Tudo o que você queria saber sobre fogo na Amazônia, mas não sabia para quem perguntar

Todo ano, a Amazônia registra casos de queimadas e incêndios florestais, com intensa liberação de fumaça e emissão de gases do efeito estufa. O que pouca gente sabe é que o fogo não é natural no bioma.

Por isso, o IPAM desenvolveu essa cartilha com as perguntas mais comuns que recebemos sobre o tema. Aprenda e dissemine boas informações!

DINÂMICAS DO FOGO

Todo ano tem fogo na Amazônia por causa da estação seca?

Infelizmente sim, mas por um único motivo: alguém acende um fósforo.

A floresta amazônica é um ambiente úmido, e o fogo natural acontece raríssimas vezes no bioma, a cada 500 anos ou mais. Mesmo na estação seca, quando há condições ambientais e material combustível mais favoráveis, a umidade presente na região não permitiria tantos focos de calor se não houvesse a ação humana como fonte de ignição constante.

O fogo na Amazônia é resultado de três fatores, o que chamamos de “triângulo do fogo”:

1. Condições ambientais: no “verão amazônico”, entre maio e outubro, quando está mais seco;

2. Material combustível: vegetação seca em abundância, que podem ser folhas e galhos caídos da copa das árvores e até árvores derrubadas;

3. Ignição: a fonte do fogo.

ATENÇÃO!

Com as mudanças climáticas, a floresta amazônica está mais inflamável devido ao “efeito de borda”, margem da floresta encostada em áreas desmatadas ou muito degradadas. Isso significa que, na presença de uma fagulha, o material combustível ali presente (como as folhas secas no chão) é mais suscetível ao fogo, o que pode levar a um incêndio florestal.

MAS

Mesmo com uma floresta mais inflamável, o incêndio florestal só acontece na Amazônia quando há uma fonte de ignição, que continua sendo o ser humano.

Afinal, é incêndio, queimada de pasto ou fogueira de são João?

Definitivamente não são fogueirinhas – que a rigor nem são vistas do espaço, pelos satélites de monitoramento.

Existem três tipos de fogo na Amazônia:

1. Fogo de manejo agropecuário: empregado por produtores rurais grandes, médios e pequenos, inclusive por populações tradicionais, para limpar o terreno de pragas e renovar o solo. Acontece principalmente em áreas de pastagem e é sempre intencional;

2. Fogo de desmatamento recente: queimar a vegetação derrubada é mais barato do que retirá-la com tratores; além disso, as cinzas ajudam a nutrir o solo amazônico para o plantio de pasto, por exemplo. É sempre intencional;

3. Incêndios florestais: é o fogo que pega a floresta viva, espalhando-se rapidamente pelas folhas secas depositadas no solo. Pode ser acidental, quando escapa de uma queimada próxima, ou intencional, quando colocado propositalmente com a intenção de degradar a floresta.

A floresta amazônica está queimando completamente?

É normal ver imagens de fumaça saindo da floresta e achar que uma grande coluna de fogo está devastando a Amazônia inteira de uma vez, quando na verdade ela está espalhada por toda a região: são diversos pontos de fogo queimando em momentos e locais diferentes.

Além disso, a estação de fogo é mais intensa em diferentes meses de acordo com a região da Amazônia: em março, há muitos focos em Roraima; em agosto, há mais casos na porção ocidental (Mato Grosso, Acre, Rondônia e sul do Amazonas); em setembro e outubro, na porção oriental (Pará).

O que tem a ver o fogo com o desmatamento?

Como o fogo é a forma mais barata e rápida de limpar um terreno recém-desmatado, a relação entre as duas ações é direta: quanto mais alta é a taxa de desmatamento na Amazônia, maior será o uso do fogo na região, e vice-versa. Foi o que aconteceu em 2019: em um ano que não foi mais seco do que o normal, houve um pico de fogo porque houve um pico de desmatamento.

A exceção acontece em anos extraordinariamente secos, com interação com El Niño, quando as condições climáticas e a abundância de material combustível induzem a mais escape de fogo, como observado em 2017.

SITUAÇÃO ATUAL

O fogo na Amazônia está pior mesmo?

Em 2019, houve 81% mais focos até agosto do que a média registrada entre 2011 e 2018 para o mesmo período, o que se explica pela alta do desmatamento nos meses anteriores. A tendência de crescimento foi interrompida pela ação do governo federal e pela moratória do fogo naquele ano.

No primeiro semestre de 2020, foram registrados 23% menos focos de calor no bioma Amazônia do que o primeiro semestre do ano passado pelo INPE. A redução é explicada pelo fogo registrado em Roraima em março de 2019, fora do normal, que desviou a curva para cima (importante notar que, mesmo retirando os registros de Roraima na conta de 2019, ainda assim houve mais focos de calor do que o mesmo período nos anos anteriores, então só isso não explicaria o pico registrado em 2019).

De forma geral, com exceção de anos extremamente secos e quentes (como aqueles com El Niño), o fogo costuma seguir o rastro do desmatamento: quanto maior a derrubada, mais queimada há.

A vegetação se recupera depois da queimada?

Sim, mas não como era antes. A composição vai mudar: as espécies pioneiras, que crescem melhor em ambientes abertos, dominam o ambiente. Se a floresta em pé for queimada várias vezes consecutivas, vamos observar uma presença maior de gramíneas.

É pequeno produtor quem queima? E os indígenas?

Os pequenos produtores usam bastante o fogo para limpar pastagens e roçados, e renovar o solo – tanto quanto os grandes e os médios produtores. Os três tipos de fogo são registrados em cada categoria fundiária na Amazônia. Essa é uma prática secular, que precisa ser deixada de lado.

COMPARAÇÕES COM OUTRAS REGIÕES DO PLANETA

Por que tanto alarde sobre os incêndios na Amazônia, se na Califórnia e na Austrália as florestas queimam todo ano?

Porque, ao contrário das florestas da Califórnia e da Austrália, onde o fogo é parte daquele sistema, queimadas e incêndios florestais não são naturais da floresta amazônica. Aqui, a origem é a transformação forçada da paisagem pelo ser humano.

E os outros países da Panamazônia? Queimam tanto quanto o Brasil?

Assim como acontece na Amazônia brasileira, o fogo no bioma espalhado pelos demais países da América do Sul também está relacionado à ação humana.

Mas e a Bolívia/África/Sibéria, que queimam mais do que a Amazônia?

Com frequência usa-se imagens de satélite da Nasa ou do INPE para afirmar que a Amazônia está queimando menos do que outras regiões do planeta. Esta é uma falsa dicotomia, pois é preciso comparar a Amazônia com a própria Amazônia, e o agregado em vez do retrato diário.

É o caso da África, um dos locais do planeta comumente usado nestas comparações, pois queima mais ou menos na mesma época do ano que há picos de fogo na Amazônia. Lá, em vez de florestas, as savanas são duramente atingidas, e também com grande influência humana.

Cada região do planeta, seja a África, a Bolívia, a Sibéria ou o Cerrado brasileiro tem um regime de fogo próprio, e algumas são dependentes do fogo do ponto de vista ecológico (a Amazônia, por outro lado, é um ecossistema sensível às chamas). Por isso, é preciso observar as particularidades de cada uma, e traçar comparações sobre o mesmo objeto, e não entre regiões tão díspares quanto uma floresta tropical úmida e uma savana.

MONITORAMENTO

Como o satélite vê o fogo na Amazônia?

Um conjunto de sensores ópticos presentes em nove satélites fornece mais de 200 imagens por dia processadas pelo INPE. Essas imagens registram pixels (elementos de resolução) com “temperatura radiométrica” acima de limiares predefinidos. Esses são classificados como focos de calor.  Desses, o INPE utiliza um como referência, o Modis a bordo do satélite Acqa, que tem a passagem logo após o almoço.

O sistema do INPE não “vê” o fogo em algumas situações, como frentes de fogo com menos de 30 m; fogo apenas no chão de uma floresta densa; e queimadas de pequena duração.

Foco de calor e queimada é a mesma coisa?

Não. Foco de calor é uma medida do satélite, que “vê” um ponto de alta temperatura no solo e identifica como fogo, mas sem determinar qual é o tipo. Esse ponto identificado pode ser uma queimada de pastagem, fogo de desmatamento recente ou incêndio florestal.

A gente sabe qual é a área queimada na Amazônia?

Existem algumas medições de área queimada, ou cicatriz de fogo, feitas por cientistas do Brasil e de outros países, com diferentes metodologias. Elas são bastante diferentes entre si, cada qual com sua limitações, e costumam subestimar a área.

Quais são os principais dados para interpretar a situação? Onde encontrar dados para fazer a análise correta?

Usamos o monitoramento oficial, fornecido pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Para fogo, a principal fonte é o Programa Queimadas – os dados atuais podem ser vistos em http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal-static/situacao-atual/.

Aqui é possível filtrar por Estado, bioma e região, inclusive baixando os dados em csv.

http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal-static/estatisticas_estados/

Além do INPE, outras instituições, como a Nasa, monitoram o fogo diariamente. O MapBiomas, por sua vez, traça o perfil do fogo pela cicatriz que deixa em todo o Brasil.

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