Tainá Andrade*
Roiti Metuktire, 35 anos, carrega no sangue a luta coletiva pela proteção do seu território, a Terra Indígena Kayapó, situada no norte de Mato Grosso. Das dezenas de netos de Raoni Metuktire, maior liderança indígena do planeta, ele está entre os três que assumiram diretamente o legado tio-avô em levar a luta pela terra adiante.
Há alguns anos, Roiti trabalha para que sua região seja conservada e as tradições de seus antepassados mantidas. Para isso, coordena o Núcleo de Gestão e Proteção Territorial do Instituto Raoni, que desde a sua fundação, em 2001, capta recursos e estrutura ações para proteger a floresta e a vida que se encontra nela.
Roiti embarcou em uma jornada de conhecimento que é compartilhada diariamente com as cinco comunidades que compõem o território e tem tido bons resultados.
Hoje, a terra indígena Capoto-Jarina, no norte de Mato Grosso, região do Xingu, tornou-se referência em gestão e proteção territorial. Segundo Roiti, é reconhecida entre as populações indígenas como a mais protegida das cinco comunidades que compõem a terra indígena Kayapó.
Isso devido à ausência de ilícitos ambientais e de desmatamento ativo, com sistemas robustos de monitoramento e vigilância, forte articulação comunitária e diálogo internacional consolidado.
Como tudo começou
Na cultura Kayapó, a floresta, a água, os animais e todos os seres vivos não são recursos, mas condições essenciais de existência. “No mundo indígena, tudo vem da floresta. A gente caça, planta, busca o alimento. Se isso é tirado, o indígena praticamente morre, porque nossa cultura não é baseada na compra, mas na relação com o território”, explica Roiti.
As mudanças no entorno da terra indígena Kayapó começaram a afetar diretamente o cotidiano dos indígenas no interior do território, algo que os mais velhos vinham percebendo. Foi em 2009, em um grande incêndio, que acendeu o alerta: o fogo estava mais intenso e mais frequente do que em outros períodos.
Sem acesso à tecnologia ou a dados climáticos na época, as lideranças passaram anos tentando entender o que estava acontecendo. A busca por parcerias, a partir de 2014, deu início a estruturação de uma área específica de monitoramento territorial, incorporando ferramentas tecnológicas e aproximando o conhecimento tradicional de sistemas modernos de análise ambiental.
Virada com a tecnologia
A formação de jovens passou a ser central nessa estratégia. Roiti saiu do território em 2019 para estudar e nesse movimento passou a enxergar de forma mais clara os impactos do avanço do agronegócio e da lógica predatória ao redor da terra indígena Kayapó. Onde antes havia floresta, hoje predominam grandes áreas de soja.
Ao retornar, sua luta tornou-se pessoal. Pai de três filhos, ele vê na proteção do território uma responsabilidade com o futuro. “Quero que meus filhos possam dizer: essa é minha casa, é aqui que minha família existe, é daqui que vem o nosso alimento. Quero que eles vivenciem o que a gente viveu com a caça e a pesca, mas também que tenham acesso aos dois mundos”, afirma.
O trabalho no Instituto Raoni o aproximou mais do objetivo. Em 2017, a organização implementou, com o apoio do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), o SOMAI (Sistema de Observação e Monitoramento da Amazônia Indígena) na terra indígena Kayapó.
O sistema monitora desmatamento e ameaças em terras indígenas, como o aumento da seca, a imprevisibilidade das chuvas, por exemplo. Integra conhecimentos científicos e tradicionais para a conservação ambiental.
A comunicação no território também passou por uma transformação profunda. Se até 2019 o diálogo entre as aldeias era majoritariamente por rádio, hoje, de acordo com Roiti, cerca de 90% da terra indígena Kayapó se comunica via internet. Isso facilitou o acesso à informação sobre mudanças climáticas, desmatamento e legislação ambiental, além de aproximar jovens das decisões coletivas.
Hoje, a implementação das brigadas de incêndio é considerada essencial para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Em 2024, apesar de todos os esforços, o território perdeu cerca de 17% de sua área para o fogo, de acordo com um levantamento do Greenpeace Brasil.
Em resposta, as comunidades passaram a investir em SAFs (Sistemas Agroflorestais). Reutilizam áreas já degradadas, evitam novos desmatamentos e reduzem o uso do fogo nas roças. Os resultados têm sido positivos, inclusive na recuperação de solos empobrecidos após anos de queimadas.
“Nosso objetivo é proteger o que resta de mata e floresta para que não apenas os povos indígenas possam viver nela, mas para manter um equilíbrio do qual todos os povos dependem”, diz Roiti.
Ainda assim, há desafios e obstáculos na implementação. Segundo Metuktire, o diálogo com anciãos e mulheres anciãs exige sensibilidade e persistência. Muitas práticas tradicionais dos kayapós exigem o uso do fogo, como a coleta de mel, a obtenção de penas para o artesanato ou a preparação do terreno para as roças.
A solução encontrada, de acordo com o coordenador, tem sido o manejo integrado, com queima prescrita e acompanhamento dos brigadistas. Além do diálogo ativo com os mais velhos para evitar ruídos e explicar a importância de não usar o fogo indiscriminadamente, mas aguardar os dados do monitoramento para agir.
Dessa forma, o respeito à cultura permanece e, ao mesmo tempo, incêndios de grandes proporções são evitados. O coordenador relata ter conseguido que cerca de 60% da comunidade se conscientizasse.
“A comunidade Capoto-Jarina se tornou um modelo de gestão de proteção do território. A nossa experiência tem sido procurada por outros territórios que desejam adaptar metodologias e alcançar feitos semelhantes”, explica Rioti.
O trabalho se destaca pela participação ativa de mulheres, jovens e lideranças, pelo respeito aos mais velhos e pela união de uma família ancestral que segue orientando decisões coletivas.
Essa pode ser a chave para garantir a floresta viva, prova que tradição e inovação podem caminhar juntas. “Acredito que como representação de uma liderança jovem, antigamente, para os mais velhos, a luta era feita com contos, pinturas, caça. Hoje, para nós, é tecnologia, papel, boa comunicação”, conclui Roiti.
*Analista de Comunicação do IPAM.


