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IPAM Amazônia | Paulina Chamorro: “Somos todos interdependentes da floresta”

IPAM Amazônia | Desenvolvimento sustentável da Amazônia pelo crescimento econômico, justiça social e proteção da integridade de seus ecossistemas.

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Paulina Chamorro: “Somos todos interdependentes da floresta”

28.06.2022Notícias
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Paulina Chamorro. (Foto: Arquivo pessoal)

Por Lays Ushirobira*

Se por um lado a Amazônia é pauta nos jornais do mundo todo, por outro lado, ainda há muito espaço para melhorar a comunicação sobre a agenda socioambiental – e os jovens desempenham um papel fundamental para essa mudança. Isso é o que comenta a jornalista Paulina Chamorro, em entrevista à equipe do Amazoniar, iniciativa do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) para promover um diálogo global sobre a Amazônia.

Há 25 anos atuando no jornalismo socioambiental, Chamorro iniciou sua carreira no rádio tratando de assuntos relacionados ao meio ambiente. Recebeu duas vezes o Prêmio Socioambiental Chico Mendes por melhor programa de rádio, além da medalha João Pedro Cardoso, a única condecoração ambiental do país, por seu papel na comunicação sobre cultura e meio ambiente.

Colaboradora fixa da National Geographic, Paulina apresenta o podcast Vozes do Planeta desde 2016 e é uma das idealizadoras da Liga das Mulheres pelos Oceanos, movimento feminino pela conservação dos mares. Sua maior paixão é fazer grandes expedições na natureza e contar as histórias dos povos locais, suas lutas, costumes e particularidades, a partir do contato direto com cada cultura e região.

A jornalista conversou com a equipe do Amazoniar sobre suas experiências cobrindo a floresta, os desafios da comunicação num cenário onde a desinformação ocupa cada vez mais espaço e como as jovens lideranças são a chave para levar a mensagem dos povos indígenas para além de seus territórios. 

Confira a entrevista:

Do que você mais se orgulha de ter feito na/pela Amazônia?

Tive a oportunidade de estar em diferentes lugares da Amazônia, com diferentes abordagens. Para o “Mar sem fim” [projeto exibido na TV Cultura], uma viagem de veleiro que fizemos para mostrar como é a visão do mar para quem olha para a costa, navegamos por seis meses na Amazônia. Já estive lá para reportar sobre desmatamento, mas principalmente para falar sobre conservação e uma nova economia. Não posso falar de orgulho, mas talvez sobre a missão de jornalista que foca em temas socioambientais, traduzindo e aproximando a Amazônia das pessoas. Uma reportagem que traduz bastante o que é abordar a Amazônia em diferentes frentes foi uma das últimas entrevistas que o Zé Cláudio [José Cláudio Ribeiro da Silva, líder do projeto de assentamento agroextrativista Praialta Piranheira] deu antes de ser morto. Ele me falou que estava sendo ameaçado, que já tinha feito 33 boletins de ocorrência, e o último recurso dele era falar com a imprensa. Poucos meses depois, um colega que tinha feito a mediação para essa entrevista me ligou para dizer que tinham matado o Zé Cláudio. Depois eles [José Cláudio e a esposa Maria do Espírito Santo] viraram guardiões, heróis da floresta pela ONU, mas é uma homenagem póstuma. Talvez seja uma das matérias mais importantes, mas é frustrante saber que nem mesmo com isso conseguimos diminuir a violência no campo, e que a violência contra as pessoas que defendem a floresta só cresce.

O que a Amazônia significa para você?

Eu penso na Amazônia com pessoas, ouvindo as histórias, e também penso nessa grandiosidade que talvez não consigamos resumi-la. Aconteceram coisas incríveis e tem lugares incríveis que não conhecemos. Gosto de contar essas histórias para nos tirar do que é o senso comum ou da ideia de que é um só ambiente. Gosto de contar que na Amazônia temos a maior extensão de manguezais do mundo, e que temos mar também. Tem a divisa com o mar e ambientes que são absolutamente maravilhosos, conectados e importantes. Temos as reentrâncias maranhenses, que é uma divisão da Amazônia quando ela vai se transformando em Mata Atlântica. Essas reentrâncias são uma série de rios e ilhas divididas, algumas com dunas, outras com mangue, que têm uma cultura particular em cada uma delas. A Ilha de Lençóis é uma ilha sebastianista, eles acreditam que terá a volta de Dom Sebastião para tirar todo mundo dessa lama em que estamos. Imagine, um rei do passado, português. Temos uma cultura muito rica. A Ilha do Marajó é uma região amazônica que não temos ideia. A cidade de Afuá, que fica ali na ilha, não tem ruas, é toda de palafita, então só se anda de bicicleta, diferentes tipos delas. O barato lá é você ter a sua. Eles põem alto-falantes e vão pedalando por uma cidade inteira de palafita, é uma loucura. Temos uma cultura alimentar que surgiu muito forte manejada da Amazônia. Gosto de contar sobre a importância dos povos indígenas e como eles nos ajudaram a ter muito do que comemos hoje, é um manejo muito antigo. Fazer essa conexão da Amazônia com o alimento ou com nossa ancestralidade também é importante. Escrevo muito sobre conservação. Tento fazer com que os entrevistados consigam tirar o melhor deles, do seu pensamento, da sua luta, o melhor do seu conhecimento. É muito importante ter esse espaço para as pessoas que estão na luta, porque já temos coberturas sendo feitas do que vem acontecendo contra a Amazônia, e também é importante ter espaços para conhecermos e nos aproximarmos de quem faz muita coisa pela floresta.

Quais deveriam ser as prioridades do Brasil para alcançarmos as metas do clima? Como a população brasileira e a comunidade internacional podem contribuir?

Acho que podemos começar ajudando os povos da floresta. Estou falando principalmente de territórios indígenas, porque estamos vendo claramente nos mapas e monitoramentos que é onde ainda está resguardada a biodiversidade. Se nós, sociedade brasileira, não entendermos que os territórios indígenas têm que ser protegidos e que não são só eles que têm que proteger, mas todos nós porque é uma questão de sobrevivência da Amazônia e do planeta, estaremos muito lascados. 

Neste momento existe uma ameaça em campo com a violência e a invasão de territórios indígenas. Só no território Yanomami são mais de 20 mil invasores. Se isso não é uma guerra, o que é? E isso é só um dos casos que estamos vendo. Ao mesmo tempo, não estamos conseguindo resultados numa outra guerra, que é dentro do Congresso. A deslegitimação da importância dos territórios e dos direitos tem sido feita pelo poder público também. Direitos da população brasileira vêm sendo tirados dentro do Congresso. Precisamos de uma ação direta de influência lá dentro, porque claramente acontece um descolamento entre o que a sociedade quer e os interesses que vêm sendo colocados no Congresso. Esse PL da mineração [projeto de lei 191/2020, que regulamenta a mineração em terras indígenas] é a prova clara disso. Enquanto acontecia o Ato pela Terra lá fora, lá dentro o PL passou pela Câmara dos Deputados. Então temos que tentar olhar para outros caminhos que possam ser mais efetivos e mais urgentes. Teremos agora novas eleições e muita coisa ainda pode acontecer até lá.

Como você enxerga o papel dos jovens na tomada de decisões em relação à Amazônia? 

Tenho me preocupado muito em ouvir a juventude ativista e tenho aprendido demais, principalmente na resiliência. Ao mesmo tempo, eles têm conseguido criar uma agenda bastante importante. Tenho falado bem mais com ativistas climáticos, do território e lideranças indígenas jovens que me ensinaram que existe um futuro ancestral. Achei isso muito bonito: é olhar para o futuro, mas sabendo valorizar e resguardar o que o constitui. Esse futuro ancestral é possível desde que você carregue a luta que já foi feita. Traz uma esperança pelo nível de articulação que existe. Aos poucos eles têm conseguido chegar a outras instâncias além do Congresso. Participar localmente da política pública é muito importante. É um papel que vejo muito positivamente na atuação dos jovens. É um tipo de ativismo muito focado e de resultados que vão sendo construídos. Seria muito bacana se isso pudesse inspirar outros jovens, mostrando que é possível ter essa participação mais ativa, porque eles serão afetados. Faltam esses espaços dentro da política e da imprensa, ainda são tratados só como um nicho. 

Qual a importância da participação popular em manifestações como o Ato pela Terra? 

Eu sou chilena, são realidades diferentes. Meu país acabou de ser transformado, tem o presidente mais jovem do planeta. Isso foi resultado da força jovem, da força de ter gente reconhecida dentro do aspecto político e das mobilizações. As mobilizações começaram há alguns anos e foram lideradas por jovens, tendo o seu ápice em 2018, e geraram inclusive uma nova Constituição para o país. Acho que a história das mobilizações tem duas frentes: uma para tentar mudar gerar mudanças, mostrando a força de muita gente junta reivindicando algo, mas tem também uma força interior, porque quando você participa de movimentos assim, você vê que não está só. Às vezes o ativismo nos traz um pouco de solidão e frustração, então são momentos como esse de alegria, com música, por uma causa, que fortalecem cada um de nós nessa luta. Eu vejo que todo mundo está emocionalmente esgotado com a pandemia e um governo que ameaça o tempo todo a natureza do Brasil. Mas acho que o Ato pela Terra serviu principalmente para fortalecer o movimento, principalmente jovens que nunca tinham ido a uma manifestação. Espero que tenham outras e que não sejam só da classe artística. É importante ter uma agenda muito clara. O Ato pela Terra era contra a boiada que está passando no Congresso, então mobilizações com pautas específicas são bem eficientes, principalmente para voltarmos a ter esperança e força. É uma loucura o que está acontecendo, então temos que nos unir.

Como jornalista atuando há mais de 20 anos, você pôde testemunhar o surgimento da onda das fake news e de como isso tomou o espaço da informação no debate público. De que forma esse cenário poderia ser revertido no contexto da Amazônia e qual seria a participação do jovem nisso?

Tem dois aspectos: a linguagem e a distribuição de conteúdo. Acho que temos falhado na linguagem. Nós que trabalhamos comunicando a importância da conservação temos falhado um pouco em simplificar a mensagem. Isso é bastante claro nas fake news: as linguagens são muito claras e acessíveis. Quando soltamos alguma notícia com informações verdadeiras e apuradas, temos que ser igualmente claros e acessíveis. E sobre a forma de distribuição, deixamos por muito tempo – e estou falando da minha experiência – de olhar para o WhatsApp e outros meios que são mais disseminados. Hoje, há canais no WhatsApp dedicados à distribuição de notícias que desconhecemos. Que tipo de notícia vem sendo colocada lá? Vejo a participação do jovem ocupando esses espaços e melhorando essa linguagem para distribuir informações do que está acontecendo de verdade e que são importantes para mudar as realidades. Por exemplo, qual a importância da Amazônia para termos comida no prato no dia a dia? Relacionar com a questão da seca do país. De que maneira vamos trazer essas informações para o senso comum? Usando as mesmas armas que as fake news usam: uma linguagem acessível e a forma de distribuição – e quem eu vejo que pode fazer esse papel são os jovens.

Qual é a importância de termos fontes confiáveis para informar sobre questões socioambientais? Quais os principais desafios que você enfrenta como jornalista na cobertura do tema?

A questão das fontes é uma consequência justamente de fake news, porque as pessoas distribuem sem checar se aquela informação é verdadeira. As fake news pegam muito a cabeça da pessoa. Pode ser a teoria da conspiração mais maluca, mas se aquilo passou na cabeça da pessoa e ela vê alguém reafirmando, é fácil pensar: “o fulano que passou para mim, e não é maluco, então deve ser verdade”. E assim vai passando a história sem checar. Eu sofri bastante no período pandêmico porque a checagem para mim sempre foi em campo. Com a pandemia, não tínhamos mais essa possibilidade. Tenho uma lista de especialistas que não necessariamente estão nas reportagens, mas tenho o cuidado de checar as informações com essas pessoas para trazer clareza. Hoje, com a velocidade das fake news, o maior apelo que nós comunicadores temos é essa questão da checagem.

Há várias iniciativas digitais de jovens comunicadores voltadas para o engajamento da juventude na questão climática. Qual é o papel de jovens comunicadores para a pauta socioambiental? O que poderia ser feito para incentivar esses projetos dedicados a combater a destruição da Amazônia?

Sempre trabalhei de forma independente e agora venho procurando fazer parcerias. Recentemente, dentro da Liga das Mulheres pelo Oceano, queríamos falar sobre gênero, clima e oceano, e convidamos o Engajamundo para fazer isso juntos. Usando a força de distribuição e a comunicação da Liga, e a linguagem e visão do Engajamundo, fizemos uma série de podcasts. Para mim, foi uma novidade o trabalho coletivo, de cada um ter sua voz dentro da construção da história que você quer contar. A comunicação jovem vem sendo feita dessa forma e tem me chamado muito a atenção. Nesses coletivos há espaço para todo mundo, com muito diálogo e comprometimento. Através da linguagem e de canais de distribuição como jogos e redes sociais, que vêm sendo usados pelos jovens para tratar dos mais diversos assuntos, podemos levantar a questão da Amazônia. Tenho visto aumentar dentro dos territórios na Amazônia o número de repórteres da floresta e de lideranças jovens indígenas conduzindo sua comunicação. Acho que isso só tende a crescer.

Quais mecanismos temos para aproximar campo e floresta da cidade, e vice-versa?

Gosto de falar de emoção. Acho que a comunicação ainda é possível para nos trazer para esses caminhos. Como já falamos, todo mundo está muito cansado e desgastado, e sem esperança nós não vamos a lugar nenhum. Acho que é muito importante fazer essa conexão, e que seja feita através da emoção. Ainda podemos mostrar que é do campo que vem o alimento, que é da floresta que vem a água, que o açaí que você come saindo da academia só é possível porque foi manejado de uma maneira incrível pelos indígenas há muito tempo, que a tapioca que você come é comida indígena. Trazer essa associação, que pode ser feita pela comida e pela cultura, para mostrar que fazemos parte da floresta. É o que Ailton Krenak e Davi Kopenawa falam: “nós somos a floresta”. Somos constituídos disso também. A desconexão que estamos vivendo é tão grande que não conseguimos olhar para o céu, para a chuva ou para a falta dela, e relacionar com o que vem acontecendo na floresta. Não conseguimos pensar que um alimento incrível nasceu a partir do manejo indígena, nem pensar que temos sangue indígena. Acredito que podemos fazer essa ponte contando boas histórias e trazendo emoção para as pessoas.

Qual mensagem você gostaria de passar para as próximas pessoas que assumirem o governo do Brasil?

Eu gostaria de relembrar que o Artigo 5 da Constituição brasileira diz que todo mundo tem direito a um ambiente equilibrado e conservado. É de extrema importância fazer isso valer, além de olhar para o povo brasileiro, para a natureza do Brasil e para a Amazônia como uma das coisas mais valiosas que temos neste planeta. A conservação desse ambiente estará na mão desse novo governo. Quero que se entenda a grandiosidade da Amazônia e da interdependência que não só o povo brasileiro, mas o planeta, tem com a maior floresta tropical do mundo.

Sobre o Amazoniar

O Amazoniar é uma iniciativa do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) para promover um diálogo global sobre a Amazônia e sua importância para as relações do Brasil com o mundo. No seu quarto ciclo, promoverá entrevistas com jovens brasileiros e estrangeiros que inspiram a mobilização por justiça climática, especialmente na Amazônia. Inscreva-se na newsletter para receber as próximas entrevistas!

*Jornalista e consultora de comunicação no IPAM


Este projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Saiba mais em https://brasil.un.org/pt-br/sdgs.