Por Lucas Guaraldo
Os impactos dos materiais particulados presentes na fumaça liberada por queimadas e incêndios florestais devem ser tratados como um risco crescente para a saúde pública, segundo especialistas que participaram do seminário “Política, ciência e territórios no Manejo Integrado do Fogo no Brasil”. O evento marca o Dia Internacional do Ar Limpo e destaca pesquisas sobre gestão e impactos do fogo, monitoramento da qualidade do ar e os efeitos da poluição sobre a vida da população amazônica. Efeitos nocivos das partículas são sentidos sobretudo por crianças, idosos e povos e comunidades tradicionais da Amazônia.
“Bebemos cerca de 2 litros de água por dia, mas respiramos mais de 10 mil litros de ar. Por isso é tão importante termos dados sobre o que respiramos. Em épocas de queimadas, comunidades indígenas são expostas a um ar muito pior do que nas principais cidades e avenidas do país. Essa exposição vai desde momentos agudos, com dias de ar muito ruim, até uma exposição contínua, com meses seguidos de ar impróprio para a saúde”, destacou Filipe Arruda, pesquisador do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
Em 2024, queimadas recordes fizeram com que grandes porções da Amazônia fossem cobertas por partículas nocivas à saúde por até 138 dias, de acordo com estudo do IPAM.
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a exposição ao PM2,5, principal material particulado fino associado às queimadas, está relacionada a 4,2 milhões de mortes por ano no mundo, além de doenças cardiovasculares e câncer de pulmão. Ao serem inaladas, essas partículas podem atravessar as paredes dos pulmões, entrar na corrente sanguínea e afetar todos os sistemas do corpo humano.
“A fumaça não respeita fronteiras e pode afetar territórios a centenas de quilômetros de distância. Quando vemos um incêndio florestal, é natural que a primeira preocupação seja o controle do fogo, mas, na saúde, existe uma dimensão de exposição da população que se perpetua mesmo quando o fogo é extinto”, pontua Fábio David Reis, coordenador de Vigilância de Determinantes Ambientais em Saúde.
Dessa forma, segundo Fábio, a atuação da vigilância em saúde nas políticas de fogo é essencial para compreender o impacto real das queimadas, além de permitir a implementação de práticas que levem em conta populações sensíveis e os riscos da exposição contínua à fumaça.
“Precisamos entender quem está potencialmente exposto, quais partículas estão no ar e até quando essa contaminação pode durar. O desafio é fazer essas informações dialogarem”, completa.
O evento foi realizado pelo Instituto Ar, pela startup brasileira umgrauemeio e pelo projeto Marajó Sem Fumaça, com parceria do IPAM, IBAMA/Prev Fogo e do Integra Fogo. A iniciativa também conta com apoio do Clean Air Fund.
Saúde de povos e comunidades tradicionais
Durante períodos de queimadas intensas, como os registrados na Amazônia em 2024, áreas conservadas costumam registrar índices de poluição atmosférica elevados. De acordo com dados produzidos pelo IPAM e divulgados na newsletter Um Grau e Meio, em 2024, três terras indígenas de Rondônia tiveram um ar até cinco vezes mais nocivo do que o registrado na área mais poluída do centro de São Paulo.
“Temos essa ideia de que as pessoas que estão em áreas conservadas têm ar puro, mas muitas vezes não é verdade, porque elas têm sofrido cada vez mais com a fumaça de incêndios florestais que passam despercebidos nas áreas urbanas”, explica Mariana Senra, assistente técnica do PrevFogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais).
Para Thaianne Resende, diretora do Departamento de Qualidade do Ar do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, uma abordagem multissetorial sobre o fogo é essencial para medir adequadamente seus impactos em áreas fora dos centros urbanos e proteger a saúde dos povos e comunidades tradicionais.

Fumaça cobriu Manaus por semanas seguidas após seca histórica e recorde de queimadas registrados em 2023.
“Cuidar das pessoas é cuidar da qualidade do ar, do clima e dos ambientes. A discussão sobre o fogo não pode estar limitada ao combate. Precisamos compreender melhor os efeitos da exposição à fumaça para entender quais áreas são críticas e como podemos lidar melhor com essa ameaça oculta”, comenta.
O evento destacou iniciativas comunitárias de monitoramento de queimadas e da qualidade do ar, como o Observatório do Marajó e o projeto Marajó Sem Fumaça.
Criado em 2023, o Observatório é uma ferramenta de monitoramento cidadão de calamidades climáticas na região. O modelo reúne indicadores próprios e mobiliza lideranças locais para a coleta de informações sobre a seca e o fogo durante os períodos de inverno e verão amazônico nos 17 municípios do Marajó, no Pará.
“Buscamos sensibilizar o poder público por meio desses dados. Percebemos que os municípios da região não estão preparados nem estão agindo adequadamente para a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas. Cada vez mais pessoas têm relatado problemas de saúde, como tosse, pressão baixa e dificuldade para respirar”, alerta Bianca Barbosa, gestora de projetos do Observatório do Marajó.
Já o projeto Marajó Sem Fumaça combina uma brigada comunitária e tecnologia de inteligência artificial para detectar precocemente incêndios em Ponta de Pedras, município do Arquipélago do Marajó.
“Implementamos um modelo que é capaz de reduzir o tempo de resposta e, consequentemente, as emissões e os impactos à saúde. Os alertas chegam em tempo real aos celulares dos brigadistas, que podem agir antes que o fogo se espalhe.”, afirma Patrícia Ferrini, coordenadora do projeto Marajó Sem Fumaça.
Rede Ar
Além de debates, o seminário marcou o lançamento da Rede Ar, plataforma desenvolvida pelo IPAM que reúne dados de 91 sensores de qualidade do ar instalados em 13 Estados. O projeto fornecerá dados em tempo real sobre a concentração de material particulado na atmosfera, emitido principalmente por queimadas. As informações poderão apoiar políticas públicas de saúde e meio ambiente, além de servir como alerta para a população e os tomadores de decisão.
“O fogo tem consequências diretas para a saúde, para a economia e para a qualidade de vida, mas ainda é difícil fazer esse monitoramento em tempo real. Essas consequências, no entanto, são sentidas de forma desproporcional pelos povos da floresta. Por isso, é importante ampliar nossa capacidade de monitoramento e previsão para outras áreas do país”, destaca Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM.
Com sensores baseados em tecnologia nacional, mais baratos, adaptados à realidade amazônica e de fácil manutenção, o projeto pretende ampliar a quantidade e a diversidade dos pontos de coleta de dados de temperatura, pressão, umidade e partículas presentes no ar. Além das cidades, a plataforma fornece atualizações frequentes sobre unidades de conservação, áreas rurais e escolas.
“É um sensor feito na Amazônia e para a Amazônia. Queríamos medir uma partícula que é 10 vezes menor do que a espessura de um fio de cabelo e esbarramos na falta de infraestrutura básica para expandir essa rede. Em conversa com as comunidades indígenas, conseguimos criar um protótipo que usa energia solar e uma rede de internet indígena. Agora é possível, a cada dois minutos, gerar dados confiáveis e em tempo real com sensores de baixo custo e dados abertos”, destaca Filipe Arruda, que coordena a plataforma.
