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Ouça as histórias de Daniel: brasileiro, nascido Munduruku

08.10.2021Notícias
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Munduruku tem mais de 50 livros publicados no Brasil e no exterior e é um dos nomes mais importantes da literatura indígena no país. Foto: arquivo pessoal

Mais do que uma paixão, contar histórias é uma forma que o escritor e educador Daniel Munduruku encontrou para “inquietar as pessoas e desentortar o pensamento”. Para ele, é um jeito de desafiar a lógica colonialista e pensar a partir de outros pontos de vista. “São perspectivas que os povos indígenas podem oferecer e têm oferecido ao longo desses 500 e tantos anos, mas que a sociedade tem feito ouvidos moucos para não escutar, porque não se interessa em ouvir esse outro tipo de sabedoria, que questiona o status quo. Ao invés de pensar o mundo existencialmente, a maioria pensa o mundo economicamente e isso acaba desvalorizando outras formas de ser humano”, disse durante o último encontro do Amazoniar, em 23/09, que teve como tema Ouça essa história: a riqueza da literatura e das lendas indígenas.

Natural de Belém do Pará, ele é formado em Filosofia, com licenciatura em História e Psicologia, além de doutor em Educação, com pós-doutorado em Linguística na UFSCar. Munduruku tem mais de 50 livros publicados no Brasil e no exterior e é um dos nomes mais importantes da literatura indígena no país, tendo sido premiado diversas vezes com suas publicações literárias.

Confira abaixo os destaques desse bate-papo.

Descolonizando a compreensão da história do Brasil

“Gosto de contar histórias e poder repassar minha trajetória, porque permite pensar como a história do Brasil vem sendo contada. Temos uma visão da perspectiva do colonizador. Como as nossas populações nunca tiveram a oportunidade de contar sua versão, porque foram vozes silenciadas ou, quando muito, colocadas nos rodapés da história, muitos acabaram não ouvindo nem descobrindo o que de fato era feito com essa população: perseguição, escravização, extermínio, genocídio.

Ao Brasil foi negada a possibilidade de conhecer outros modos de existência e ainda hoje isso é negado às nossas crianças, de modo que todo estereótipo nascido a partir dessa visão equivocada vai corroborar a história do vencedor e nunca reforçar a resistência do vencido. Nós, que fomos considerados eternamente vencidos, soubemos lutar para nos mantermos vivos.”

Filho e vítima do regime militar

“Nasci no dia 6 de fevereiro de 1964. No dia 1º de março, foi dado o golpe dos militares. Por conta disso, sou filho do regime militar e vítima dele – não como perseguido naquele momento, mas como uma criança que teve que ir para a escola obrigada por um projeto de “integração”, palavra usada pelos militares. Havia uma política integracionista e ela partia do princípio de que era preciso fazer com que os “índios” se tornassem civilizados. Desenvolviam uma política economicista de ensinar a trabalhar de acordo com os padrões ocidentais de desenvolvimento. Jogavam as crianças indígenas em contexto escolar fora das suas comunidades, porque assim elas poderiam aprender a “ser gente” e abririam mão de sua própria condição de indígena.

Eu não tinha costume de usar roupa e foi a primeira tortura que eu sofri: colocar a tal da farda, acompanhada de um tênis Conga que apertava os nossos dedos. Foi a primeira vez na vida que calcei um sapato e foi muito torturante. E foi dessa maneira, todo troncho, que cheguei na escola e, imediatamente, fui recepcionado pelos meus colegas me chamando de “índio”. Confesso que eu não sabia o que era índio. Fiquei procurando, achando que era um passarinho. Só depois que descobri que estavam se referindo a mim e que estava ligado a coisas negativas. Fui descobrindo isso de uma forma muito dolorosa: com rejeição, com falta completa de empatia das pessoas, com a negação de participação na vida social das pessoas. Isso tudo me dava uma angústia muito grande e isso fez com que eu prometesse a mim mesmo que eu não queria ser índio. Achava que era possível arrancar a minha cara. Lembro que havia uma moda de usar água oxigenada para ficar loiro e eu tentei fazer isso para descaracterizar o meu cabelo, para fugir do estereótipo que jogavam sobre mim e me humilhava.”

Avô Apolinário

“Meu avô Apolinário, um velho sábio muito importante na minha vida, é quem vai estabelecer em mim a marca que hoje eu trago, tanto na fala, quanto na escrita: a marca da esperança, de querer que as pessoas olhem para os nossos povos não do jeito que elas querem que a gente seja, mas como somos.

Um dia, eu estava sentado na beira de um igarapé e o velho me convidou pra tomar um banho com ele. A palavra do velho é sagrada, ele me levou a um lugar que eu ainda não conhecia na Amazônia, meio paradisíaco, formava um belo lago e tinha uma queda d’água. Ele me colocou sentado num lugar onde cai água e me deu uma ordem para ouvir o que o rio tinha a me dizer. Eu não sabia que rio falava de verdade, apesar de já ter ouvido essas histórias. Naquele primeiro momento, para minha frustração, o rio não falou. Quando muito, o senti rindo da minha cara.

Meu avô disse: ‘você não ouviu o rio, porque está com muito barulho na sua cabeça. Para ouvir o rio, tem que estar com o pensamento livre’, e foi me dando algumas lições ao longo dos três anos que vivi com ele. Eram lições sobre como ouvir a natureza: ‘meu neto, por acaso você já viu o rio se lamentar quando encontra um obstáculo diante de si? Sabe porque o rio não faz isso? É porque ele tem uma voz dentro dele que fica lembrando que se desistir, ele apodrece. E se ele apodrecer, não serve mais para nada, porque no rio podre não tem vida, não tem alegria, não tem peixe, criança não vem mergulhar. Dentro dele tem uma voz lembrando que ele tem que seguir adiante, porque a grande missão do rio é mergulhar no mar. Ele só se realiza quando mergulha no mar’.

Só fui entender isso com o passar do tempo, no momento em que ele assumiu seu papel de avô, um papel muito importante nas culturas ancestrais em geral, de ser esse referencial. Ele foi me ensinando a ler o mundo, pois é a natureza quem nos ensina. Quando a gente não deixa a natureza, a gente se percebe parte dela e ela vai nos ensinando a como conduzir a nossa existência.”.

Indígena contemporâneo

“Nós indígenas somos contemporâneos, não estamos presos ao passado. O passado nunca foi uma prisão para nós, pelo contrário, sempre foi o motor da nossa liberdade e do nosso presente. O povo indígena é da natureza, da circularidade, que se sente parte de um coletivo, que quebra a visão capitalista, monocrática de achar que a vida é ser ocidental, ter dinheiro, ser alguém na vida. A felicidade está justamente na diversidade do Brasil, que aprendemos a não gostar.”

Veja na íntegra o encontro do Amazoniar com Munduruku:

Garanta sua vaga nos próximos encontros do Amazoniar

O Amazoniar é uma iniciativa do IPAM para promover um diálogo global sobre a floresta amazônica e sua influência nas relações entre o Brasil e o mundo. Clique aqui para ler mais sobre o terceiro ciclo, que tem como tema “Cultura e arte dos povos indígenas da Amazônia como forma de resistência”.

Concurso de fotografia Amazoniar recebe inscrições até 24/10

Como parte do terceiro ciclo do Amazoniar, o IPAM lançou um concurso de fotografia, com o tema “Amazônia pelo Planeta”. Ele está aberto para pessoas de qualquer idade e nacionalidade, e tem como objetivo principal incentivar o registro de realidades da Amazônia, além da produção cultural e artística na região.

Uma comissão de jurados selecionará 20 fotografias ao todo. Os vencedores terão suas fotos exibidas, em formato digital ou por meio de projeção, em Glasgow, na Escócia, durante a Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Mudança Climática (COP 26), e no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, ao lado de exposição com previsão de inauguração no fim do ano. Confira todas as regras e participe!

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