Por Mayara Subtil*
Em alguns ecossistemas, o fogo faz parte da dinâmica natural e contribui para a manutenção da biodiversidade. Também é usado há gerações por povos indígenas e comunidades tradicionais, tanto em práticas culturais quanto produtivas. Mas, em outras circunstâncias, pode ser um elemento de degradação: quando ocorre no lugar, no momento ou na intensidade inadequada, pode sair do controle, transformando-se em um incêndio florestal. Compreender essas diferenças está na base do MIF (Manejo Integrado do Fogo), abordagem que busca planejar a convivência com o fogo e diminuir seus impactos.
O tema esteve no centro do seminário “Política, Ciência e Territórios no Manejo Integrado do Fogo no Brasil”, realizado nesta quarta-feira (9), na sede do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), em Brasília.
Com realização do Instituto Ar, da startup brasileira umgrauemeio e do projeto Marajó Sem Fumaça, em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e o Integra Fogo, e apoio do Clean Air Fund, o encontro reuniu representantes do governo, pesquisadores, sociedade civil, brigadistas indígenas e ribeirinhos, além de comunidades, para discutir a implementação do MIF nos territórios, em um momento no qual os efeitos das mudanças climáticas aumentam o desafio de prevenir e controlar incêndios.
Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM, destacou que compreender as distintas funções do fogo é essencial para definir o método de manejo.
“Antes de falar dos impactos do fogo descontrolado, é importante entender que o fogo controlado não é ruim. Existem ecossistemas que dependem dele e onde sua presença, com determinada frequência, é importante para a manutenção do próprio sistema. Em outros, como a Amazônia, o fogo é naturalmente raro e pode causar impactos. O fogo também faz parte da vida humana, seja pelo uso cultural e espiritual, pelo manejo de caça, pela produção ou como ferramenta de manejo ecológico. O problema é quando ele sai do controle”, explicou Alencar.
Filipe Arruda, pesquisador do IPAM, reforçou que ampliar os investimentos em prevenção é fundamental também do ponto de vista econômico.
“Quanto custa uma hora de helicóptero ou de avião para combater um incêndio florestal? Se a gente conseguir evitar esses incêndios e investir mais em prevenção, o custo será muito mais baixo. Precisamos trabalhar mais na prevenção das queimadas e, consequentemente, teremos uma melhor qualidade do ar”, disse.
Todas essas questões orientam a PNMIF (Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo), instituída em 2024. Em vez de concentrar esforços apenas no combate aos incêndios, a política incorpora prevenção, preparação, monitoramento, uso planejado e preventivo do fogo e a participação de diferentes atores de cada território.
Entre os principais instrumentos da política estão os PMIFs (Planos de Manejo Integrado do Fogo), construídos a partir das características de cada território. O planejamento considera histórico e risco de incêndios, vegetação, clima, usos produtivos, capacidade de resposta, conhecimentos tradicionais e vulnerabilidades locais. A expectativa é de que todos os estados e municípios tenham seus planos até março de 2027.
Na prática, o MIF busca articular prevenção de incêndios com as atividades realizadas em cada território. A estratégia considera que o fogo é utilizado por comunidades e produtores rurais e, por isso, prevê o diálogo com esses grupos para definir quando, onde e de que forma seu uso pode ocorrer com menor risco. No Vale do Juruá, no Acre, experiências apoiadas pelo IPAM incluem alternativas como mecanização, sistemas agroflorestais e recuperação de pastagens para reduzir a necessidade de queimadas.
A abordagem também aposta na integração entre órgãos públicos, comunidades, produtores e pesquisadores, além do uso de dados para antecipar períodos e áreas de maior risco. A ideia é agir antes que os incêndios se agravem, combinando conhecimento local e científico com ações de prevenção, monitoramento e resposta. No cenário amazônico, onde secas mais intensas podem aumentar a propagação do fogo, essa antecipação é considerada fundamental para reduzir os danos à vegetação e às populações.
Brigadas voluntárias
As brigadas voluntárias têm ampliado a atuação para além do combate aos incêndios, com ações de prevenção, educação e organização comunitária. Na Resex Tapajós-Arapiuns, no Pará, as primeiras brigadas comunitárias foram formadas após grandes incêndios ocorridos em 2015 e 2016, inicialmente com foco na prevenção.
Já na comunidade de Anã, também na Resex Tapajós-Arapiuns, José Martins, da Brigada Combate Ativo, contou durante o seminário que a prevenção passou a fazer parte da rotina da comunidade.
“A gente não quer combater, a gente quer prevenir. Trabalhamos na prevenção dentro da escola, com as crianças, com os adultos e dentro da comunidade. Isso nos fortalece muito e dá resultado. A brigada não existe só para apagar fogo em setembro, outubro, novembro e dezembro: pode trabalhar durante todo o ano, ajudando a fortalecer a comunidade e o território”, reforçou o brigadista.

Seminário em Brasília reuniu diferentes saberes e experiências sobre o manejo do fogo no Brasil. Foto: Lucas Ramos/IPAM.
Em Ponta de Pedras, no Marajó, a brigada comunitária Guardiões da Chama, formada no âmbito do projeto Marajó Sem Fumaça, reúne pescadores, agricultores familiares, agroextrativistas e professores. Criada para atuar na prevenção, no monitoramento e na primeira resposta aos incêndios, a brigada combina conhecimento territorial, treinamento prático e alertas de um sistema de inteligência artificial enviados em tempo real aos celulares dos brigadistas.
“Depois da formação, mudou o modo como eu via o fogo. Antes, eu achava que quem queimava era criminoso e precisava ser punido. Hoje eu entendo que precisamos educar, conversar e esclarecer sobre o uso do fogo. Punição não resolve; o que pode mudar a realidade é educação ambiental, manejo integrado do fogo e consciência dentro do município”, reforçou Cosmerina D’Ávila, brigadista comunitária.
Em Brasília, Carolina Dantas, do Instituto Capivara, chamou atenção para outro desafio enfrentado pelas brigadas: o custo do próprio voluntariado. De acordo com ela, além de dedicar tempo e assumir os riscos da atividade, muitos brigadistas arcam com despesas com transporte, combustível, alimentação e equipamentos.
“Quando tudo que você precisa para fazer aquele trabalho sai do seu próprio bolso, do seu esforço, você está investindo naquele território”, afirmou a brigadista.
Atualmente, o Instituto Capivara apoia uma rede de seis brigadas e mantém outras três aguardando formação. O trabalho combina manejo integrado do fogo, educação ambiental e cultura, com prioridade para a capacitação e a segurança dos voluntários antes da atuação direta em incêndios.
Lançamento Rede Ar
O seminário também foi palco do lançamento da Rede Ar, projeto conduzido pelo IPAM para tornar públicos, em tempo real, dados relacionados à qualidade do ar, especialmente na Amazônia Legal. A proposta é reduzir uma das principais limitações existentes hoje: a baixa abrangência do monitoramento, em especial onde vivem povos e comunidades tradicionais. Com a iniciativa, moradores, cientistas e autoridades poderão acompanhar a ocorrência de poluentes na atmosfera, incluindo os provenientes da fumaça gerada por incêndios florestais.
Entre os recursos utilizados pela Rede está um sensor desenvolvido pelo próprio IPAM em colaboração com pesquisadores da UFPA (Universidade Federal do Pará). O equipamento foi projetado para funcionar em ambientes de clima tropical e apresenta como diferenciais um menor custo e mais resistência às condições locais. Com isso, a tecnologia pode contribuir para levar o monitoramento da qualidade do ar a regiões que atualmente contam com pouca ou nenhuma estrutura de medição.

Mapa interativo da plataforma Rede Ar.
A Rede Ar reúne informações obtidas por 91 sensores distribuídos em 13 Estados e disponibiliza esses dados por meio de uma plataforma do IPAM. Entre os principais indicadores acompanhados está a concentração de material particulado na atmosfera, cuja presença está relacionada às queimadas. O acesso a essas informações em tempo real poderá contribuir para a elaboração e o aprimoramento de medidas nas áreas de saúde e meio ambiente, além de funcionar como instrumento de alerta para a sociedade e para os responsáveis pela tomada de decisões.
A expansão da rede é baseada no uso de sensores produzidos com tecnologia nacional, de custo reduzido, manutenção simplificada e desenvolvimento voltado às características da região amazônica. Os equipamentos permitem aumentar não apenas o número de locais monitorados, mas também a variedade de informações coletadas, como temperatura, pressão, umidade e concentração de partículas no ar. A plataforma não se restringe aos centros urbanos: também disponibiliza atualizações regulares de áreas rurais, unidades de conservação e escolas.
*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

