Por Mayara Subtil*
Cruzeiro do Sul (AC) – A dinâmica de uso do fogo está mudando de lugar no Acre. Antes mais concentrados no leste do Estado, incêndios começam a avançar sobre o Vale do Juruá e a atingir florestas que historicamente convivem pouco com esse tipo de impacto. Em paralelo, municípios da região já acumulam experiências de prevenção, combate e alternativas produtivas ao uso do fogo.
Aproximar essas frentes e transformá-las em planejamento integrado foi o ponto de partida de uma oficina realizada em Cruzeiro do Sul (AC), na última semana, por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) a gestores públicos, pesquisadores e instituições atuantes no território.
O encontro abriu um diálogo sobre como o Vale do Juruá pode avançar na implementação da PNMIF (Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo). Instituída em 2024, propõe uma mudança de abordagem: em vez de concentrar esforços apenas no combate aos incêndios, incorpora prevenção, preparação, monitoramento, uso planejado e preventivo do fogo, bem como a participação de distintos atores da região.
“Tudo isso precisa ter um olhar para quais políticas públicas podem apoiar uma mudança adaptativa ao uso do fogo. É preciso entender onde estão os maiores riscos e vulnerabilidades, quais são as responsabilidades e quais metas queremos atingir para reduzir os incêndios florestais e seus impactos na região”, explicou Jarlene Gomes, pesquisadora do IPAM.

Jarlene Gomes apresenta a PNMIF (Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo). Foto: Leonildo Ribeiro/IPAM.
Essa mudança é importante sobretudo no Juruá. Segundo Sonaira Silva, professora da UFAC (Universidade Federal do Acre) e parceira do IPAM, o padrão espacial do fogo vem se alterando no estado. Ou seja, áreas que antes registravam menos incêndios passaram a conviver com a entrada do fogo na floresta, inclusive em formações particularmente sensíveis.
“Aqui em Cruzeiro, na região do Juruá, a quantidade de incêndios é preocupante para uma região que não queimava e onde o fogo não entrava na floresta. Isso traz uma preocupação muito grande porque temos florestas muito frágeis aqui”, afirmou Sonaira Silva.
Em 2024, por exemplo, Cruzeiro do Sul se destacou pela quantidade de floresta atingida pelo avanço das labaredas. Levantamentos de campo apresentados durante a oficina também apontaram alta mortalidade de árvores afetadas por incêndios, reforçando a preocupação com ecossistemas que, por serem mais úmidos, não estão adaptados à ocorrência frequente do fogo.
A recorrência dos incêndios amplia ainda mais a vulnerabilidade das florestas. Dados apresentados por Ana Carolina Pessôa, pesquisadora do IPAM, mostram que 68% da área queimada na Amazônia entre 1985 e 2024 foi atingida pelo fogo mais de uma vez. Em 52% das áreas com recorrência, as chamas retornaram em um intervalo de até quatro anos, período insuficiente para que a floresta se recupere dos impactos de um incêndio.

Oficina de Manejo Integrado do Fogo no Acre. Foto: Mayara Subtil/IPAM.
A situação em 2024 foi especialmente crítica: pela primeira vez na série histórica, as formações naturais queimaram mais do que as pastagens na Amazônia. Já em 2025, a área queimada no bioma caiu 80%, para 3,1 milhões de hectares, o menor patamar registrado em 41 anos. No Brasil, foram 12,7 milhões de hectares atingidos pelo fogo, redução de 58% em relação ao ano anterior, segundo dados da 5ª Coleção do MapBiomas Fogo, sob coordenação de pesquisadores do IPAM.
A necessidade de antecipar o planejamento ganha ainda mais fôlego diante do El Niño. O fenômeno tende a reduzir as chuvas e elevar as temperaturas na Amazônia, deixando a vegetação mais seca e aumentando as condições favoráveis à ocorrência de incêndios. O cenário reforça a importância de agir sobre fatores que podem ser manejados, como as fontes de ignição, e preparar os territórios antes dos períodos mais críticos.
“As condições ambientais estão mudando em direção a favorecer a ocorrência de incêndios florestais. O material combustível está maior e mais inflamável. O que a gente pode, de certa maneira, controlar ou trabalhar são as fontes de ignição. E isso entra em política pública”, destacou Ana Carolina.
Um território que exige planejamento
Prevenir incêndios no Juruá também envolve desafios próprios do território. O 4º Batalhão de Ensino, Proteção e Combate a Incêndios Florestais e Urbanos do Corpo de Bombeiros atua em uma área de quase 32 mil km², atendendo Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, além de apoiar municípios do Amazonas. A região combina grandes distâncias, extensa malha hidrográfica, comunidades de difícil acesso, além de deslocamentos terrestres e fluviais.
Na oficina, os Bombeiros apresentaram a estrutura disponível no Vale do Juruá e as ações de prevenção e combate realizadas na região. A experiência ajuda a dimensionar um dos pontos centrais debatidos no encontro: responder ao incêndio continua sendo indispensável, mas reduzir os danos depende cada vez mais de agir antes que o fogo saia do controle.
É justamente nessa etapa que a PNMIF amplia as possibilidades de atuação dos municípios. Um de seus principais instrumentos é o PMIF (Plano de Manejo Integrado do Fogo), construído de forma participativa a partir das características de cada território. O planejamento considera desde o histórico e o risco de incêndios até a vegetação, clima, usos produtivos, capacidade de resposta, conhecimentos tradicionais e vulnerabilidades locais. A elaboração envolve diferentes áreas do poder público e da sociedade.
Prevenção também passa pela produção
Outro eixo apresentado na oficina foi a relação entre fogo e produção rural. Em muitas propriedades familiares, a queima ainda faz parte do preparo de áreas agrícolas. Reduzir seu uso, portanto, depende também de criar alternativas que permitam ao produtor seguir produzindo.
Em Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima e Rodrigues Alves, o IPAM desenvolve ações de recuperação produtiva que incluem mecanização, implantação de sistemas agroflorestais, recuperação de pastagens, produção de mudas e assistência técnica. A iniciativa faz parte de uma questão recorrente entre agricultores: se não queimar, como então preparar a área e manter a produção?
“O produtor rural não vai parar de queimar se ele não tiver uma solução. Ele precisa alimentar a família. O nosso trabalho é justamente levar alternativas para que ele consiga produzir sem precisar abrir e queimar novas áreas”, reforçou Leonildo Ribeiro, analista de pesquisa do IPAM.
As ações já colocaram 200 hectares em processo de recuperação em unidades familiares, com 26 famílias trabalhando com sistemas agroflorestais e 16 com recuperação de pastagens. Também foram implantadas 70 estruturas de viveiros, responsáveis pela produção de cerca de 57 mil mudas.
Em algumas propriedades, a recuperação de pastagens degradadas evitou a derrubada de novas áreas que seriam queimadas. A experiência reforça que as políticas do fogo e agrícola precisam caminhar juntas para que a prevenção seja viável para quem depende da terra para produzir.
Da experiência local à política pública
De um lado, a ciência mostra mudanças na dinâmica do fogo e identifica áreas mais vulneráveis. De outro, Bombeiros, Defesa Civil e governos locais acumulam experiências na prevenção e resposta aos incêndios. No campo, iniciativas de produção sustentável mostram alternativas para reduzir a dependência da queima. O desafio é conectar essas experiências em uma estratégia permanente de gestão do território.
A PNMIF prevê que esse planejamento seja construído de forma integrada, com definição de responsabilidades, áreas prioritárias, ações de prevenção, estrutura disponível, estratégias de monitoramento e resposta e participação social. O PMIF pode ter horizonte de dois a quatro anos e ser complementado por planos operativos voltados aos períodos mais críticos de incêndios.

Diálogo ocorreu na UFAC, em Cruzeiro do Sul. Foto: Mayara Subtil/IPAM.
O IPAM trabalha para facilitar o acesso dos municípios aos dados necessários para esses diagnósticos, reunindo informações sobre cobertura e uso da terra, histórico do fogo, clima e risco potencial de incêndios que possam ser recortadas para cada território.
O encontro em Cruzeiro do Sul foi apresentado como uma primeira etapa desta articulação. A proposta é realizar novos momentos de diálogo para detalhar desafios e oportunidades dos municípios, assim como avaliar caminhos para apoiar a elaboração dos planos municipais de manejo integrado do fogo.
*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br


