“É impossível proteger o que não conseguimos medir”

7 de setembro de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

set 7, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

Por Sara Leal*

 

A newsletter Um Grau e Meio da quinzena entrevistou Filipe Arruda e Vanessa Ribeiro, pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e idealizadores da RedeAr. A nova plataforma disponibiliza, em tempo real, os índices de poluentes atmosféricos do Brasil, especialmente na Amazônia Legal. Os dados são de acesso livre.

Por meio da iniciativa, pesquisadores do instituto desenvolveram um sensor nacional, mais barato e resistente, adequado ao clima tropical e à realidade amazônica.

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O que motivou a criação da RedeAr?

Filipe Arruda: A iniciativa parte de uma questão fundamental: é impossível proteger o que não conseguimos medir. A OMS [Organização Mundial da Saúde] diz que a média de material particulado no ar deve ser de 15 µg [microgramas] por m³, por dia. Em eventos críticos na região do sul do Pará, por exemplo, o material particulado pode atingir a média de 200 µg/m³. Esse material particulado é cerca de 30 vezes mais fino do que um fio de cabelo e traz uma série de problemas de saúde.

Há também o custo econômico: somente na Amazônia Legal, as queimadas geram bilhões em prejuízos por ano. Seja por emissões de carbono, sobrecarga do Sistema Único de Saúde ou paralisação de aeroportos. Se considerarmos todo o Brasil, o número aumenta muito.

Vimos a experiência da primeira rede de monitoramento da qualidade do ar da Amazônia Legal, uma iniciativa da Universidade Federal do Acre e do Ministério Público do Acre, o que nos motivou a expandir para toda a Amazônia Legal com o desafio de fornecer dados em tempo real.

 

Como a rede funciona?

F: A ideia é construir uma rede nacional de monitoramento que abranja todos os biomas, com o objetivo de fortalecer a rede de monitoramento da qualidade do ar no Brasil. Assim, podemos auxiliar na elaboração de políticas públicas que promovam a melhoria da qualidade do ar no país.

Atualmente, a RedeAr conta com aproximadamente 140 sensores instalados junto a parceiros em todos os estados da Amazônia Legal e em alguns locais do Cerrado e do Pantanal. Desses, acreditamos que 92 estão em atividade. Manter a rede é um grande desafio: 90% dos sensores são importados da marca PurpleAir. Alguns deles estragam ou perdem conectividade com a internet.

Por isso, desenvolvemos sensores nacionais, mais baratos e adaptados à realidade amazônica. Já estamos produzindo 100 dispositivos e a ideia é que a gente vá instalando cada vez mais sensores da RedeAr.

 

Quais os diferenciais do novo dispositivo?

Vanessa Ribeiro: Para atender às características únicas da Amazônia, o novo dispositivo apresenta melhorias na estrutura física do sensor, impedindo a entrada de insetos que possam fazer ninhos e danificá-lo.

Ainda que haja queda de internet, algo comum no bioma, os dados serão armazenados. Assim que ele voltar a se conectar, enviará os dados para a nuvem de armazenamento. Além disso, não precisar pagar pela importação, como acontecia com os demais sensores, tornará a tecnologia mais acessível.

Os equipamentos monitoram a concentração de material particulado [PM2.5 e PM10], além da temperatura e da umidade relativa do ar. Os dados coletados são processados e convertidos em indicadores de qualidade do ar com base em metodologias reconhecidas internacionalmente e nas diretrizes dos órgãos ambientais brasileiros, permitindo o acompanhamento das condições atmosféricas em tempo real.

O novo sensor foi desenvolvido pelo IPAM em parceria com a UFPA (Universidade Federal do Pará), Fundação Guamá, Laboratório Lasse e o Woodell Climate Research Center.

 

Quais são os próximos passos da iniciativa?

V: Lançaremos a plataforma com os dados de todos os sensores nesta semana em redear.org.br e seguiremos com a expansão da iniciativa para o Cerrado e o Pantanal.
Também estamos ampliando o monitoramento em territórios de povos e comunidades tradicionais do Brasil, com indígenas, extrativistas e quilombolas.

Apesar de viverem em ambientes onde deveriam respirar ar mais puro, a fumaça chega de longas distâncias. Nossos resultados prévios são alarmantes e evidenciam a necessidade de aprimorar o monitoramento nesses territórios.

 

*Coordenadora de Comunicação do IPAM

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Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

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