importância para a segurança alimentar e para a sustentabilidade da produção.
Cooperação Brasil-China
A parceria com a CAU amplia a cooperação científica entre Brasil e China em um setor estratégico para os dois países. A expectativa é que o intercâmbio entre pesquisadores contribua para a produção de conhecimento e para a construção de soluções relacionadas à segurança alimentar, ao uso sustentável da terra e à adaptação da agricultura às mudanças climáticas.
A assinatura ocorreu em meio à agenda do IPAM na China, que reúne universidades, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil para fortalecer a cooperação entre os dois países. Na segunda-feira (14), o Instituto participou, em Pequim, do China-Brazil CSOs Closed-door Dialogue on Environmental Conservation, encontro que discutiu prioridades de pesquisa, oportunidades de colaboração e caminhos para ampliar a agenda ambiental conjunta entre Brasil e China no período entre as COPs 30 e 33.
*Analista de comunicação. mayara.barbosa@ipam.org.br


