Fumaça de queimadas deve ser tratada como ameaça à saúde pública, apontam especialistas

11 de setembro de 2026 | Notícias

set 11, 2026 | Notícias

Por Lucas Guaraldo

Os impactos dos materiais particulados presentes na fumaça liberada por queimadas e incêndios florestais devem ser tratados como um risco crescente para a saúde pública, segundo especialistas que participaram do seminário “Política, ciência e territórios no Manejo Integrado do Fogo no Brasil”. O evento marca o Dia Internacional do Ar Limpo e destaca pesquisas sobre gestão e impactos do fogo, monitoramento da qualidade do ar e os efeitos da poluição sobre a vida da população amazônica. Efeitos nocivos das partículas são sentidos sobretudo por crianças, idosos e povos e comunidades tradicionais da Amazônia.

“Bebemos cerca de 2 litros de água por dia, mas respiramos mais de 10 mil litros de ar. Por isso é tão importante termos dados sobre o que respiramos. Em épocas de queimadas, comunidades indígenas são expostas a um ar muito pior do que nas principais cidades e avenidas do país. Essa exposição vai desde momentos agudos, com dias de ar muito ruim, até uma exposição contínua, com meses seguidos de ar impróprio para a saúde”, destacou Filipe Arruda, pesquisador do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Em 2024, queimadas recordes fizeram com que grandes porções da Amazônia fossem cobertas por partículas nocivas à saúde por até 138 dias, de acordo com estudo do IPAM.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a exposição ao PM2,5, principal material particulado fino associado às queimadas, está relacionada a 4,2 milhões de mortes por ano no mundo, além de doenças cardiovasculares e câncer de pulmão. Ao serem inaladas, essas partículas podem atravessar as paredes dos pulmões, entrar na corrente sanguínea e afetar todos os sistemas do corpo humano.

“A fumaça não respeita fronteiras e pode afetar territórios a centenas de quilômetros de distância. Quando vemos um incêndio florestal, é natural que a primeira preocupação seja o controle do fogo, mas, na saúde, existe uma dimensão de exposição da população que se perpetua mesmo quando o fogo é extinto”, pontua Fábio David Reis, coordenador de Vigilância de Determinantes Ambientais em Saúde.

Dessa forma, segundo Fábio, a atuação da vigilância em saúde nas políticas de fogo é essencial para compreender o impacto real das queimadas, além de permitir a implementação de práticas que levem em conta populações sensíveis e os riscos da exposição contínua à fumaça.

“Precisamos entender quem está potencialmente exposto, quais partículas estão no ar e até quando essa contaminação pode durar. O desafio é fazer essas informações dialogarem”, completa.

O evento foi realizado pelo Instituto Ar, pela startup brasileira umgrauemeio e pelo projeto  Marajó Sem Fumaça, com parceria do IPAM, IBAMA/Prev Fogo e do Integra Fogo. A iniciativa também conta com apoio do Clean Air Fund.

Saúde de povos e comunidades tradicionais

Durante períodos de queimadas intensas, como os registrados na Amazônia em 2024, áreas conservadas costumam registrar índices de poluição atmosférica elevados. De acordo com dados produzidos pelo IPAM e divulgados na newsletter Um Grau e Meio, em 2024, três terras indígenas de Rondônia tiveram um ar até cinco vezes mais nocivo do que o registrado na área mais poluída do centro de São Paulo.

“Temos essa ideia de que as pessoas que estão em áreas conservadas têm ar puro, mas muitas vezes não é verdade, porque elas têm sofrido cada vez mais com a fumaça de incêndios florestais que passam despercebidos nas áreas urbanas”, explica Mariana Senra, assistente técnica do PrevFogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais).

Para Thaianne Resende, diretora do Departamento de Qualidade do Ar do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, uma abordagem multissetorial sobre o fogo é essencial para medir adequadamente seus impactos em áreas fora dos centros urbanos e proteger a saúde dos povos e comunidades tradicionais.

Fumaça cobriu Manaus por semanas seguidas após seca histórica e recorde de queimadas registrados em 2023.

“Cuidar das pessoas é cuidar da qualidade do ar, do clima e dos ambientes. A discussão sobre o fogo não pode estar limitada ao combate. Precisamos compreender melhor os efeitos da exposição à fumaça para entender quais áreas são críticas e como podemos lidar melhor com essa ameaça oculta”, comenta.

O evento destacou iniciativas comunitárias de monitoramento de queimadas e da qualidade do ar, como o Observatório do Marajó e o projeto Marajó Sem Fumaça.

Criado em 2023, o Observatório é uma ferramenta de monitoramento cidadão de calamidades climáticas na região. O modelo reúne indicadores próprios e mobiliza lideranças locais para a coleta de informações sobre a seca e o fogo durante os períodos de inverno e verão amazônico nos 17 municípios do Marajó, no Pará.

“Buscamos sensibilizar o poder público por meio desses dados. Percebemos que os municípios da região não estão preparados nem estão agindo adequadamente para a mitigação e a adaptação às mudanças climáticas. Cada vez mais pessoas têm relatado problemas de saúde, como tosse, pressão baixa e dificuldade para respirar”, alerta Bianca Barbosa, gestora de projetos do Observatório do Marajó.

Já o projeto Marajó Sem Fumaça combina uma brigada comunitária e tecnologia de inteligência artificial para detectar precocemente incêndios em Ponta de Pedras, município do Arquipélago do Marajó.

“Implementamos um modelo que é capaz de reduzir o tempo de resposta e, consequentemente, as emissões e os impactos à saúde. Os alertas chegam em tempo real aos celulares dos brigadistas, que podem agir antes que o fogo se espalhe.”, afirma Patrícia Ferrini, coordenadora do projeto Marajó Sem Fumaça.

Rede Ar

Além de debates, o seminário marcou o lançamento da Rede Ar, plataforma desenvolvida pelo IPAM que reúne dados de 91 sensores de qualidade do ar instalados em 13 Estados. O projeto fornecerá dados em tempo real sobre a concentração de material particulado na atmosfera, emitido principalmente por queimadas. As informações poderão apoiar políticas públicas de saúde e meio ambiente, além de servir como alerta para a população e os tomadores de decisão.

“O fogo tem consequências diretas para a saúde, para a economia e para a qualidade de vida, mas ainda é difícil fazer esse monitoramento em tempo real. Essas consequências, no entanto, são sentidas de forma desproporcional pelos povos da floresta. Por isso, é importante ampliar nossa capacidade de monitoramento e previsão para outras áreas do país”, destaca Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM.

Mapas interativo disponível para consulta na plataforma da Rede Ar

Com sensores baseados em tecnologia nacional, mais baratos, adaptados à realidade amazônica e de fácil manutenção, o projeto pretende ampliar a quantidade e a diversidade dos pontos de coleta de dados de temperatura, pressão, umidade e partículas presentes no ar. Além das cidades, a plataforma fornece atualizações frequentes sobre unidades de conservação, áreas rurais e escolas.

“É um sensor feito na Amazônia e para a Amazônia. Queríamos medir uma partícula que é 10 vezes menor do que a espessura de um fio de cabelo e esbarramos na falta de infraestrutura básica para expandir essa rede. Em conversa com as comunidades indígenas, conseguimos criar um protótipo que usa energia solar e uma rede de internet indígena. Agora é possível, a cada dois minutos, gerar dados confiáveis e em tempo real com sensores de baixo custo e dados abertos”, destaca Filipe Arruda, que coordena a plataforma.

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