“A agricultura regenerativa deve ser funcionar na escala da paisagem”

18 de maio de 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

maio 18, 2026 | Notícias, Um Grau e Meio

A agricultura regenerativa tem ganhado espaço nos debates dos setores ambiental e agrícola como uma alternativa para a produção rural sustentável a longo prazo.

Dado que a produtividade rural depende dos serviços ecossistêmicos oferecidos pela natureza, e que cada vez mais as mudanças climáticas causadas pela ação humana prejudicam o plantio e a colheita, a oportunidade de desviar de rota bate à porta, sinalizando um caminho de práticas agrícolas aliadas à conservação.

A Um Grau e Meio da quinzena entrevista Ludmila Rattis, pesquisadora do IPAM e do Centro de Pesquisa Climática Woodwell, sobre as possibilidades da agricultura regenerativa no contexto do agro brasileiro.

Inscreva-se para receber a newsletter do IPAM de graça no seu e-mail. 

 

Ludmila Rattis em palestra no TED Talks (Foto: Nick Hagen/TED)

 

Em suas pesquisas, quais impactos você já observou na relação agricultura-floresta? Algum caso chamou a atenção?

Um dos meus primeiros trabalhos quando eu entrei no IPAM, há 10 anos, foi conversar com produtores rurais no campo. Certa vez, um gerente de campo apontou para mim que ele via uma dicotomia na relação floresta-produção, por exemplo, os pés de algodão eram mais produtivos perto da floresta, mas outras culturas seriam mais atacadas por insetos e porcos. Afinal, a presença da floresta apresentava uma vantagem ou um risco?

Além disso, começamos a nos perguntar se a influência poderia ir além de apenas alguns metros. Então fizemos análises para encontrar a escala do efeito, usando círculos de diferentes raios para entender a relação entre a produtividade da soja e a quantidade de floresta na escala da paisagem. Assim, vimos que a escala de 30 km de raio é a mais adequada para a região da Amazônia, e para a região do Cerrado é 55 km – mas estamos investigando ainda.

Ninguém planta floresta para aumentar produtividade. A pessoa joga um fertilizante, pesticida, inseticida, tenta plantar numa terra boa. Isso porque o modelo de produtividade do agrônomo é baseado em clima, solo e manejo. E está tudo bem.

O que foi inovador no trabalho do IPAM foi que, incluindo variáveis ecológicas, como a presença da floresta, investigamos e descobrimos que o papel da floresta – no sentido de fitofisionomia florestal – é muito mais importante do que se imaginava. E isso parece ser uma jaboticaba, bem brasileira. Ou Amazônica, eu deveria dizer. Mas te pergunto: sorte ou azar de dependermos tanto da floresta como parte da infraestrutura produtiva? Se vivemos em um mundo que entende a floresta como o ativo que é, isso é sinal de sorte, muita sorte.

Outra importante surpresa foi a descoberta de que o modelo agronômico-ecológico de produtividade agrícola era muito melhor para explicar a produtividade da soja do que um modelo puramente agronômico. Esses resultados serão publicados em artigo científico até o final do ano.

Quanto mais floresta tem, mais produtividade. Esse efeito não vai embora. Se o ano for de El Niño, bem seco mesmo, o papel da floresta fica mais importante ainda, tanto para evitar a perda quanto para aumentar e/ou manter a produtividade. Estamos corroborando isso em campo. Tem produtor que trabalha com manejo da paisagem e consegue manter a produtividade em um ano de El Niño bravo. Quem despreza a paisagem, perde. E perde muito, às vezes perde tudo.

A agricultura regenerativa é suficiente para resolver o problema?

Aí vem a questão de qual agricultura regenerativa estamos falando. Ela tem que ser uma abordagem na escala da paisagem. Manejo de talhão não resolve crise climática.

Já que a gente tem uma lei de proteção à vegetação nativa no Brasil, temos que usar isso a favor do setor agrícola para poder pensar em mitigação e, por que não, em adaptação.

Com essa preocupação, estamos escrevendo, em um grupo de produtores rurais, formuladores de políticas, economistas e pesquisadores de diferentes instituições, um outro artigo científico para tratar da definição de agricultura regenerativa tropical. Há alguns pilares, por exemplo, de manter o solo vivo e os ciclos biogeoquímicos, também a biodiversidade e o manejo do sistema agrícola integrado. Mas a floresta entra como parte da infraestrutura produtiva, como mostram os modelos de produtividade.

Essa agricultura regenerativa, com pilares e premissas, de maneira escalável e com design de incentivo, sim, pode resolver. A agricultura regenerativa que fala apenas de plantio de cobertura, rotação de lavouras, de plantio direto e de intensificação, não.

O Cerrado abriga a maior parte do agro brasileiro e a maioria dos seus remanescentes está dentro de fazendas. Aumentar a reserva legal no bioma é uma opção viável?

Antes da gente falar sobre isso, a gente tem que falar sobre proteger os excedentes que estão lá. Digo isso até por uma questão de segurança do produtor, porque vegetação nativa em pé é resiliência climática na paisagem, é aparelho de ar-condicionado.

Se estamos verificando a possibilidade de chegar um El Niño forte, você vai vender seu ventilador, seu ar-condicionado que você tem em casa?  A gente não faz isso dentro de casa, com nós mesmos, então por que vamos fazer isso com as fazendas?

É preciso um sistema de incentivo para, antes de falar do aumento de reserva legal, falar do aumento da proteção do que pode ser desmatado. Falar de aumentar reserva legal não ajuda na construção de pontes que a gente tenta fazer.

Há anos a sustentabilidade entrou na pauta do setor agro. Quais os avanços e os desafios ainda a serem superados?

Vou falar que antes a gente tinha um negacionismo climático muito forte no Brasil como um todo. Hoje em dia esse número é baixíssimo.

No começo a gente não conversava, as pessoas que são mais pró proteção, outras que são mais pró cumprimento da lei ipsis litteris ou as que são contra a lei… Hoje em dia a gente está tentando chegar num denominador comum. É melhor isso do que perder tudo o que tem, ainda que haja o inegociável.

Mas a gente precisa seguir o consenso científico. Nosso papel é falar. Dá para discutir o Código Florestal enquanto lei, mas não dá para discutir a lei da biofísica.

Não tem uma árvore que fala ‘já que estou caindo legalmente aqui, não vou ter os impactos do desmatamento’. Uma árvore caindo significa 300 litros de água que deixam de circular diariamente. É uma energia equivalente a dois aparelhos de ar-condicionado que deixam de dissipar a cada hora. A terra fica seca e com febre.

A gente saiu de um ponto muito ruim, mas estamos indo ainda pior do que os modelos mais pessimistas falavam em termos de mudanças climáticas. Vamos ter que absorver as consequências, que não são poucas. Temos muito o que avançar ainda, a maior parte do caminho está pela frente.

 

ODS 13

Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Saiba mais em brasil.un.org/pt-br/sdgs.

Veja também

See also