Karla Martins, ou @karlotadoacre, é atriz acreana formada pela Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) e com pós-graduação pelo Instituto Superior de Arte em Havana, Cuba.
Contadora de histórias, ativista cultural e ambiental, ela falou à newsletter Um Grau e Meio, do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) sobre como mitos e lendas ajudam a nos enxergarmos como parte da natureza.
Karlota é articuladora do Comitê Chico Mendes, também fundadora da Mídia Ninja, da Casa Ninja Amazônia e do movimento Fora do Eixo. Foi professora em seringais no estado do Acre, onde aprendeu que contar histórias é um processo coletivo.
A atuação na interface entre cultura e meio ambiente fez com que a atriz passasse a ser requisitada pela produção audiovisual nacional. Durante a entrevista, inclusive, ela estava em Pucallpa, no Peru, trabalhando como produtora de um filme que irá se passar na Amazônia transfronteiriça.

Karla Martins, atriz e ativista ambiental, é entrevistada na newsletter Um Grau e Meio (Foto: Mídia Ninja)
Fale um pouco sobre seu trabalho e sua relação com a contação de histórias.
Pelo fato de ter nascido em Rio Branco, no Acre, mas também ter vivido um período no Rio de Janeiro, fui entendendo, sem saber exatamente esse nome que a gente dá hoje, o que é o lugar de fala.
Existe uma visão no Brasil de que tudo aquilo que tem qualidade na cultura precisa da régua de aprovação do Sudeste. Durante muito tempo, nós, que morávamos longe, quando íamos para os grandes centros, a gente sofria muito preconceito. Hoje menos.
Depois de ter passado 10 anos fora do Acre, quando voltei, comecei a entender essa força que a gente tem no território e que era muito pouco reconhecida.
Fui ser professora em escolas do Projeto Seringueiro e fui conhecendo os professores e os processos de oralidade. eu sou filha de mãe seringueira, avô seringueiro, isso tá dentro da minha família.
Então me deparei com as histórias, crenças e sabedorias populares. Se tem nome, é porque existe: já não chamo de lenda. Se escutei uma história, do Mapinguari, do Caboclinho da Mata… se você está me perguntando, é porque existe. A floresta fala para quem sabe ouvir.
O que é contar uma história?
Antigamente, na escola, a gente aprendia que história com H era “história de verdade” e estória com E era “de mentira”. Só que inclusive a história com H era escrita por mentiras. Então, tudo é história.
O que a gente está fazendo agora é história. Todos nós temos nossas referências e isso nos permite contar. O movimento dos contadores de história fala muito disso. Não tem um tema específico, qualquer pessoa pode contar uma história e é importante trazer o processo da oralidade para nossa sociedade hoje.
Contar história é um lugar da humanidade. A gente tem esse código entre nós, um código letrado. Mas os povos indígenas nos ensinam que oralidade é o valor da palavra, o que a pessoa nos diz, e isso é muito importante. É uma coisa para a gente pensar. Contar história é um ato coletivo.
De onde vêm as histórias que você conta?
Eu conto aquilo em que eu acredito. Como diz Ângela Mendes, filha de Chico Mendes, se forem falar da Amazônia, nos chamem. Temos muito a contar sobre nós mesmos.
A coisa mais importante de pensar é que quando você conta uma história, você vai ver um processo coletivo. ‘Eu sou daqui mas vim de longe, contando histórias naveguei num barco grande. Tem rosa de cor morena e uma verbena para te enfeitar. São flores de carne e osso, do meu pescoço para o seu colar’.
Eu canto e digo assim para as pessoas, dependendo da história: ‘quanto tempo faz que você não escuta uma história? Que você não senta numa roda, de coração aberto, para ouvir o que alguém te diz?’
‘Venho aqui para te dizer que você precisa lembrar de uma árvore, porque todos temos dentro de nós uma árvore. Aquela árvore que você desenhava, que você subiu para brincar, uma árvore que você viu florida. As árvores trazem ensinamento, porque gostam de viver junto uma das outras, se protegendo, se cuidando. Te desejo que você se lembre da sua árvore, que você seja árvore. Sinta onde está enraizado, sinta a copa em cima de você, a sombra… e assim eu vou te contar uma história’.
Como é a relação com quem escuta?
Se a gente não tivesse perdido o pensamento real de que estar junto é bom, de que viver coletivamente é bom, a gente teria a floresta e a natureza mais cuidada.
Estou trabalhando na sala da oralidade para um museu que vai abrir em Belém, o Museu das Amazônias. Numa reunião, falaram que o tempo máximo de concentração que as pessoas têm hoje para visitar um museu é de 17 minutos. Fiquei rindo.
Quando eu dava aula no seringal, uma pessoa muito antiga disse para mim: ‘às vezes eu falo por duas ou três horas e paro. Depende do quanto os meninos estão olhando para o canto. Aí eu paro, mando todo mundo beber água e volta, para de novo eu ser o foco principal’.
As pessoas têm um lugar de concentração. Isso, nas cidades, pela tecnologia, tem se perdido muito. Mas eu te digo claramente, seja no campo, na cidade, em terras indígenas ou comunidades, quando você diz ‘era uma vez’ as pessoas param. Ainda está no ser humano a ideia da escuta.
Mesmo contar história para uma pessoa só faz sentido. Às vezes quando vou nos asilos, conto histórias mais engraçadas. É um brilho no olho.
De que forma a natureza entra na história?
A natureza fala para quem sabe ouvir. Precisa pensar nisso quando vai contar histórias. Celebrar a palavra como algo muito importante. O ato da paciência. A coisa que mais aprendi com os povos indígenas e comunidades tradicionais foi a paciência, é ter calma para olhar o que está em volta.
Nessa época eu ainda andava a pé, às vezes 26 horas de caminhada. Eram dias até chegar na colocação. Andava com um seringueiro e uma vez falei ‘é tanto verde que a gente cansa de ver’, e ele disse ‘é não. É verde claro, escuro, tem marrom, cinza. Quando tá com flor, às vezes é vermelho, roxo’.
Meu olhar era cheio de vícios. A floresta não é um verde só, ela é multicolor. A gente precisa abrir o olho e a paciência faz isso.
Às vezes eu digo assim: ‘todo mundo aprende na escola que a Amazônia é o pulmão do mundo, está errado. A Amazônia é o ar-condicionado deste planeta. E porque ela refresca o planeta, nos dá também a ideia de que poderíamos refrescar as mentes e os corações para pensar possibilidades futuras de vida. Por isso também a gente conta história’.
Qual é o papel da ludicidade na proteção ambiental?
Contar histórias e fazer essa interface com o meio ambiente tem a ver com o pensamento orgânico de que meio ambiente e gente é tudo a mesma coisa. A gente parou de se enxergar como meio ambiente. Por mais que agora eu sinta que as pessoas levantam isso, a gente ainda se enxerga só como gente.
Houve um momento que nós nos ejetamos de nos pensar dentro do meio ambiente. Passamos a pensar a humanidade e criamos uma arrogância para nos manter, de que nós somos mais importantes do que qualquer coisa. Com isso, fomos perdendo o sentido de proteção para o todo. Mas quando eu protejo o meio ambiente, protejo todas as pessoas em volta, protejo a vida e o mundo.
A sociedade começou a estabelecer dinâmicas que você tem que ser o melhor, e se você não é o melhor, você não tem sucesso. Esse pensamento sistêmico social colocou isso na nossa cabeça e tirou, inclusive, a ideia de coletividade.
Mas o mito conservacionista da floresta em pé não existe. Onde tem floresta em pé, tem gente cuidando. Um amigo meu, Antônio Alves, pensador acreano, criou a palavra florestania, que as pessoas entendem como a cidadania da floresta. Quando você tem a ideia de coletividade, você compreende a floresta, porque a floresta é um lugar coletivo.
Às vezes, aquilo que parece modernidade, também pode ser uma maneira de matar o pensamento de um povo, de uma comunidade, de um lugar. Quanto tempo a gente ficou chamando indígenas de atrasados? Quanto tempo a gente ficou usando as palavras ‘índio’ e ‘seringueiro’ para desqualificar pessoas tímidas?
Todo mundo tem as suas folhas. Todo mundo tem uma árvore dentro de si. Se todo mundo se lembrasse da sua árvore, talvez fosse o primeiro passo para sair dessa agonia climática que estamos vivendo. É uma maneira de chamar as pessoas para esse lugar de escuta da história, da natureza, do que está dentro de você, muito mais como um chamamento.
Foto de capa: Mídia Ninja
Bibiana Alcântara Garrido, jornalista do IPAM (bibiana.garrido@ipam.org.br)


