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IPAM Amazônia | Paulo Galvão: “Quero levar a voz do povo da Amazônia para o mundo”

IPAM Amazônia | Desenvolvimento sustentável da Amazônia pelo crescimento econômico, justiça social e proteção da integridade de seus ecossistemas.

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Paulo Galvão: “Quero levar a voz do povo da Amazônia para o mundo”

23.06.2022Notícias
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Paulo Galvão. (Foto: Arquivo pessoal)

Por Lays Ushirobira*

Uma pesquisa rápida sobre Alter do Chão, região no município de Santarém (PA), mostra um destino paradisíaco para turistas, conhecido como Caribe amazônico. Mas o que para alguns pode ser um refúgio tranquilo, para Paulo Galvão é palco de uma luta antiga pela preservação das terras e tradições de seu povo e outras comunidades locais.

Indígena do povo Borari, Galvão nasceu em Alter do Chão e viu a área passar por profundas transformações. Aos 18 anos, ele é voluntário do Engajamundo, coordenador do programa de inclusão da organização e articulador nacional do GT Clima. Também faz parte de um núcleo local no Tapajós, o Engajajós, que envolve indígenas, quilombolas, ribeirinhos e todas as pessoas que moram na região. Atualmente mora na cidade de Franca, em São Paulo, onde cursa Relações Internacionais na Unesp.

A equipe do Amazoniar, iniciativa do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) para promover um diálogo global sobre a Amazônia, conversou com Galvão sobre seu trabalho como ativista, como a luta dos povos tradicionais o inspirou a decidir seu caminho ainda tão jovem, as mudanças pelas quais viu sua terra natal passar, o papel de resistência da cultura e como é necessário preservar a região, mas ao mesmo tempo é possível desenvolvê-la em prol do povo local e de todo o mundo.

Confira a entrevista do Amazoniar com Galvão:

Do que você mais se orgulha de ter feito pela Amazônia?

Meu maior orgulho é o trabalho coletivo, essa força de um grupo ter o objetivo de proteger nosso território e estar sempre lá lutando por ele, se articulando e passando informação. Lembro de uma ação que fizemos em Alter do Chão em 2019, quando o fogo das queimadas chegou lá. Foi muito triste porque fomos à região queimada, uma área bem grande na savana amazônica. Nós conseguimos mapear grandes perdas e fizemos uma ação com algumas fotos: colocamos várias plaquinhas com os nomes de animais que viviam lá, e uma placa bem grande escrito “Salve a Amazônia”. Esse foi um dos momentos que mais me marcou porque foi bem no começo do nosso trabalho como coletivo.

Qual foi seu maior aprendizado nesses anos de trabalho na pauta socioambiental?

Quando eu olho para dois, três meses atrás, ou para anos atrás, consigo ver o quanto evoluímos. Eu, meu grupo, as pessoas ao nosso redor, todos nós evoluímos e conseguimos conquistar muitas coisas. Nós aprendemos que não podemos parar, que temos que colocar nossa energia naquilo em que acreditamos. Eu acredito que todo mundo deveria defender nosso território, mas nem todos conseguem seguir nessa vida. O aprendizado que eu levo nesse trabalho é que realmente precisamos defender nosso lugar, ter um objetivo e ir atrás, fazer de tudo para alcançá-lo. As pessoas podem falar que é impossível, mas dar o nosso máximo para alcançar o que queremos é o que mais me orgulho nessa trajetória. Consigo sempre aprender falando com outras pessoas, vendo outras perspectivas e realidades. Isso nos deixa muito mais maduros para o mundo e para o trabalho do ativismo. Aprendemos muito com essa conexão, de não ficar só dentro de uma bolha, entendemos que nós estamos numa comunidade gigante que tem diversas formas de viver. 

Qual é a sua leitura do que está acontecendo na Amazônia hoje?

Nós já vemos a destruição da Amazônia há muito tempo, mas nos últimos anos e meses, temos visto que as mídias têm noticiado muito mais. As pessoas têm colocado mais atenção na Amazônia, falado e pesquisado mais sobre o tema. Nós realmente precisamos colocar isso como uma pauta no Brasil, porque tem pessoas do próprio país que não entendem o que é a Amazônia, e às vezes tem gente de outros países que entende mais a importância dela para o Brasil e para o mundo, e como nós deveríamos gerir a região. Muitos brasileiros nunca foram até a Amazônia, não sabem como é a vivência dos povos de lá. Hoje nós vivemos uma destruição em massa que está sendo noticiada e chama atenção, principalmente de grandes empresas, muitas vezes com interesses disfarçados de proteção também. Principalmente nos últimos anos, vemos empresas que na realidade querem explorar a Amazônia, ou estão ali financiando a exploração e atividades que nós sabemos que destroem a floresta. A voz do ativismo ainda é muito pequena, nós não conseguimos levar todas as nossas demandas para os grandes centros e espaços de tomada de decisão, mas mesmo assim já temos um acesso maior a esses espaços e conseguimos noticiar o que acontece no território de alguma forma. 

Você é indígena de um povo em retomada. Poderia explicar o que é a retomada de uma terra indígena e qual a importância das nações na garantia dos direitos indígenas?

Nós, os povos indígenas como um todo, passamos por um apagamento que não vamos conseguir recuperar nem mensurar nunca, principalmente aqui no Brasil. Na região amazônica não foi diferente. O extermínio dos povos que habitavam lá foi gigante, e nós acabamos perdendo idiomas, outros povos, muita cultura… muitas coisas com as quais não temos contato hoje e provavelmente não vamos ter. Estava vendo um vídeo de uma liderança que era sobre retomar tudo o que nossos antepassados faziam – a defumação, o banho, tudo o que era sagrado para eles e continua sendo para nós, mas em algum momento deixamos de exercer essas atividades da mesma forma que eles faziam. Quando falamos do período de retomada, é sobre retomar nossas raízes, entender de onde viemos, fazer um mapa e entender qual o nosso território, nossa cultura e nossa língua. É um termo que começamos a usar agora. As lideranças estão incentivando muito, especialmente a juventude, a fazer essa retomada de povos. Não só do seu povo, mas uma retomada do país como um todo, porque o Brasil é uma terra indígena e nós precisamos falar disso e retomar a cultura que nós tínhamos há 500 anos e foi exterminada. Falar de retomada é um assunto que eu, particularmente, gosto muito, porque ajuda a entender como nós vemos a sociedade, nossa relação com a terra, com nossos guias e nossos ancestrais. Nesse processo, consigo aprender quem foram as pessoas que vieram antes de mim, quais as lutas delas e quais lutas eu tenho que levar adiante também. É muito importante falarmos também da retomada e demarcação de território. Alter do Chão e vários outros territórios ali do Baixo Tapajós, por exemplo, não são demarcados, e temos essa luta pela demarcação.

Alter do Chão é uma região famosa por sua beleza natural e conhecida mundialmente como Caribe amazônico. Para você que é de lá, quais as principais mudanças que você observou nos últimos anos? Tanto na esfera ambiental, quanto na social.

Esse termo Caribe Amazônico coloca Alter do Chão no centro das atenções. É um território muito explorado por essas belezas naturais, mas não é só a beleza que acaba sendo explorada, o ambiente e as pessoas que moram ali também são porque acabam expulsas de suas terras para que os grandes empreendimentos construam ali na parte mais próxima à beira do rio. Alter do Chão era muito pequena, tinha duas ou três ruas, e eram todas habitadas pela população local. Hoje nós vemos na primeira rua, na orla, casas muito grandes, prédios, hotéis… empreendimentos que precisaram expulsar as pessoas que moravam ali. Tem duas casas que ainda resistem lá que são de famílias nativas. Em 2019, do lado dessas casas, tem um terreno bem grande que tinha árvores, bastante vegetação. Destruíram tudo e ficou um campo aberto, por isso começou a ir muita poeira para essas casas e faz muito calor. Quando falamos desses espaços que são o centro das atenções, como esses em frente à orla, os empreendimentos vão fazer de tudo para expulsar as pessoas que vivem ali. Elas vão ser direta ou indiretamente expulsas, então precisa ter muita resistência para permanecer lá.

Nos últimos 10, 15 anos, houve um aumento grande do turismo em Alter do Chão, e é um turismo que existe só para explorar as belezas dali. Temos também iniciativas de turismo mais conscientes, mais sustentáveis, que querem apresentar o que é a comunidade. A partir disso nós conseguimos falar que ali é um território do povo Borari, um território indígena que hoje é denominada uma vila. É um processo muito delicado porque nós entendemos que a terra é nossa e que precisamos estar ali para demarcar nosso território, mas as pessoas acham que aquilo tem que ser explorado pelas belezas naturais e dominado pelo turismo. É muito doido ver coisas que estão no papel e não deveriam acontecer, como a construção de prédios: estão finalizando um de sete, oito andares em cima da área de proteção, o que é proibido pelo Plano Diretor, mas conseguiram uma liminar e estão lá. É algo que realmente coloca a beleza natural em segundo plano, nós olhamos e só vemos prédios. 

Nos últimos meses, teve o caso da mudança de coloração da água que precisou chegar até Alter do Chão para virar notícia nacional e mundial. A atividade garimpeira está lá há muito tempo e a mídia nunca falou disso da forma como fizeram agora. Foi preciso que os rejeitos chegassem lá para noticiar e tentar apontar os culpados. Nós sabemos quem são os responsáveis não só pela poluição do rio, mas a destruição dos povos daquela região. É a mineração, o desmatamento, a grilagem e todo o agronegócio que está ali também. Nós estamos em uma região de muito conflito, assim como Santarém. É desmatamento, plantação de soja, escoamento, água sendo explorada, garimpo, planos para ter hidrelétrica… Estamos enfrentando muitos problemas e tentando achar uma saída para tudo isso.

Com tudo isso, nós vemos também uma maior vulnerabilidade das pessoas expulsas de casa, que acabam não tendo acesso à educação e a outros serviços porque vão morar mais longe. Na pandemia, nós conseguimos fazer algumas ações de distribuição de cestas básicas. Distribuímos cinco mil máscaras junto ao coletivo de mulheres indígenas. Nós chegamos em lugares em Alter do Chão que as pessoas não conhecem, nem quem mora lá há muito tempo, porque quem foi expulso acabou sendo colocado nesses locais muito longe da região mais central, e acaba tendo que andar muito para conseguir comprar alimento ou às vezes nem consegue comprar. Há uma desigualdade muito grande, porque quem vive ali no centro consegue sobreviver bem, mas basta andar um pouquinho para ver a desigualdade. Tem gente realmente passando necessidade num lugar que deveria ter uma economia boa, que poderia sustentar o povo que mora ali, mas sustenta só algumas, só os grandes empreendimentos. A região cresceu muito e, ao mesmo tempo, o índice de desenvolvimento social piorou.

Por que você decidiu estudar Relações Internacionais? Na sua visão, qual é a importância de envolver o mundo nas discussões climáticas e sociais na Amazônia? Como você acha que outras nações podem contribuir com a sustentabilidade e desenvolvimento da região amazônica?

Quis fazer Relações Internacionais justamente por ser uma pessoa da Amazônia. Muitas vezes quem está em espaços dentro e fora do Brasil, falando sobre a Amazônia, não tem o mínimo de propriedade ou experiência para isso, não tem a experiência de fato de uma pessoa que viveu na Amazônia, não conhece as realidades de lá. Estar lá dentro dá uma visão totalmente diferente. Decidi fazer esse curso para levar a voz dos povos da Amazônia, principalmente da juventude, para fora de lá.

Sobre como outras nações podem contribuir, geralmente o que vemos nos noticiários é que um determinado fundo está destinando tantos bilhões para preservação da Amazônia para o governo brasileiro. Algumas iniciativas são mais legais, outras nem tanto. É muito importante ter esse diálogo com outras nações. Quando houve as queimadas em 2019, o presidente da França falou que “a Amazônia é um patrimônio mundial que precisa ser preservado”. Nós entendemos também essa fala de que as grandes nações que dominam o mundo querem tomar a Amazônia e administrar da forma que elas quiserem. Tem que haver um diálogo entre essas outras nações e as pessoas de todas as Amazônias, não só a parte brasileira, para podermos realmente discutir o que seria melhor para nós e para o mundo como um todo. O que temos que fazer? Como nos juntamos para lutar? Não só pela Amazônia, mas pelo clima, por uma pauta socioambiental e pelo bem estar da humanidade. 

Seu pai fez parte de uma banda de carimbó em Alter do Chão. Para você, qual é o poder da música no ativismo?

No Pará e na Amazônia temos vários ritmos. O carimbó é a junção de três culturas: a indígena, a afro e a espanhola. Tem o tambor da cultura negra, a dança mistura a indígena e a espanhola. No Pará todo tem a cultura popular do carimbó e de outros ritmos que são específicos de cada local. Em Alter do Chão tem o marambiré e o quebra-macaxeira, por exemplo. Mas falando do carimbó, tem o movimento de carimbó do oeste do Pará, que é composto por cinco mestres e meu pai é um deles. Ele saiu de Santarém em 2011 e veio para o sudeste para trazer o carimbó e um pouco da nossa cultura e da história da Amazônia. Ele sempre diz que nas letras dele, nas oficinas e em tudo o que faz, quer mostrar a experiência de uma pessoa que viveu na Amazônia, para as pessoas ouvirem e para qualquer um de qualquer lugar apoiar o território. É muito importante termos o apoio de todo mundo. Então nós usamos isso como um instrumento de transformação social, envolvendo toda a comunidade. Quando eu era bem pequeno, meu pai ia para uma praça em Santarém, na orla, e dava aula de percussão. Eu ficava sempre lá, observando. Nós usamos esses espaços de construção da cultura como um espaço de ativismo, pelas letras, pelas falas dos artistas e dos outros mestres. Chico Malta, que é o coordenador do movimento de carimbó de lá, é o mestre mais velho e é uma máquina de conhecimento. Nós conseguimos nos transformar ouvindo essas pessoas falarem, começamos a pensar mais no que está acontecendo em nosso entorno.

Qual mensagem você gostaria de passar para as pessoas que assumirem os próximos governos do Brasil? 

Nós precisamos ter um sistema que nos represente e seja comprometido com a vida das pessoas. Se temos pessoas que não nos representam, elas acabam cuidando dos seus interesses e fazendo política para elas mesmas. Às vezes, quando olhamos para o que está acontecendo, é difícil de acreditar que essas pessoas não conseguem pensar em como algumas decisões vão trazer consequências para elas e suas famílias. Precisamos entender que nós vivemos em um conjunto e que precisamos de bem estar para todos. Precisamos de políticos que sejam comprometidos com a vida, com a dignidade e os direitos das pessoas. Nós temos uma Constituição belíssima, que precisa ser obedecida e respeitada. Quero deixar essa mensagem para as próximas pessoas que forem governar o Brasil, seja em qualquer esfera: que elas respeitem o direito do indígena à vida, o direito de poder sair na rua, respirar ar puro, de poder ter terra, tomar banho em rios de água limpa. Que todas as partes dialoguem para vivermos em um mundo harmônico.

Sobre o Amazoniar

O Amazoniar é uma iniciativa do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) para promover um diálogo global sobre a Amazônia e sua importância para as relações do Brasil com o mundo. No seu quarto ciclo, o Amazoniar promoverá uma série de entrevistas com jovens brasileiros e estrangeiros que inspiram a mobilização por justiça climática, especialmente na Amazônia. Entre maio e junho, os bate-papos serão publicados semanalmente na íntegra no site do IPAM. Inscreva-se na newsletter para receber as próximas entrevistas!

*Jornalista e consultora de comunicação no IPAM


Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Saiba mais em https://brasil.un.org/pt-br/sdgs.