Primeiro Selo Artesanal de Chocolate é emitido no Pará para empreendimento familiar

31 de março de 2025 | Notícias

mar 31, 2025 | Notícias

Por Lucas Guaraldo*

O chocolate Cacau Xingu, de Brasil Novo (PA), produzido em um sistema agroecológico e sustentável, foi o primeiro a obter o registro artesanal concedido pela Adepará (Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará). A fábrica de chocolate contou com apoio do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) no âmbito do projeto Sustenta e Inova, que apoiou, principalmente, na escalabilidade da produção do produto.

Atualmente, o empreendimento fabrica mais de dez variedades de chocolate, incluindo barras 100% cacau, geleias de cacau e nibs. Seguindo o conceito “da árvore à barra”, o processo de produção é totalmente artesanal e utiliza ingredientes selecionados, desde o cultivo do cacau até a finalização do produto.

Para garantir que a produção pudesse ser viável e seguisse os critérios de produção artesanal de qualidade, foram fornecidas máquinas, assistência técnica na organização dos documentos para a certificação da produção e apoio para a participação em feiras regionais, nacionais e internacionais.

“É com muita alegria que compartilhamos o sucesso da nossa parceria com a Cacau Xingu, que agora se orgulha de ser a primeira no Estado do Pará a conquistar o tão aguardado Selo Artesanal para a produção de chocolate artesanal. Esse marco não é apenas uma conquista para a agroindústria deles, mas também para toda a agricultura familiar e para os cacauicultores do nosso Estado, que estão cada vez mais verticalizando e valorizando o seu trabalho”, celebra Elisangela Trzeciak, pesquisadora do IPAM.

Também foram realizados investimentos na marca do Cacau Xingu, que ganhou novas embalagens e identidade visual própria, desenvolvidas por meio de consultorias do Sebrae. A mudança busca acompanhar a nova robustez na infraestrutura da produção e permite que o chocolate paraense alcance mercados maiores dentro e fora do Brasil.

“A regularização familiar das agroindústrias artesanais é uma das maiores políticas inclusivas do Estado do Pará porque dá visibilidade à produção dos agricultores familiares e dos pequenos agricultores. Os estabelecimentos que têm o selo da Adepará passaram por todos os procedimentos higiênicos e sanitários e também garantem a origem de sua matéria prima, aplicando as boas práticas agrícolas no campo. Esse selo agrega valor, abre mercado e é uma nova oportunidade de emprego e geração de renda para agricultura familiar do nosso Estado”, Lucionila Pimentel, Diretora da Adepará.

Segurança para a produção

“Esse selo é motivo de muita satisfação e alegria. Recebemos assessoria, mentorias e equipamentos que são fundamentais para pequenos produtores que precisam dessa ajuda para começar. Eu olho pra temperadeira [ferramenta utilizada para derreter e temperar o chocolate antes da comercialização] que recebemos através do projeto e me enche de paixão e alegria. Antes levávamos cinco dias para preparar o chocolate que hoje levamos dois”, relata Jiovana Lunelli, produtora rural e dona do Cacau Xingu

Como parte dos espaços alcançados na nova fase de seu empreendimento, Jiovana pode participar do Fórum Mundial do Cacau, organizado pela World Cocoa Foundation, em São Paulo. O evento reuniu produtores e agentes da cadeia de cacau para discutir os potenciais globais da cultura, além de destacar o papel do cacau na preservação da Amazônia e sua participação na COP 30, que discutirá, dentre outros temas, a geração de renda sustentável no bioma.

“Participar do fórum e ouvir depoimentos tão importantes nos mostra que estamos no caminho certo. Pude apresentar o sistema agroflorestal que usamos e pelo qual sou apaixonada e fiquei muito feliz de ouvir de tanta gente não só do Brasil, mas de todos os cantos do mundo, sobre a importância do cacau. Acho que esse é um momento importantíssimo para toda a cadeia do cacau”, completa Jiovana.

Transamazônica

O empreendimento está localizado na região da rodovia Transamazônica, construída nos anos 1970 com o objetivo de integrar a Amazônia ao restante do Brasil. Até 1977, o Governo Federal investiu recursos consideráveis em educação, saúde, crédito agrícola e na conservação das estradas. Após esse período, no entanto, o projeto de colonização na região foi abandonado pelo governo federal e as famílias migrantes se viram isoladas, sem acesso à saúde, educação e crédito.

Nesse contexto, o projeto Sustenta e Inova, financiado pela União Europeia e coordenado pelo Sebrae em parceria com o IPAM, busca desenvolver e implementar práticas agrícolas sustentáveis e inovadoras que promovam o desenvolvimento de cadeias de calor na Amazônia. Na região Transamazônica, o projeto se dedica à regularização ambiental, intensificação dos sistemas produtivos, valorização e fortalecimento da produção familiar com o objetivo de subsidiar formulação de programas e políticas.

“Ver a evolução do Cacau Xingu e saber que agora ele é uma referência em chocolate artesanal no Pará é muito mais do que ver um empreendimento crescer. Para nós, é a realização de um trabalho que visa, principalmente, fortalecer a economia local e valorizar a cultura da nossa região. É uma vitória para todos que acreditam no potencial da agricultura familiar e no que ela pode trazer de bom para o desenvolvimento sustentável”, completa Thaynara Veloso, analista de pesquisa do IPAM.

Jornalista do IPAM, lucas.itaborahy@ipam.org.br*

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