Por Mayara Subtil*
Os caminhos para acelerar a implementação do roteiro global para acabar e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030 estão entre os principais temas discutidos nesta segunda-feira (8), primeiro dia da Conferência de Bonn [ou 64ª SB64], na Alemanha. Em evento promovido pelo Woodwell Climate Research Center, com a participação do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e da EESI (Environmental and Energy Study Institute), cientistas, representantes de povos indígenas, organizações internacionais e sociedade civil debateram seis alavancas consideradas prioritárias para transformar compromissos climáticos em ações concretas de proteção florestal.
“As discussões cobriram as seis alavancas que a ciência está propondo para acelerar a implementação do mapa do caminho para acabar e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030. Entre elas estão a conservação como prioridade, o alinhamento dos mecanismos financeiros, a regulamentação do comércio, o protagonismo e o financiamento para povos indígenas e comunidades locais e a conexão entre o roadmap para acabar com o desmatamento e o roadmap da transição para fora dos combustíveis fósseis”, afirmou Ludmila Rattis, pesquisadora do IPAM e do Woodwell Climate.
Lançada pela presidência brasileira da COP30, a iniciativa busca transformar compromissos climáticos já assumidos pelos países em ações concretas de implementação. Ainda em construção, deverá reunir medidas voltadas à conservação, restauração, financiamento, governança e fortalecimento de políticas públicas capazes de acelerar a proteção das florestas nos próximos anos.
A conservação foi apontada como o ponto de partida desse processo. Embora a restauração de áreas degradadas seja fundamental para recuperar ecossistemas e ampliar a remoção de carbono da atmosfera, a avaliação é que proteger as florestas que ainda permanecem em pé continua sendo uma das formas mais rápidas e eficazes de enfrentar a crise climática.
Outro aspecto considerado estratégico é o fortalecimento dos sistemas de monitoramento, reporte e verificação das emissões associadas ao desmatamento e à degradação florestal. A proposta é aprimorar esses mecanismos para incorporar fontes de emissão ainda pouco consideradas nos inventários nacionais e ampliar a transparência das ações de combate à perda de florestas.
O debate também destacou a necessidade de transformar a forma como os recursos financeiros são direcionados à agenda florestal. Entre os desafios apontados estão o alinhamento dos mecanismos de financiamento e a ampliação dos investimentos destinados à conservação, ao manejo sustentável e à restauração, garantindo que os recursos cheguem aos territórios onde as ações acontecem.
A regulamentação do comércio internacional foi apresentada como outra frente importante para reduzir incentivos econômicos associados ao desmatamento e à degradação florestal. A expectativa é que cadeias produtivas e fluxos comerciais estejam cada vez mais alinhados aos objetivos climáticos globais.
Os participantes também defenderam maior protagonismo para povos indígenas e comunidades locais, reconhecidos como atores centrais para a proteção dos ecossistemas. Além do fortalecimento da governança territorial, a proposta prevê ampliar o acesso desses grupos ao financiamento climático e aos processos de tomada de decisão.
A articulação entre os roadmaps completa o conjunto de prioridades debatidas em Bonn. A avaliação é que as duas agendas precisam avançar de forma coordenada para ampliar a efetividade da ação climática global e acelerar a implementação dos compromissos assumidos pelos países no âmbito do Acordo de Paris. Ludmila Rattis destacou ainda que a construção do mapa do caminho precisa considerar o conjunto de benefícios que as florestas oferecem para o equilíbrio climático, para além de seu papel no armazenamento de carbono.
“A ciência já demonstra que proteger as florestas não é apenas uma estratégia de mitigação climática global. É também uma forma de reduzir temperaturas, amenizar eventos extremos e manter fluxos de umidade local e regionalmente, todos serviços essenciais para a segurança hídrica de diferentes regiões. Esses benefícios precisam estar refletidos no roadmap para o fim do desmatamento”, afirmou.
Também participaram da conversa João Veras, do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente); Dinamam Tuxá, liderança indígena do povo Tuxá; e Ghanshyam Pandey, da Green Foundation Nepal.
Conferência de Bonn
Ao longo dos próximos dez dias, os países discutirão temas centrais da agenda climática internacional, incluindo adaptação, transição justa, mitigação e financiamento climático, em um processo que ajudará a definir o rumo das negociações de clima até a COP31.
Tradicionalmente vistas como encontros de caráter mais técnico, as reuniões dos Órgãos Subsidiários da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) passaram a desempenhar um papel cada vez mais político nos últimos anos. Bonn se consolidou como espaço para aprofundar debates sobre decisões recentes e preparar o terreno para os acordos que ainda precisam avançar.
Entre os temas que devem concentrar atenção está adaptação climática. Um dos principais legados da COP30 foi a aprovação dos UAE-FGCR (Indicadores de Belém para o Quadro dos Emirados Árabes Unidos para a Resiliência Climática Global), instrumento ligado à Meta Global de Adaptação. Em Bonn, os negociadores deverão discutir caminhos para aprimorar os aspectos técnicos e metodológicos desse processo.
A transição justa também deve ganhar espaço nas negociações. A COP30 aprovou a criação do BAM (Mecanismo de Ação de Belém para Transição Justa), iniciativa voltada ao fortalecimento da cooperação internacional, da assistência técnica e da troca de conhecimentos entre países. Agora, os negociadores terão o desafio de começar a definir aspectos como governança, financiamento e funcionamento do mecanismo, que deverá ter uma proposta de operacionalização apresentada na COP31.
Já na agenda de mitigação, as atenções estarão voltadas para o futuro do Programa de Trabalho de Sharm el-Sheikh sobre Ambição e Implementação em Mitigação, atualmente o único espaço formal de negociação dedicado exclusivamente ao tema dentro da UNFCCC. O programa enfrenta questionamentos sobre sua continuidade e deverá ser alvo de debates ao longo da conferência.
*Analista de comunicação do IPAM. mayara.barbosa@ipam.org.br



