Valdely Kinupp: “O alimento conecta biodiversidade, cultura e conservação”

27 de julho de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

jul 27, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

Por Mayara Subtil*

Em 1946, o botânico Frederico Carlos Hoehne publicou o livro Frutas Indígenas, que reúne dezenas de espécies nativas nacionais, destacando um patrimônio alimentar ainda pouco conhecido pela população. A meta foi mostrar que a riqueza vegetal do Brasil poderia ir muito além das florestas conservadas, com potencial para ocupar lavouras, mercados e a mesa dos brasileiros.

Décadas depois, a realidade mudou menos do que se poderia imaginar. Apesar dos avanços da ciência e do Brasil ser um dos maiores abrigos da biodiversidade global, boa parte dessas espécies permanece distante da alimentação cotidiana. Para Valdely Kinupp, uma das maiores referências do Brasil em PANCs (plantas alimentícias não convencionais), essa lacuna representa uma oportunidade desperdiçada de fortalecer a segurança alimentar, gerar renda, valorizar a sociobiodiversidade e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos diante dos efeitos extremos das mudanças climáticas.

Diversificar os alimentos produzidos e consumidos significa reduzir riscos, fortalecer agricultores e construir sistemas agrícolas mais preparados para um clima cada vez mais instável. A solução, segundo Valdely, não passa por buscar novas espécies em outros lugares, mas por reconhecer o potencial daquelas que sempre estiveram presentes.

“O alimento conecta biodiversidade, cultura, economia e conservação. Quando uma planta passa a alimentar pessoas, ganha valor social e econômico e também ganha mais motivos para continuar existindo. Conservar e usar a biodiversidade de forma sustentável são caminhos que precisam caminhar juntos”, afirmou.

Autor da tese que consolidou o conceito de PANC no Brasil e pesquisador da flora alimentícia brasileira há mais de duas décadas, Kinupp acredita que a resposta para alguns dos maiores desafios do século XXI pode estar justamente nas espécies ‘negligenciadas’. Ampliar o consumo da sociobiodiversidade, para o pesquisador, é uma estratégia capaz de fortalecer a segurança e a soberania alimentar.

Estimativas de Valdely indicam que o Brasil reúne cerca de 10 mil espécies de plantas alimentícias não convencionais. O número, segundo o pesquisador, pode ser ainda maior à medida que novas espécies sejam identificadas e estudadas.

“O Brasil é um país megadiverso, mas nossa alimentação continua extremamente concentrada. Temos milhares de espécies com potencial alimentício, enquanto seguimos dependendo de um número muito pequeno de plantas para produzir e consumir. Isso nos torna mais vulneráveis e faz com que uma riqueza enorme da biodiversidade brasileira permaneça invisível”, disse.

Muito antes de o termo PANC ganhar espaço no debate público, Valdely já se dedicava ao estudo de plantas que, embora utilizadas por diferentes comunidades, permaneciam à margem dos sistemas convencionais de produção e consumo. O interesse pela Botânica o levou ao doutorado, quando cunhou a expressão que, anos depois, se tornaria conhecida em todo o país.

Seu trabalho ganhou projeção nacional com a publicação do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil, em parceria com o botânico Harri Lorenzi. A obra, com edição mais recente publicada em 2021, reúne o resultado de décadas de pesquisa e apresenta 351 espécies (entre nativas e exóticas, espontâneas e cultivadas no país) consumidas em diferentes regiões do Brasil e do mundo. Hoje, é considerada referência para pesquisadores, agricultores, chefs e interessados na biodiversidade alimentar brasileira.

“O termo PANC cumpriu um papel importante porque chamou atenção para um problema que sempre existiu. Mas o objetivo nunca foi criar um grupo de plantas. O objetivo era fazer as pessoas perceberem a enorme diversidade de espécies alimentícias que nós ignoramos”, explicou.

Biodiversidade que alimenta

Para Kinupp, conservar a biodiversidade depende de um passo essencial: fazer com que ela integre a alimentação das pessoas. Na prática, é transformar espécies nativas em alimentos presentes nas feiras, nos mercados, na merenda escolar, nos restaurantes e na rotina familiar. Quando uma planta passa a gerar alimento, renda e oportunidades econômicas, segundo o pesquisador, também ganha valor social e motivos para ser conservada.

De acordo com Kinupp, essa lógica torna-se ainda mais fundamental diante da crise climática. “Se o Brasil quer ter soberania alimentar diante do caos climático, precisa voltar os olhos para essas plantas. Cada bioma brasileiro possui espécies naturalmente adaptadas às suas condições ambientais. São plantas que já convivem com seca, calor, solos específicos e outras condições que tendem a se intensificar com as mudanças climáticas. Ignorar esse patrimônio é desperdiçar uma vantagem que poucos países possuem”, reforçou.

Valdely com uma espécie de taioba no sítio PANC (Foto: Arquivo/Reprodução)

Hoje o conceito de PANCs se popularizou. Universidades ofertam disciplinas sobre o tema, chefs incorporam essas plantas à gastronomia, agricultores começam a cultivá-las e novos estudos são publicados em distintas áreas do conhecimento. Apesar do avanço, Kinupp considera que a transformação ainda ocorre em ritmo inferior ao potencial da biodiversidade brasileira.

“Produzimos muito conhecimento sobre a biodiversidade brasileira, mas ainda falta transformar esse conhecimento em políticas públicas, em produção, em consumo e em oportunidades concretas para quem vive e produz nos territórios”, reforçou.

Conhecimento que vem das comunidades

Na visão de Kinupp, valorizar a sociobiodiversidade também significa reconhecer quem protegeu esse patrimônio ao longo das gerações. O pesquisador lembra que povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outras comunidades tradicionais utilizam essas espécies muito antes de despertarem interesse científico.

“O conhecimento tradicional precede o científico. As comunidades já conheciam, utilizavam e manejavam essas plantas muito antes de a academia começar a estudá-las. O papel da ciência é aprofundar esse conhecimento, validar informações quando necessário e ampliar sua compreensão, mas sem perder de vista a origem desse saber”, disse. A aproximação entre pesquisadores e comunidades tradicionais, segundo o pesquisador, é fundamental para fortalecer sistemas alimentares mais diversos e sustentáveis.

O desafio das políticas públicas

Se o conhecimento científico avançou, as políticas públicas ainda caminham lentamente. Na avaliação de Valdely, ampliar o uso da biodiversidade alimentar brasileira exige ações coordenadas em diferentes frentes: incentivo à pesquisa, assistência técnica, fortalecimento da agricultura familiar, compras públicas, inclusão dessas espécies na alimentação escolar e educação alimentar. Kinupp também defende que a biodiversidade deixe de ser tratada apenas como patrimônio ambiental e passe a ser reconhecida como uma oportunidade concreta de desenvolvimento.

“Enquanto essas plantas não fizerem parte da vida das pessoas, da agricultura, dos mercados, da alimentação escolar e da mesa dos brasileiros, elas continuarão invisíveis. Produzimos muito conhecimento, mas ainda precisamos transformar esse conhecimento em políticas públicas, produção e consumo”, destacou.

Acompanhe Valdely Kinupp nas redes sociais por meio do perfil @producaokinupp e conheça mais sobre PANCs, biodiversidade e sociobiodiversidade brasileira.

*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br

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